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    O sol de março e o legado de Vicente

    Aqui, Ali, Acolá

    José Ortiz de Camargo Neto *

    Caros amigos:

    Recebi o nome José por herança de meu avô, José Ortiz de Camargo. Ele, nascido em família devota, fora batizado em homenagem ao guardião da Sagrada Família. Hoje, que o calendário marca 19 de março, meu pensamento se volta a São José com um carinho especial. A imagem desse santo, que protegeu Jesus e Maria em sua jornada terrena, sempre teve o poder de me comover imensamente.

    Dizem as visões dos místicos cristãos que, enquanto outros santos brilham no firmamento como estrelas, São José resplandece como o sol, tamanha é a sua luz. E é sua figura, de padroeiro dos pais e operários, que me conduz, inevitavelmente, à memória de meus pais, Vicente Ortiz e Marina da Coll, tão devotos dele.

    Consigo imaginá-los diante de mim, recém-nascido, buscando um nome que honrasse a linhagem da família e a força da fé católica. Assim, tornei-me José — o nome que considero o mais lindo e emblemático deste Brasil que, felizmente, ainda preserva sua religiosidade.

    Mas falar de José e de herança me obriga a abrir o peito para falar de Vicente. Meu pai foi um artista completo: músico, pintor, poeta e jornalista. Para os que não o conheceram, ele era o solista do cavaquinho no conjunto “Chorinho Tro-lo-ló”, grupo que fez história em Tatuí e região.

    Ainda fecho os olhos e o vejo tocando aquelas melodias deliciosas ao lado do Seu Chiquito (pai do meu grande amigo Kiko Barth). Seu Chiquito tocava um contrabaixo enorme, daqueles que parecem violoncelos gigantes. Como era baixinho, precisava subir num banquinho para alcançar as cordas. Papai contava, entre risos, o dia em que o amigo perdeu o equilíbrio e desabou, instrumento e tudo, em cima da bateria.

    Vicente também era mestre no traço. Desenhista em preto e branco e exímio retratista, presenteou muitos moradores da cidade com sua arte. Na escrita, sob o pseudônimo de Sérgio Ribas ou com sua própria assinatura, deixou poemas modernos de uma sensibilidade rara.

    Aos 30 anos, ao casar-se com minha mãe, ele abdicou de grande parte desse brilho artístico individual. Com a partida de meu avô, assumiu o peso de organizar e dirigir o jornal da família. Ali foi o sacrifício doloroso de grande parte de sua arte para dar lugar à sobrevivência e ao sustento da família.

    Em minha juventude, fui rebelde e, por vezes, ingrato. No entanto, meu pai foi o anjo bom que não desistiu de mim. Foi ele quem moldou-me o caráter e deu inspiração para o homem semelhante a ele que busco ser hoje.

    Por tudo isso, neste 19 de março — que para mim é o verdadeiro Dia dos Pais —, sinto a necessidade de tornar público o meu reconhecimento. Olho para o céu, onde brilha o sol de São José, e à sua luz, lembrando-me de Vicente Ortiz, digo com toda a força da minha alma:

    Obrigado, mil vezes obrigado, meu querido pai!

    Até breve.

    * Jornalista e escritor tatuiano.