Não é chato preservar a vida das crianças

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Muito poucos se sentem confortáveis – quando não, “satisfeitos” – na condição de pessoa “chata”. Por isso mesmo acabam tornando-se folclóricos, sobretudo em cidades menores, como Tatuí, onde, de certa forma, quase todos se conhecem.

Aqui, portanto, são famosos e, invariavelmente, tratados como figuras exóticas, das quais se foge para não perder o dia com as indigestas doses cavalares de chatice.

Ou ainda, a depender das peculiaridades estrambólicas, até se aproxima, seja para divertir-se ou por um simples gesto de solidariedade, para que o maçante não se sinta isolado no mundo e torne-se ainda mais amargurado – uma “boa ação”, no caso.

Entretanto, a grande maioria não se sente à vontade quando identificada como pessoa “chata”. O mesmo vale para as empresas, que podem comprometer a própria imagem, ainda que inadvertidamente, quando acabam assumindo esse inoportuno papel. Por este motivo, é delicado – e perigoso – insistir demais em algo que a quase ninguém mais parece interessar, como a pandemia de Covid-19.

O mais chato nesta história, seguindo em repetição, é a mensagem de que “a doença ainda não acabou”. Novamente, por conseguinte, este periódico se arrisca a passar por azucrinante, mas não há saída. É necessário.

Afinal, estamos, acima de tudo, falando sobre a “vida das pessoas” – chatas ou legais, adeptas à ciência ou negacionistas, idosas ou jovens… Todos têm o direito de viver e, mais importante, o dever de não comprometer a vida dos outros, levando-lhes o vírus que pode ser fatal (talvez a coisa mais chata do momento, além, claro, das mortes causadas pelo Sars-CoV-2).

Com as esperadas desculpas dos leitores, portanto, precisamos lembrar que, nesta semana, a doença teve crescimento exponencial no país, não poupando a cidade.

Conforme já noticiado pelo jornal O Progresso de Tatuí no meio desta semana, houve aumento das confirmações em volume brutal nos dias recentes.

Na comparação efetivada pelo jornal em cada edição impressa, apurou-se que, entre os dias 24 e 28 de dezembro, ocorreram 18 casos positivos, os quais ascenderam para 87 no mesmo período desta semana, entre os dias 31 de dezembro e 4 de janeiro.

No dia seguinte, quarta-feira, 5, por sua vez, as confirmações já haviam chegado a 151 casos. Ou seja, em um único dia, identificou-se quase tantas ocorrências quanto em cinco dias anteriores. E por aí a semana seguiu até sexta-feira, quando houve 238 casos positivos. Isso é muito chato – aliás, trágico!

Outro aspecto nada palatável: a retomada da doença, que já parecia controlada, ocorre, basicamente, pela falta de vacinação em países que não têm os imunizantes em quantidade suficiente e pelos indivíduos que, mesmo os tendo à disposição, resolveram não se vacinar.

Esta situação – chata pra caramba! – permitiu o surgimento de uma nova variante do vírus, bem mais contagiosa, a ponto de, praticamente, impor uma dose de reforço e até reinfectar quem já teve a doença.

Menos mal que a ômicron, aparentemente, gere letalidade menor, mas isto não implica em qualquer descuido das autoridades e da população. É chato mesmo, mas não há outro jeito.

Para este martírio acabar – diferentemente de uma tempestade política, que pode ser em muito minimizada a partir de apenas um dia de eleições (diretas, democráticas e com a segurança da urna eletrônica) -, não há alternativa senão a imunização (global) em massa.

Somente assim poder-se-ia bloquear o advento de novas cepas, as quais, ressaltemos, ainda podem surgir em versões mais contagiosas e letais, com suas denominações de linguajar que poucos entendem, por “falarem grego”.

Porém, ainda acontece algo mais chato que tudo isso: o fato de você, pai ou mãe, saber que já há vacinas capazes de proteger seus filhos, mas que elas ainda não foram disponibilizadas pelo governo.

E por que isto, mesmo depois de mais de 620 mil mortes pela doença e de maneira igual a que se testemunhou exatamente há um ano, quando a vacinação para adultos era também protelada? Não se aprendeu nada?

A partir da aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e sabendo-se que boa parte do mundo já está vacinando suas crianças, qual a mórbida intenção de se colocar em dúvida a importância da imunização no contingente entre 5 e 11 anos?

Propagar os nomes dos técnicos da agência como se fossem bandidos – colocando-os em risco, inclusive – ultrapassa muito a postura de “chato”, atingindo mesmo a condição de crime (como também é crime – pior – levar a público os dados pessoais dos médicos a defenderem a vida das crianças por meio da vacinação)!

Condicionar a vacinação a uma “consulta pública” junto a leigos, mesmo após a positiva recomendação da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização (pertencente ao próprio Ministério da Saúde), poderia até ser motivo de riso, feito os proporcionados pelos chatos folclóricos, mas, não!

Esse procedimento, com perguntas confusas e tendenciosas, parece outro crime, pela evidente intenção de apenas servir ao atraso da campanha junto às crianças.

Ainda, faz pensar: “ok, e se a maioria assinalasse não concordar com a vacinação em crianças, o governo não compraria os imunizantes?”. Nesta hipótese, você, pai ou mãe, não teria o direito de proteger seus filhos porque a maioria das pessoas prefere arriscar a vida dos filhos dela?

Mais: se existe mesmo respeito à tal “liberdade”, para que serviu essa brincadeira (nada engraçada!)? Afinal, se cada genitor pode optar por vacinar seus filhos, ou não, seria apenas o caso de já disponibilizar-se os imunizantes o quanto antes, e cada um que decida por garantir a vida dos filhos, ou não…

E seguem os absurdos: exigir “autorização” dos pais e prescrição médica para a aplicação da vacina extrapola muito a evidente intenção de impor medo quanto ao imunizante.

Essa “proposta” escancara o negacionismo mortífero, energiza as teorias das conspirações alucinantes e, para piorar, poderia impor perigo muito maior às crianças pobres, as quais têm muito mais dificuldade para conseguir consulta médica.

Mas, fica uma dúvida (insuflada, para não variar, pelas próprias autoridades maiores do país): crianças morrem mesmo de Covid-19?

Os números são os seguintes: de acordo com o Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), desde o começo da pandemia até 6 de dezembro deste ano, foram registradas 301 mortes de crianças entre 5 e 11 anos por Covid-19 no país.

Em 2020, 2.978 crianças tiveram síndrome respiratória aguda grave em decorrência do coronavírus —156 delas morreram. Neste ano, foram registrados 3.185 casos nessa faixa etária, com 145 mortes.

Diante disso, você, pai ou mãe, aceita arriscar a vida dos filhos, sabendo já existir uma vacina para protegê-los? Pelo menos conforme a grande maioria dos pais tatuianos, a resposta é “não!”.

Foi muito legal – nada chato, portanto – verificarmos nesta semana, pela enquete semanal promovida por O Progresso de Tatuí, que assim se manifestaram mais de 70% dos que responderam à “consulta pública” do jornal, que foi objetiva e direta, como deveria ter sido a outra, apenas perguntando se os pais concordam com a vacinação das crianças.

A depender dessa manifestação, o ano começa com esperança de que toda essa chatice tenha fim e que seus personagens mais bizarros, hoje tanto a infernizar a vida do país – impondo-lhe mortes antecipadas -, venham a tornar-se meras figuras folclóricas em futuro próximo.

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