Mais
    Início Cidades Um sítio agreste, ermo de casas e sua provável correlação com Tatuí...

    Um sítio agreste, ermo de casas e sua provável correlação com Tatuí antiga

    Registros de sesmarias revelam trajetória populacional: Tatuhú originou Tatuhy?

    Os contornos da exclusão: planta da Fábrica de Ipanema destaca a vasta área reservada ao corte de madeira e carvão. Foi o rigor dessas demarcações, sob a administração de Varnhagen, que forçou o deslocamento da população local para o planalto do atuhy-mirim, área que Saint-Adolphe descreveria em 1845 como um sítio “agreste e ermo” (Foto: Planta Topographica do Terreno Florestal da Fábrica de Ferro de S. João de Ipanema / Acervo Biblioteca Nacional)

    Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias

    Cristiano Mota

    Tanto a tradição oral quanto as fontes documentais apontam que a disputa entre Warnhagen e Malheiros gerou uma diáspora dos moradores de Ipanema. Os conflitos com os habitantes – que invariavelmente resultavam em expulsões – remontam, no entanto, ao início do empreendimento. Um texto escrito por Jozé Ferreira Coelho, publicado em 1817, explicita essa tensão constante.

    O português relata que, anos antes da chegada da Corte, o Ministério dos Negócios Ultramarinos havia expedido ordens para proibir o corte de madeiras, sem, porém, delimitar com precisão a área de abrangência da medida.

    Essa indefinição permitiu que as autoridades locais aplicassem a norma conforme seus interesses, ocasionando a prisão de moradores por cortarem matos que haviam adquirido com recursos próprios e que eram indispensáveis à sua subsistência.

    Coelho registra que, no Brasil, era costume derrubar mato e queimá-lo para que as cinzas servissem de adubo, prática fundamental para o cultivo. Ainda assim, “forão os miseráveis vivendo mais ou menos incomodados até a época em que o rei firmou a carta régia para ereção da fábrica”, quando então se tratou de fixar os limites da fazenda e do distrito mineiro.

    Em 1810, sob a direção do sueco Hedberg, Dom João VI regulamentou o perímetro e definiu a área a ser ocupada pela fábrica. O príncipe regente ordenou a compra de uma sesmaria para indenizar os moradores que precisariam se mudar.

    Parte deles, porém, não aceitou os terrenos e preferiu receber o valor em dinheiro. No ano seguinte, 1811, a Junta Diretora determinou a criação de dois “destrictos”: o da fábrica, destinado aos edifícios e pastagens; e o mineiro, privativo ao corte de madeiras.

    Esse último compreendendo uma vasta área que se estendia desde “a estrada de Itapetininga até o rio Sarapuí, por este abaixo até o Sorocaba, e subindo por este até o dito rocio, acrescido de mais um quarto de légua nas margens opostas dos dois rios”.

    Na época, todos os moradores do distrito pequeno (o da fazenda da fábrica) foram expulsos. A maioria deles sem indenização, com exceção de dois ou três habitantes. Já os que tiveram de sair do distrito grande (o mineiro), que comportava de 250 a 300 famílias, “não receberam um real”.

    A criação desses distritos tinha dupla finalidade: assegurar áreas necessárias para o empreendimento e garantir recursos para a alimentação dos fornos da futura fundição de ferro.

    Na região demarcada pela Junta Diretora, as árvores mais procuradas para a produção de carvão vegetal incluíam aroeira (Myracrodruon urundeuva), cambará (Gochnatia polymorpha), cambuí (Myrciaria tenella), canjerana (Cabralea canjerana), canela (Ocotea spp.), guabiroba (Campomanesia xanthocarpa) e peroba (Aspidosperma spp.). A lenha extraída dessas espécies também era utilizada na calcinação do calcário e no acionamento de máquinas a vapor.

    A dispensa de moradores, tanto no distrito pequeno quanto no grande, era feita por meio de editais. Através desses documentos, a Junta Diretora fazia valer suas decisões.

    Em 1811, o órgão estabeleceu que nenhum morador poderia plantar sem obter licença; em 1815, adicionou a todo aquele que quisesse cultivar a obrigatoriedade de produzir carvão, sendo que as quantias variavam de acordo com a distância do espaço delimitado; e em 1816, que cada um, sempre que quisesse plantar, teria de obter licença, sendo autorizado a cultivar apenas nas áreas dos matos virgens e a reservar capoeiras altas e baixas, sem necessidade de produzir carvão.

    A última pá de cal que faltava veio em fins de junho de 1817, quando Warnhagen determinou que “nenhum dos referidos moradores no districto mineiro fizesse plantação alguma”. A alegação era a mesma: preservar a mata necessária para os trabalhos da empresa.

    Contudo, Coelho – que já havia reportado a situação dos moradores à Coroa três anos antes (em 19 de abril de 1814) –, expõe em seu texto as disputas de poder.

    A mais emblemática foi o braço de ferro travado entre o administrador e o padre Malheiros: “Há mais de dous annos se trabalha, segundo dizem, no Rio de Janeiro para conseguir a creaçaõ de uma nova Freguezia dentro da Fábrica, e que para isto muito concorre o Snr. Varnaghen, mandando, como administrador, muitas attestaçoens suas, e outras appenas de alguns membros da Junta”, conta.

    Esse trecho confirma a retirada dos habitantes, em 1817, atribuída a uma ordem régia cuja data é imprecisa e cujo documento ainda não foi localizado. Também esclarece que os processos de reassentamento – recontados pela história e, por isso mesmo, replicados por entidades públicas – tiveram origem nessa expulsão, uma vez que parte dos moradores que vivia no entorno da fábrica, impedida de cultivar a terra ou cortar madeira, deu início a novos povoamentos.

    Saint-Adolphe (1845) permite demarcar o surgimento e o desaparecimento do primeiro desses núcleos ocupacionais, recorrentemente vinculado a Tatuí atual: o sítio chamado “Tatuhú”, que, no começo do século XIX, era apenas um lugar “agreste, ermo de gente e de casas”. O nome desse povoado, na língua tupi, descrita por Martius (1867), significa “ágoa de tatu”.

    Em 1810, uma parte de seus moradores, motivados pela fundação da Real Fábrica de Ferro, migrou para a região, “resolutos a entregar-se á agricultura”. Sete anos depois, porém, a proibição de Warnhagen obrigou todas as pessoas que não trabalhavam na fábrica a deixarem as terras da Coroa. A maior parte delas juntou-se aos povoadores de Tatuhú.

    Rodrigues (1952), no entanto, apresenta outra versão sobre o destino escolhido como novo lar pelos habitantes expulsos do entorno da fábrica. Segundo o autor, a política intransigente de Warnhagen – de negar “pão e água aos indesejáveis vizinhos” – resultou em, pelo menos, três deslocamentos.

    Enquanto a minoria migrou para Corumbá (bairro do atual município de Iperó) e para o “Benfica”; a maioria permaneceu nas imediações do Morro de Ferro. Esse Benfica (grafado com “n”) corresponde precisamente ao sítio Tatuhú, como se verá a seguir.

    Dois fatos comprovam essa afirmação: um documental, as escrituras registradas no Cartório do 1º Tabelião de Itapetininga (Miguel Antonio de Almeida) no livro nº 10, em 10 de agosto de 1826; e outro, memorial, as lembranças de Francisco Pinto de Campos (Chico Luciano); ambos, revelados por Minhoto (1927).

    Segundo o autor, Antonio Rodrigues da Costa (procurador do brigadeiro Jordão) vendeu a diversas pessoas as terras que viriam a se tornar o território de Tatuí.

    Entre elas, Francisco Xavier de Freitas e Jeronymo Antonio Fiuza, que pagaram, respectivamente, 400$000 e 800$000 (mil réis) pelas porções que ficavam ao lado direito da Fazenda Tatuhy, isoladas do Paiol, essa, localizada no lado esquerdo da propriedade.

    Os terrenos adquiridos por Freitas e Fiuza, mais tarde, passaram para seus descendentes: Chico Luciano (neto dos primeiros povoadores de Tatuí), e, depois, a Theotonio Luciano de Campos (bisneto dos sorocabanos).

    O primeiro contava que, ao redor da “cruz lígnea” (de madeira), que se conservava, em seus campos, existira uma povoação. A área ficava no planalto do Tatuhy-mirim e à margem esquerda do Vai-e-Vem; já a cruz, atrás de uma capela.

    Essa área está descrita em carta de sesmaria passada a Claudio de Madureira Calheiros, em 29 de maio de 1780, como uma paragem, no distrito da vila de Itapetininga.

    As terras confrontavam com as “dos padres do Carmo da Vila de Itu”, estendiam-se do Tatuhy-mirim, “subindo o rio Sorocaba até a barra do Sarapuí e, por este, acima, até encontrar as do capitão-mor José de Almeida Leme”, portanto, próximas ao Morro de Araçoiaba e da Real Fábrica de Ferro. A hidrografia na folha topográfica do IBGE também converge para situar Tatuhú nesse planalto, onde ergueu-se a capela, a cruz lígnea e o cemitério primitivo.

    Estabelecida a localização, é preciso esclarecer que Tatuhú não deu origem à atual cidade de Tatuí, muito embora tenha abrigado a capela considerada marco fundador do município.