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    São-João-de-Bemfica, a revolta de Tatuhú e o povo que vivia no Paiol

    Disputa de padroeiro em 1821, de um lado; engenhos de açúcar em 1818, de outro

    Foto mostra capela de São-João-de-Bemfica, reconstruída em 1926. Localização do templo é ratificada geograficamente pela Carta de Sesmaria de Claudio de Madureira Calheiros (1721/1821), a qual delimita o planalto de Tatuhy-merim e sua planície adjacente, palco da “briga pelo santo” em 1821. Embora a memória local situe a fundação da Tatuí moderna em 1826, o registro de Milliet de Saint-Adolphe (1845) confirma a existência autônoma do povoado de Tatuhú naquela paragem. A complexidade histórica aumenta em 1856, quando o Roteiro dos Correios Terrestres de João Francisco de Araujo Lelsa cita Tatuhú como trecho oficial de postais com saída e chegada via Sorocaba — menção que pode ser apenas uma variação gráfica para Tatuhy (Foto: Arquivo Erasmo Peixoto)

    Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias

    Cristiano Mota

    São-João-de-Bemfica resulta de um complexo processo histórico: a disputa pela instalação da freguesia de São-João-d’Hipanema – questão central no conflito entre o vigário colado e o diretor da Real Fábrica de Ferro.

    A igreja original do Ipanema, construída em 1810 para os oficiais da fundição de ferro, tinha como orago São João Baptista. Esta imagem havia sido transferida em 1818 para uma capela já existente em Tatuhú, mas, inicialmente, de forma temporária.

    Nesse mesmo ano, a briga sobre a instalação da freguesia e seu protetor – que começou com os dirigentes eclesiástico e administrativo da fundição de ferro – envolveu também os moradores. De um lado, estavam os habitantes de Tatuhú que receberam o santo; de outro, os do distrito mineiro, desejando a paróquia mais próxima, na capela levantada em 1810.

    A questão era que a igreja, como visto anteriormente, atendia apenas aos engenheiros, e a freguesia permitiria a quem vivia mais perto, ou mais distante do templo religioso, também o frequentar.

    O impasse tornou-se tão sério que, em 26 de novembro de 1818, o bispo Dom Matheus enviou às autoridades superiores um requerimento solicitando parecer sobre “pertençaõ” (pertença ou direito) dos moradores do distrito mineiro.

    Embora o documento não apresente detalhes explícitos, seu teor sugere tratar-se da jurisdição da freguesia, uma vez que é assinado também por Dom Nuno Eugenio de Locio e Scilbiz, Miguel Joze de Oliveira Pinto e Warnhagen.

    Ao incluir o sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros e duas altas autoridades coloniais, o bispo transformou o pleito – que tinha o padre Malheiros como maior interessado – em uma questão de Estado, garantindo que a decisão tivesse peso eclesiástico e administrativo.

    Passaram-se dias e meses sem que o assunto fosse resolvido. Os moradores, então, pediram ao bispo a mudança da sede paroquial. Para verificar a questão, Dom Matheus ordenou ao pároco de Sorocaba, padre Antonio Ferreira Prestes, que fosse pessoalmente ao Ipanema, convocasse os moradores e os consultasse sobre o local para o qual eles achavam que deveria ser mudada a freguesia, lembrando-os que não poderiam continuar em terreno particular ou pertencente à Coroa.

    Os colonos acordaram que a paróquia fosse mudada para Tatuhú, prontificando-se a mudar para lá depois que fossem indenizados e que as terras fossem ocupadas. Minhoto (1927) diz, em seu estudo, que Tatuhú era um bairro do distrito de Itapetininga.

    Ocorre que, na época, a área em que o povoado estava localizado ainda não havia sido desmembrada. Tanto que Saint-Adolphe refere-se a essa região como freguesia da província de São Paulo, no distrito da cidade de Sorocaba.

    Na sequência, o bispo enviou à Mesa da Consciência e Ordens um ofício informando sobre a decisão dos moradores. O documento, porém, não surtiu efeito, porque contrariava a resolução anterior, de 22 de fevereiro de 1820.

    Nessa época, o padre Malheiros resistia à ideia da mudança da paróquia. Em 1821, com o retorno de D. João VI para Portugal, os moradores enviaram um novo pedido ao bispo. Eles solicitaram e conseguiram autorização da transferência. A oficialização, por parte do governo de São Paulo, só aconteceu em 22 de fevereiro de 1823.

    De posse dessa ordem, Minhoto – com base nos documentos do arquivo do bispado de Sorocaba – afirma que o padre, o diretor da fábrica e mais de cem pessoas dirigiram-se aos campos de Tatuhú. A comitiva tinha como missão escolher o local da construção da matriz.

    Nesse período, Warnhagen ainda respondia pela fundição. O engenheiro alemão havia solicitado, por meio de requerimento ao governo provisório de São Paulo, a exoneração do cargo em 30 de junho de 1821. A demissão foi concedida em setembro de 1821.

    A mudança para Tatuhú, no entanto, não vingou, como se pode extrair dos escritos de Rodrigues (1952) e Minhoto (1927). Ao explicar esse episódio, o primeiro autor menciona que Malheiros chegou a escolher uma área, localizada à beira da Estrada Real que ligava Sorocaba ao Rio Grande do Sul, mas, sem recursos, suspendeu as obras e regressou ao Ipanema, quase desiludido.

    O segundo acrescenta que outro obstáculo decisivo foi a “acintosa má vontade” de moradores de outros bairros, contrariados por não terem sido escolhidos para sediar a nova freguesia, desanimando o padre, forçando-o a adiar o projeto e a retornar.

    Pouco tempo depois, Malheiros soube que, em Campo Largo, o alferes Bernardino José de Barros (a quem Minhoto se refere como Raymundo José de Barros) tinha erguido uma capela. O templo fora construído em cumprimento de uma promessa feita pela esposa dele, Thomazia Maria.

    O padre propôs ao oficial que cedesse a pequena igreja para que essa se transformasse em sede da paróquia. O alferes, no entanto, lembrou a Malheiros que o orago de Ipanema era São João Baptista e que a esposa havia feito voto para Nossa Senhora das Dores.

    Decidido a resolver a questão, Malheiros comprometeu-se a obter do bispo diocesano autorização para a mudança do orago. Conseguiu, assim, trocar o santo padroeiro da nova freguesia.

    Os moradores de Tatuhú, inconformados com a decisão, resolveram reter a imagem de São João Baptista.

    O santo padroeiro foi colocado em uma capelinha, que já existia nos arredores da paragem, tendo sido construída às próprias custas dos habitantes daquela região. E, em sinal de protesto, a comunidade batizou a capela com o nome de São-João-do-Bemfica – titulação que permanece até os tempos atuais – “para mostrar que ali ficavam bem” o santo e a paróquia.

    A igreja de Nossa Senhora das Dores, que deu origem a Araçoiaba da Serra, foi inaugurada em 14 de novembro de 1826, um mês depois de Malheiros ter sido transferido para Campo Largo. O evento contou com uma procissão, marcando a transferência da imagem da santa, que até então estivera na residência do alferes e da esposa, para o altar da pequena capelinha.

    A igreja de Tatuhú teve um destino diferente. Como visto anteriormente, Tatuhy já se desenvolvia como vila de Itapetininga, em outro extremo do território atual. A presença de seus primeiros moradores, na região do Paiol, data de 1818, o ano em que, no lado leste, os residentes de Ipanema, expulsos, migram para diversos bairros.

    Tatuhú só disputa o santo padroeiro – recebendo a imagem de São João – a partir de 1821, quando a outra Tatuhy recebia fazendas de engenho. A respeito disso, Minhoto, quando escreve sobre a história da cidade, menciona os moradores de Tatuhy como “intrusos da grande sesmaria dos frades de Itú”.

    Segundo ele, despeitados com a atitude dos moradores de Tatuhú, que conseguiram manter a capela e seu padroeiro, a gente desse outro núcleo empregou esforços para que, tanto a primeira povoação, que era mais antiga, como a paróquia, recém-instalada, fossem transferidas a outro ponto: a região central da atual cidade, onde já existia “uma capelinha tosca”.

    Para isso, apresentaram uma representação ao governo, pedindo a desapropriação do terreno para seu patrimônio e rocio. O povo de Tatuhú, vencido, teve de se juntar aos “invasores” de Tatuhy.

    Em seu texto histórico publicado originalmente em 1922, no jornal O Progresso de Tatuí, e posteriormente, por ocasião do centenário de Tatuí, Minhoto apresenta uma explicação sobre como Tatuhú deu origem a Tatuí, a partir da ocupação das sesmarias.

    Contudo, a linha de raciocínio, embora consistente, não leva em consideração que a ocupação posterior a Tatuhú (a de Tatuhy) organizou-se melhor para ter o apoio de autoridades interessadas em formar uma nova unidade administrativa.

    Além disso, mesmo tendo a autorização para manter São João na capela, o povo de Tatuhú – ao contrário de Tatuhy, vinculada a Itapetininga – não dispunha de padre encarregado dos trabalhos.

    Como registram os documentos e livros religiosos, Malheiros, que havia sido indicado para a freguesia original, além de ter pedido a mudança do orago, escolhera Campo Largo. É por isso que São-João-de-Bemfica, mesmo condecorada como paróquia, não prosperou.