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    Início Cidades Um sítio no Sarapuí, várias capelas, suas padroeiras e três bandeirantes

    Um sítio no Sarapuí, várias capelas, suas padroeiras e três bandeirantes

    Distâncias geográficas e coordenadas históricas contestam origem a “Populo”

    À direita e abaixo do mapa consta a então vila de Sorocaba, com o rio Supiriri à esquerda do povoado (ao lado da região denominada Los Lazaros). A localização do córrego é mencionada também em ofício do Frei Pedro Nolasco da Sagrada Família, de 2 de novembro de 1816, ao então Governo da capitania de São Paulo pedindo resolução sobre a doação de terras ao Mosteiro de São Bento. No documento, o religioso menciona que o terreno ficava próximo do antigo Rio dos Couros, chamado de Ceopirira pelos indígenas, e que se transformou em Supiriri. O ofício também revela que, além da igreja, Balthazar Fernandes, o primeiro povoador de Sorocaba, cedera terreno para as lavouras que atendiam ao convento. As terras começavam de “uma roça de mandioca até sahir ao Campo onde morava Braz Esteves (Teves), indo contestar com Diogo do Rêgo e Mendonça até sahir ao campo hoje conhecido como Itapiva (Itapeva)”. A descrição reforça a instalação da Capela del Pópulo nessa região e não na área mais próxima à Bacaetava, como se pode ver no mapa (Foto: PERRON, C. São Paulo: Sorocaba e as Minas de Ferro de Ipanema. (Mapa). Paris, 1895)

    Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias

    Cristiano Mota

    Braz Esteves – o de número três – escolhe a região de Sorocaba para viver. Fixa residência em uma fazenda, descrita como “um sítio no Sarapuí”, situada a sete léguas da futura vila de Sorocaba (elevada sete anos depois, em 1661), mas possuindo terras que se estendiam até as matas altas de São Francisco, perto da cabeceira do rio Sorocaba.

    Para garantir o acesso dos parentes e agregados aos sacramentos católicos, o bandeirante paulista levantou, na propriedade mais próxima dos limites a Tatuí, uma “capéllinha” dedicada à Nossa Senhora da Conceição, padroeira dos bandeirantes.

    Com a morte dele, em 1678, a capela foi desativada, e a imagem da santa, transferida à matriz de Sorocaba pelo capitão-mor de Itanhaém, Martim Garcia Lumbria, na época em que esse ali residia.

    Por volta de 1760, ergueu-se outra capela em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, que também não resistiu ao tempo. O templo ficava “além-Ipanema”, perto da atual Bacaetava. Nas ruínas dela, Aluísio de Almeida, que cita o padre Vicente Hypnarowski, diz que fora edificada outra “antes de 1750” com a invocação de Santa Cruz.

    Esse templo podia ser visto, até meados do século 19, por quem transitava pela estrada para Tatuí, no trecho atravessado pelo rio Sorocaba. Em 1820, porém, da ermida restava somente a cruz, transferida para Campo Largo, para outra capela na entrada da cidade, quando essa era apenas “um pouso para tropeiros”.

    Ainda na região da propriedade do sogro (não se sabe se na mesma fazenda), o capitão Paschoal funda a Capela do Populo, em 1679, doando indígenas como força de trabalho para a construção e manutenção do templo.

    A cessão desse gentio era uma prática comum no período colonial, quando escravos doados por particulares eram “administrados” pela Igreja sob a justificativa de catequese. O coronel impusera como condição que eles não fossem recrutados para expedições. A capela existiu até meados de 1880 e abrigou uma imagem de barro cozido.

    Reorganizados a partir de livros e revistas históricos, esses dados confirmam a existência da Capela do Populo, mas não são suficientes para comprovar que Tatuí tenha se originado dela. Primeiro, porque nenhum registro menciona um desmembramento posterior. Segundo, dado que, mais tarde, a região em que ela estivera erguida testemunhará uma disputa eclesiástica envolvendo outros padroeiros.

    Sendo assim, de modo a não refutar o saber popular, que muito contribuiu para a perpetuação da memória, o mais provável é que essa ermida tenha, sim, sido o ponto de nascimento de um povoamento, como se verá mais tarde, mas não o tatuiano, aquele desmembrado de Itapetininga.

    Ademais, Almeida – padre, escritor e historiador nascido em Guareí, autor de incontáveis obras sobre o interior de São Paulo (com especial dedicação a Sorocaba) – dá informações controversas sobre a localização da capela.

    Apesar de mencioná-la perto de Ipanema, em uma obra, ele a localiza, em outro texto, no bairro de Itapeva. Segundo ele, Paschoal teria saído de São Paulo, partindo da região de Cotia e de Santo Amaro, e chegado ao planalto do rio Sorocaba, no ponto em que desagua no Itupararanga.

    Esse rio está situado mais próximo do bairro Itapeva que de Ipanema. Isso explicaria o fato de, em 1929, o orago ter sido transferido pelo bispo Dom José Carlos a uma nova capela construída no distrito de Brigadeiro Tobias.

    Ao narrar a história de Votorantim, o mesmo autor e folclorista escreve que o primeiro Paschoal (o pai do segundo, nascido em Sorocaba, que se tornou guarda-mor e ficou incumbido de descobrir as minas de Cuiabá nos anos de 1719 e 1720), foi quem construiu o pequeno templo.

    Quando volta a atenção a Sorocaba, Almeida acrescenta outra informação que pode confundir o leitor. Desta vez, é sobre o local de residência do irmão do fundador da Capela do Pópulo.

    Em 1952, ele diz que Jacintho morava com a esposa, Maria Leme da Silva, “dentro de uma sesmaria de uma légua em quadra, a começar no Supirirí”. Em texto anterior, de 1939, o historiador dá coordenadas sobre essa região.

    De acordo com ele, o Supirirí dividia-se em três becos: de baixo, do meio e de cima. Era neste último que havia uma estrada antiga para Campo Largo. O Supirirí de cima, aliás, seria a atual rua Comendador Oetterer, por onde também se vai a Iperó. Trata-se de um destino mais próximo a Ipanema, mas no centro de Sorocaba.

    Considerando essas localizações, com maior ou menor precisão, é perfeitamente possível aproximar Nossa Senhora do Pópulo de Ipanema. Contudo, como se vê, ainda que tivesse sido erguida na propriedade de Paschoal ou de Jacintho, a pequena igrejinha não ficaria a uma distância a qual o próprio historiador menciona em vários de seus escritos, percurso de seis a sete léguas.

    Esses registros, se tidos como válidos, afastam de vez a possibilidade da povoação de Tatuí ter se desmembrado da Capela do Pópulo. Fundamentalmente, em razão da geografia.

    No primeiro caso, se mais distante, a fazenda de Paschoal, situada na área compreendida entre Votorantim e o limite sudoeste de Sorocaba, ficaria a, aproximadamente, 17 quilômetros de distância de Araçoiaba, em linha reta. O morro de Araçoiaba do qual teriam saído os primeiros povoadores tatuianos está ao noroeste dessa região.

    Pela lógica dos caminhos da época, que contava com curvas, morros e travessias de rios, esse trajeto seria de cerca de três a quatro léguas (20 a 25 quilômetros) em deslocamento real. E no segundo, se a capela fosse perto de Ipanema, não seria tão distante de Sorocaba, o que aumenta a complexidade e a dificuldade de se adotar uma ou outra versão.

    Compreendida essa questão, passa-se para a análise do surgimento de Tatuí como consequência da Fábrica de Ferro do Ipanema.