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    Que sobre algo de bom





    Domingo passado, 16, Tatuí esteve entre as quase duas centenas de cidades brasileiras nas quais houve manifestações contra a presidente Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores.

    Embora o movimento encabeçado pela organização denominada “Vem pra Rua” tenha sido menor que o esperado, alguns pontos positivos podem ser observados – e para todos os lados: situação, oposição e, principalmente, população (a qual não está e nem deve estar em nenhum dos dois lados).

    Pelo governo, como constatado pelas aferições da PM e de todos os institutos de pesquisa, a participação diminuiu em relação à de março deste ano – o que não necessariamente indica menor descontentamento, mas que a mobilização não se transformou numa bola de neve pronta a derrubar o governo.

    Também é agradável à administração federal o fato de os protestos não conseguirem se organizar quanto às propostas que defendem. Pedir impeachment como se fosse o mesmo que mandar treinador de time de futebol embora para colocar outro Mané no lugar não é “democracia”, como muitos querem acreditar ou fazer crer.

    Democracia implica em regras, as quais precisam ser respeitadas e diferem muito das do Campeonato Brasileiro. Democracia não é esporte, não é lazer, é coisa séria.

    Por isso, para se tirar de campo um presidente, é necessário todo um processo a ser seguido pelas instâncias competentes – Legislativo e Judiciário, em particular.

    Também, em meio aos protestos, misturar mais ética na política com golpe militar só evidencia a alienação política ainda muito presente no país (o que é ótimo para quem governa).

    Quanto à oposição, as manifestações, ainda que não avassaladoras, servem muito bem para fragilizar ainda mais o governo e o próprio PT, o qual, agora (“como nunca antes na história deste país”), é vítima da própria campanha maniqueísta que estimulou ao longo das eleições, sendo cada vez mais rotulado como o partido “do mal” (ótimo para quem está fora do poder e quer chegar lá).

    Mas, essas são questões menores diante dos benefícios que poderiam redundar à população (assim, ao menos, deve-se esperar). Três são os mais significativos: a possibilidade de reformas concretas, a prática do protesto e o menor grau de mentiras nas campanhas eleitorais.

    As tais reformas tão faladas e nunca efetivadas – entre as quais, a política e a tributária – poderiam ser tentadas, pelo menos. Ou seja, a presidente poderia reconhecer que não tem como encerrar com dignidade o mandato, salvo se surpreender com medidas verdadeiramente contundentes e positivas.

    Em outras palavras, já está com o filme totalmente queimado, sem mínimas condições de eleger o sucessor. Portanto, deveria partir para o jogo aberto, “tudo ou nada”, e tentar fazer o que, de fato, o país precisa, como as reformas.

    Se conseguisse, certamente, não acabaria o mandato de maneira tão melancólica, como a governante mais mal avaliada da história do Brasil. Pelo contrário, deixaria um legado extraordinário – literalmente.

    É muito animador, também, a possibilidade de os protestos se tornarem prática comum. Eles são tanto um instrumento democrático – pelo que devem ser respeitados – quanto muito eficazes na necessária “pressão” que os governantes precisam sentir para bem executarem suas funções.

    No momento, é certo que a população está descontente e disposta a sair às ruas muito mais em razão da crise econômica que da indignação por ter sido vítima de um estelionato eleitoral, pelo qual a campanha vitoriosa se pautou em promessas exatamente contrárias às ações que agora vem tomando.

    A presidente foi reeleita, portanto, com base em falsas promessas, as quais sabia que não iria cumprir, mas, mesmo assim, as fez – igual ocorre, praticamente, em todas as eleições, “como sempre na história deste país”. Isto também incomoda, e muito!

    A excelente novidade, nesse aspecto, é que, diante da insatisfação da imensa maioria da população e da reação de boa parte dela, claramente ofendida por ter sido ludibriada, pode ser (repetindo, “pode ser”) que o grau de mentiras diminua nos próximos pleitos (o que seria, finalmente, ótimo à população).

    Talvez, os candidatos e seus partidos apostem mais em propostas concretas e factíveis – mais na verdade. Com isso, de mais uma crise seria confirmado ser possível extrair algo de bom – ou, neste caso, políticos menos ruins.