Novos surtos revertem uma década de queda nos casos de hepatite A

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Há uma década, novos casos de hepatite A vinham diminuindo no Brasil, mas dois surtos recentes, nas duas maiores cidades do país, reverteram a tendência de queda na incidência da infecção, que pode matar.Em 2017, somente a cidade de São Paulo contabilizou 694 casos – um terço do registrado em todo o país em 2015. Já o Rio de Janeiro relatou um aumento súbito de hepatite A no final do ano, a maioria no bairro do Vidigal. Foram 119 pessoas infectadas na capital fluminense – no ano anterior, houve apenas dez registros. O aumento nos casos da doença, que ataca o fígado, vinha sendo observado desde 2016 em diferentes países. Ainda em 2016, diversos países começaram a registrar casos de hepatite A. Começou na Inglaterra, depois foi para Holanda, Escandinávia, França e se espalhando.

Apesar de semelhantes, os surtos nas duas maiores cidades do país parecem ter sido causados por fenômenos diferentes. Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Saúde atribuiu o avanço ao contato sexual desprotegido. Apesar de a hepatite A não ser uma infecção sexualmente transmissível, o contato com a região perianal ou com material fecal pode gerar contaminação. Já no Rio, acredita-se que a doença se espalhou por causa do uso de água contaminada com o vírus.

A contaminação é fecal-oral, o que faz a hepatite A, geralmente, ser adquirida por água e alimentos em que há a presença do vírus.  Por isso, locais com abastecimento de água irregular, falta de saneamento básico adequado ou com baixas condições de higiene são foco da doença. No Rio, a concentração de novos casos no Vidigal – que registrou 59 pessoas infectadas em 2017, após seis anos sem qualquer episódio – é atribuída a uma possível contaminação da água, provavelmente pela deficiência de saneamento básico na região. Um local com essas condições sanitárias pode ficar anos sem registrar a doença. Mas se um agente externo trouxer o vírus, como um turista, o germe encontra ali as condições ideais para proliferar. “É como se jogasse fogo num lugar onde há pólvora.”

A infecção, causada pelo vírus VHA, geralmente não causa complicações. No entanto, uma pequena parcela dos pacientes pode desenvolver quadros sérios, como a hepatite fulminante, que pode levar à perda do fígado e à morte.

Em São Paulo, quatro pacientes foram levados à fila de transplante de fígado devido à doença. Dois morreram – algo que não ocorria no Estado desde 2012. No Rio, ainda não houve complicações.

Além dos danos ao fígado, a falência hepática que pode ser provocada pela hepatite A pode afetar o funcionamento do cérebro. O fígado é uma glândula responsável, entre outros, pela eliminação de toxinas vindas do intestino, como a amônia. Se estiver lesionado, o órgão pode não conseguir eliminar essas toxinas, que passam direto para a corrente sanguínea e alcançam o cérebro.

Pessoas que desenvolvem o quadro, chamado de encefalopatia hepática, podem ficar sonolentas, confusas, desorientadas e, em alguns casos, apresentarem alterações no comportamento e na personalidade.

A doença é mais perigosa para adultos, porque esses têm resposta imunológica mais intensa – o corpo, ao detectar a presença do vírus, parte para o ataque, mas, como o VHA se aloja nas células do fígado, a ação de defesa do organismo pode levar à falência completa do órgão. Os medicamentos disponíveis tratam os sintomas, mas não há remédio para frear a proliferação do vírus no organismo.

Como se prevenir?

Desde 2014, o governo brasileiro disponibiliza gratuitamente vacina contra a hepatite A para crianças abaixo de cinco anos e para pessoas que convivem com doenças imunossupressoras, como o HIV e as hepatites B e C.

Para os grupos que não podem se vacinar na rede pública, a melhor maneira de prevenir é por bons hábitos de higiene – o que inclui lavar sempre as mãos após ir ao banheiro, além de consumir somente água tratada e potável e cozinhar bem os alimentos.

A vacina contra a hepatite A está em falta em todo o Brasil (devendo normalizar em abril/maio). Assim, atualmente, pode-se vacinar para combater logo os dois tipos de vírus das hepatites (A e B). As pessoas podem se proteger tomando a vacina conjugada: hepatite A+B. Esta vacina está disponível nos centros de vacinação particulares.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/geral

*Médico com TEP (título de especialista em pediatria) pela AMB (Assoc. Médica Brasileira) e SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).