Situação dos Comads de SP é heterogênea

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Cristiano Mota

Representantes de entidades ligadas ao combate à drogas ministraram palestras em evento que registrou 54 membros de conselhos

 

Tentar implantar, dentro do âmbito dos municípios, políticas públicas voltadas ao enfrentamento das drogas. Este é o objetivo dos Comads (conselhos municipais antidrogas) e um dos temas reforçados em evento sediado em Tatuí na segunda-feira, 26.

O encontro estadual dos órgãos aconteceu no anfiteatro da Fatec (Faculdade de Tecnologia) “Professor Wilson Roberto Ribeiro de Camargo”. Reuniu representantes de diversas cidades do Estado e evidenciou a condição heterogênea dos comads em atividade em São Paulo.

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De acordo com o presidente do Coned (Conselho Estadual sobre Drogas), João Maria Corrêa Filho, há diferenças no funcionamento dos conselhos por vários motivos.

Entre eles, o tempo de existência dos órgãos e o comprometimento de seus representantes na realização de atividades que o promovam.

Filho é psiquiatra, participou da mesa de autoridades e ministrou a palestra “Prevenção ao Uso de Drogas”. O evento contou com quatro debates.

O presidente sustenta que os conselhos divergem em “patamar” por conta do foco de atuação – que também varia de cidade para cidade –, do tempo de funcionamento e do engajamento dos integrantes. “Alguns já desenvolveram ações de prevenção, outros estão iniciando agora”, argumentou.

Filho defende, no entanto, que a criação de políticas públicas independe da criação de conselho. Segundo ele, todo município pode disponibilizar algum tipo de recurso para lidar com a questão da dependência – que pode ser de álcool ou droga.

“Ter um conselho pode facilitar a articulação que fará com que se consiga ser mais efetivo ao tentar. Isso acontece porque uma coisa é eu imaginar da minha cabeça uma ação que possa ser mais efetiva; outra, é eu pegar um grupo de pessoas que falam, debatem e têm uma certa experiência e botar as ações dessas pessoas em prática. A chance de sucesso é muito maior”.

Para ele, o maior objetivo do encontro realizado na cidade é auxiliar os conselhos a implantarem suas políticas públicas – caso do Comad de Tatuí.

O órgão teve início há seis meses, é presidido por Paulo Martins, vinculado à Secretaria Municipal de Governo e Segurança Pública, e está em fase de estruturação.

“A troca de experiências com outros conselhos que estão mais sólidos é um dos benefícios. O outro é mobilizarmos os vizinhos da cidade, que ainda não têm conselhos, para tentar fazer com que eles os criem”, destacou o presidente.

Filho citou, ainda, que os órgãos têm três principais atribuições. A primeira é a proposição de políticas públicas; a segunda, de deliberar (elaborar projetos e propostas para encaminhá-las ao Executivo e ao Legislativo); e a terceira, de fiscalizar as ações do governo no que diz respeito ao combate às drogas.

“Tudo isso depende muito de quanto os conselhos municipais são mobilizados. Um conselho que não se mobiliza não tem papel nenhum”, comentou.

Ainda sobre a questão, Filho comparou a atuação dos órgãos a de políticos. De acordo com ele, se o conselho não se mobiliza, “não consegue nada”. O mesmo vale para a classe política.

“Um conselho ativo consegue, através dos seus representantes, pressionar os gestores para olhar para esse foco e poder se mobilizar em ações que possam trazer resultados”.

Em entrevista a O Progresso, Filho também falou sobre a situação da dependência no Estado e no país. Conforme ele, o principal problema do Brasil é o álcool.

O presidente do Coned afirmou que o crack toma “proporção maior porque representa uma população muito vulnerável” e que ele, proporcionalmente, teria menor poder de devastação que o álcool, estimado em 4% menos.

“A grande questão do crack é a mídia e o medo que se tem, e que, de certa forma, tem acontecido, que sem uma política pública ele avance de uma maneira mais intensa”, avaliou.

Caso a comercialização e, consequentemente, o consumo desse entorpecente aumentem, Filho afirmou que o crack pode representar porcentagem em termos de devastação maior que o álcool. Mas, atualmente, segundo ele, o principal dano – em termos de abrangência – é causado pelo consumo de bebida alcoólica.

Entretanto, o presidente do Coned citou que o crack tem “mais potencial para causar danos aos organismos dos dependentes que o álcool”. No “ranking” de proporcionalidade de vícios, a droga ocupa uma das últimas posições.

Conforme Filho, o álcool ocupa o primeiro lugar, seguido de cocaína, maconha e cigarro. “O crack vem em segundo plano”, disse o psiquiatra.

“Em termos de porcentagem, ele é menor. O grande problema é o potencial que ele tem (em termos de vício) e que, se não existir política pública, pode se consolidar”, falou.

Estudo do Coned aponta que o álcool afeta de 10% a 13% da população. Já o crack atinge 0,6%. “É uma diferença muito grande. Se formos pensar nesse sentido, o crack não é tão importante. Ele tem o seu risco, sim, devido ao poder da droga, mas o principal, atualmente, é o álcool”, reforçou.

Filho afirmou que os dados oscilam de município para município. Em Tatuí, divergem um pouco dos números apresentados pelo presidente do conselho. Em outubro do ano passado, O Progresso havia divulgado dados de internações no município registrados por uma clínica particular.

Considerado droga lícita, o álcool tem a mesma proporção de tatuianos dependentes que o crack – droga ilícita. É o que declarou Victor Custódio Ribeiro, um dos proprietários da “Liberdade e Vida”, clínica situada em Tatuí.

O empresário conversou com a reportagem depois de prestar depoimento. Ele compareceu na Delegacia de Polícia Central, no dia 17 de outubro, para falar sobre a morte de um paciente (por outros dois internos) que havia sido internado na madrugada do dia 15.

À época, Ribeiro declarou que a quantidade de dependentes de álcool internados era igual à de viciados que entravam por causa do crack.

No município, a clínica havia registrado 50% das internações por conta do vício em bebidas alcoólicas e outros 50% por dependência ao entorpecente.

Filho explicou que esses dados – a exemplo da atuação dos conselhos – também variam. De acordo com ele, oscilações “muito grandes” são verificadas em determinadas regiões do Estado, ou mesmo de um município.

“Se você fizer pesquisa para fazer a prevalência de crack no centro de São Paulo (onde fica a cracolândia), vai ver que ela é muito alta, mas, de maneira geral, para a população brasileira e o Estado, o principal problema é o álcool”, repetiu.

Na opinião do presidente do Conselho Estadual sobre Drogas, o problema não tem solução simples. “Esta é uma questão muito complexa, porque ela está inerente a vários desdobramentos. Desde vulnerabilidade social a tendências do próprio ser humano. Então, é algo que requer muito investimento. É como acabar com a pobreza no Brasil, é extremamente difícil”.

Além de tratar os enfermos, Filho defende que medidas de prevenção sejam ampliadas. “Temos de agir nesse sentido, principalmente, porque acabar com as drogas, pela natureza humana, isso nunca vai acontecer”, concluiu o psiquiatra.


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