Polí­cia vai investigar incêndio que atingiu fazenda no fim de semana

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David Bonis

Boletim de ocorrência do caso foi feito, às 15h41, na delegacia de Tatuí

 

A polícia vai investigar a origem do incêndio que ocorreu no domingo, 19, às 14h30, em uma fazenda próxima à rodovia Gladys Bernardes Minhoto (SP-129), nos limites entre os municípios de Tatuí e Quadra.

O boletim de ocorrência foi registrado no plantão da delegacia local, no mesmo dia do incidente, mas será enviado para o departamento policial de Quadra, que ficará responsável pela investigação.

Até o fechamento desta edição (terça, 17h), o registro ainda não havia chegado aos investigadores do município vizinho, conforme informou um dos oficiais da PC de Quadra.

A investigação é necessária porque, até a terça, não se sabia a origem do incidente. Conforme o registro da ocorrência, testemunhas teriam visto uma caminhonete prata e um Celta branco deixando o local do incêndio pouco antes do início das chamas.

As afirmações partiram de duas mulheres que fazem parte do Movimento Sem-Terra, que invadira a propriedade no dia 14 de agosto deste ano.

Desde a data, há um acampamento da FNL (Frente Nacional de Luta Campo e Cidade) montado nas cercanias da propriedade. Na hora do incêndio, os líderes do movimento promoviam reunião para decidir o futuro do assentamento, onde atualmente vivem cerca de mil famílias.

Estimativas dos bombeiros de Itapetininga, responsáveis pela ação de combate ao fogo no local, dão conta de que as chamas destruíram cerca de 25 mil metros quadrados.

Devido à intoxicação pela fumaça, três acampados tiveram de receber atendimento médico. Até o tráfego na SP-129 foi afetado no dia da ocorrência, pois os bombeiros passavam orientação aos motoristas para não seguirem viagem, devido à falta de visibilidade na pista que a fumaça gerara.

A fazenda Paiol, local de origem do incêndio e onde a FNL está acampada, é usada para plantar cana-de-açúcar. De acordo com Edson de Barros Pontes, administrador do terreno ligado aos proprietários legais da terra, as chamas não afetaram a plantação. “Queimou, basicamente, capim”, afirmou. No entanto, o fogo destruiu os seis barracões usados pela FNL.

Devido às circunstâncias, pessoas ligadas à Frente dizem que a origem do incêndio foi criminosa. O objetivo seria “prejudicar a imagem da ocupação”, de acordo com um dos coordenadores da FNL na região, Paulo Augusto Lopes.

“Eles queriam queimar o local para poderem dizer que o acampamento prejudicou a fazenda”, acusa Lopes, sem citar quem teria praticado o ato.

Entre os administradores da propriedade, a tese de que o incêndio teria sido praticado para prejudicar a ocupação é “inválida”. “Não faz nenhum sentido”, reforçou Pontes.

As primeiras ações de combate às chamas foram realizadas por membros da FNL acampados no local, segundo Lopes. No entanto, devido ao clima seco e aos ventos, o fogo se espalhou rapidamente. Conforme Lopes afirmou a O Progresso na segunda-feira, 20, o Corpo de Bombeiros demorou cerca de uma hora e meia para chegar à fazenda.

Não se sabe a origem do chamado aos bombeiros para realizarem o socorro. A FNL e os proprietários da fazenda têm versões distintas até sobre quem teria realizado o telefonema que resultou no atendimento da corporação de Itapetininga.

De acordo com Pontes, o chamado teria partido do caseiro que toma conta do local. Já os membros da Frente dizem que a ligação teve origem por meio de um dos líderes do movimento.

Desde o momento em que o terreno foi ocupado, proprietários e a FNL travam uma disputa pelas terras. Os donos da fazenda pleiteiam, via Judiciário, a reintegração de posse, para que o acampamento seja desfeito.

De acordo com boletim de ocorrência registrado na delegacia de Tatuí no dia 16 de setembro deste ano – portanto, um mês após o início da ocupação -, os militantes deixaram o terreno no final de agosto após decisão favorável na Justiça aos proprietários da fazenda Paiol.

Na ocasião, os membros da FNL saíram dos limites pertencentes à fazenda. Mas, quando deixaram o espaço, no final do mês de agosto, membros da Frente teriam subtraído madeiras e ferramentas que pertencem à propriedade, conforme Pontes afirmou.

Em seguida, os militantes decidiram montar acampamento próximo à fazenda, mas, na ocasião, segundo o boletim de ocorrência do dia 16 de setembro, voltaram de forma gradativa a ocupar o local pertencente à propriedade.

De acordo com Pontes, a estrada onde o movimento montou acampamento – e continua até hoje – faz parte da fazenda Paiol. Já o coordenador da FNL diz que não. Conforme ele, a via fica próxima ao local, mas é pública.

Em conversa com a reportagem de O Progresso, Lopes disse que os manifestantes não sairão das terras. A tendência é que eles voltem a ocupar o terreno da fazenda. O motivo da insistência do movimento seria uma resposta positiva do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Segundo ele, o Instituto vai desapropriar o terreno e transformá-lo em área de interesse social para que as famílias ligadas à FNL fiquem em definitivo nas terras que fazem parte da Fazenda Paiol.

Desde a segunda-feira, 20, integrantes da FNL protestam em frente à sede do Incra na cidade de São Paulo, para pedir aceleração do processo, conforme Lopes.

Ainda de acordo com ele, as terras onde o movimento montou acampamento estavam improdutivas havia três anos e fazem parte de um processo de “grilagem” – termo comumente usado para definir o ato de falsificar documentos para tomar posse de imóvel. Esses seriam os motivos que fizeram a FNL montar assentamento no local.

A reportagem de O Progresso procurou os advogados dos proprietários do terreno para responderem ao coordenador da FNL. Dois juristas atuam no caso. Tratam-se dos advogados José Teófilo Fleury e Benedito Antônio Dias da Silva.

Conforme afirmou Fleury à reportagem do bissemanário, em conversa por telefone na tarde desta terça-feira, 21, a informação de que a terra seria “grilada” é “inverossímil, totalmente falsa”.

Com escritório estabelecido em São José do Rio Preto, o advogado, que tem mestrado em direito processual civil, virá a Tatuí nesta quarta-feira, 22, para ver o resultado do incêndio e, também, tomar as medidas legais necessárias.