‘Sky Movement’ acolhe jovens por meio de ‘consultas a céu aberto’

Encontros semanais contam com palestras, testemunhos e orientações

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Segundo William Alexandre Nunes da SIlva, organizar um evento ao ar livre significa expandir as atividades da igreja (foto: AI Prefeitura)
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É sagrado. Toda sexta-feira, Wilian Alexandre Nunes da Silva vai até a praça Manoel Guedes para um encontro diferenciado. Junto com uma porção de amigos, o psicólogo oferece apoio e atenção a jovens que passam pelo local.

As ações fazem parte do “Sky Movement”, um projeto genuinamente tatuiano, realizado por um grupo de voluntários e surgido a partir do projeto municipal “Rolê na Praça”.

O “movimento do céu” (na tradução do inglês) é uma ação da Igreja Quadrangular, iniciada na Praça da Matriz. Independente, é considerado um braço do “Rolezinho”, por ser destinado a jovens e uma espécie de trabalho de continuidade.

A razão é que, no “Rolê”, os jovens vão para se divertir, assistir apresentações musicais e participar de atividades físicas. No “Sky”, o movimento é outro, pelo qual os jovens recebem atenção.

Criado em 2017, o Sky Movement precisou migrar nos anos seguintes para a Praça do Museu. Silva explica que a alteração se deve ao fato de que a Matriz é “mais concorrida”. “Praticamente, todo evento da prefeitura é lá”, argumenta.

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Para tornar o movimento mais forte, o grupo organizador resolveu realizá-lo no segundo espaço. Também alterou a periodicidade: de uma vez por mês, passou para quatro.

Silva conta que os membros da igreja viram a necessidade de ampliar as edições para alcançar mais jovens, além de dar qualidade ao movimento. Os encontros acontecem semanalmente, toda sexta-feira. Eles são realizados por um conselho, que reúne representantes de várias denominações religiosas.

A praça recebe o movimento das 21h21 (escolhido propositalmente) às 22h45. “Este é o período de maior pico. O ‘Sky’ acaba um pouco mais tarde, mas é para chamar a atenção das pessoas para a conscientização”, explica Silva.

O objetivo principal do movimento é criar uma política de conscientização sobre direitos e de suporte para atender às principais necessidades dos adolescentes. Tanto que o grupo trabalha, nas atividades, temas bastante abrangentes.

A programação inclui boas-vindas em dois momentos: o primeiro após a abertura e o segundo, em seguida à primeira apresentação artística. Silva conta que a organização preferiu realizar a acolhida em dois estágios para atender desde os que chegam mais cedo para as atividades até os retardatários.

“Geralmente, cantam-se três músicas e, depois, faz-se de novo as boas-vindas. Organizamos assim porque algumas pessoas chegam depois do louvor e, desta forma, não perdem a palavra de conscientização, esperança e sonhos”, observa.

Mas, o Sky Movement é mais que preces e orações. Para torná-lo atrativo, o conselho estipulou a realização de palestras e conversas entre os representantes da igreja – profissionais de várias áreas – e os adolescentes.

O grupo fala de tudo: álcool, drogas e temas de relevância, como o suicídio. “Sou psicólogo e, no evento, assim como eu, os demais profissionais abordam não só a parte espiritual, mas da saúde mental também”, aponta.

As ações são desenvolvidas por voluntários e totalmente gratuitas aos jovens. No começo, dez pessoas contribuíam para a realização do evento. Agora, o grupo soma quase 40. Desde o início, Silva explica que o objetivo era ajudar os jovens, em particular os que estavam em situação de vulnerabilidade social.

“Nós víamos a situação de exposição (ao álcool e às drogas) e, como igreja, teríamos de fazer alguma coisa. Mas, em nenhum momento, culpamos alguém”, destaca.

A proposta do movimento não é criticar, apontar possíveis soluções ou interferir na política pública, tampouco cercear os direitos dos jovens ou persegui-los. “Nós sabemos que os adolescentes estão ali porque querem estar ali. Porém, não estamos lá para ver o motivo, mas para ajudar”, acrescenta.

Segundo o psicólogo – que também é pastor auxiliar da Igreja Quadrangular -, organizar um evento ao ar livre significava expandir as atividades da igreja para além das paredes dos templos. E mais que isso: representava apoio para os jovens.

A depender do contexto, o grupo oferece ajudas simples para os menores, mas que despertam neles outra perspectiva sobre o papel dos evangelizadores. “Às vezes, dar uma carona, ou ligar para algum familiar ajuda”, conta Silva.

Para ele, esta é a visão do “céu na terra”. O propósito é “oferecer amor, proporcionar paz, esperança, além de oferecer oportunidades e chances de sonhar com um futuro diferente, muitas vezes, da própria realidade do contexto familiar”.

A escolha pelas praças, além do movimento de menores que elas registram, ocorre pelas possibilidades que o espaço proporciona. Tanto na Matriz como no Museu, as dinâmicas permitem aos organizadores estarem “no mesmo patamar” que os jovens. Tanto que, quando volta à Matriz, o grupo prefere não utilizar o coreto para falar com os adolescentes ou realizar os shows.

Silva acrescenta que a exceção são os dias de chuva. “Quando chove, daí todo mundo sobe ao coreto, mas fica no mesmo plano. Fora isto, preferimos estar todos no solo”, acentua.

Este tipo de abordagem não só facilita o contato com os menores como coloca, conforme frisa o pastor, “todo mundo na mesma condição”. “Ali, ninguém é superior, tem cargo ou título que diferencie. Somos todos iguais”, enfatiza.

A partir dessa dinâmica, o grupo consegue realizar as ações propostas, integrando organização e participantes. Silva comenta que isso dá, aos adolescentes, a sensação de pertencimento. Mais engajados, os jovens costumam, sempre, convidar novos amigos. Com isso, o movimento cresce.

Na praça, os jovens são abraçados e convidados a falar sobre os assuntos que os afligem. Em Tatuí, Silva conta que os problemas familiares são as principais questões de inquietação da juventude. Colada com eles, está a instabilidade emocional, provocada pelo rompimento de relacionamentos.

“Falar sobre o que aflige a juventude é muito complexo, mas as questões familiares são as fundamentais, porque, de certa forma, a família é a base”, avalia Silva.

De acordo com ele, os adolescentes podem apresentar determinados comportamentos quando a base familiar não está consolidada. E isto independentemente do tipo de núcleo (se o jovem mora com pai, mãe e irmão; se é órfão, adotado, ou, então, se mora com outros parentes ou responsáveis).

Silva conta que, se o núcleo familiar não está estável, o jovem pode ter problemas. Por isso, a aproximação oferecida pelo grupo é fundamental. Em princípio, porque possibilita ao adolescente desabafar e, com isso, refletir.

Quanto aos relacionamentos, além das brigas com os pais, entre eles mesmos e de problemas advindos do alcoolismo e drogas, os jovens também estão suscetíveis a instabilidades. A principal, conforme o psicólogo, envolve os namoros.

“Eles começam a se relacionar muito cedo e, de repente, terminam o compromisso que era de meses, o que, para eles, é o fim do mundo”, descreve.

Não é à toa que desilusões amorosas são mencionadas como motivadoras do pensamento do suicídio. Isto não significa dizer que elas gerem, mas são um dos fatores que podem levar o adolescente a pensar em dar fim à própria vida.

Prova disso é que, durante as orientações nos movimentos, muitos jovens que pensaram em suicídio relatam ter sofrido desilusões amorosas.

Conforme o psicólogo, o pensamento suicida tem se tornado comum devido a um processo de “normalização”. Nos jovens, isso se reflete na interação. “Quando atendo algum adolescente, no consultório ou até mesmo na praça, e pergunto como ele está se sentindo, a resposta é: ‘Normal’”, diz.

Contudo, quando o profissional passa a investigar o comportamento do adolescente, verifica que há, sim, problemas. E o suicídio está abarcado por essa “normalização”.

Silva ressalta que há, ainda, outras motivações para o pensamento, como as mudanças nas regras de convivência da sociedade, que, até então, contavam com outras “travas”. Uma delas, pela religião, que condena o ato do suicídio.

“Hoje, as pessoas estão descrentes, as regras sociais não estão tão rígidas. Há a questão da liberdade, dos vícios. Por isto, está mais fácil falar e cometer”, avalia.

Silva também diz que a sociedade convive com outro mito: o de que “quem fala não comete suicídio”. De acordo com o psicólogo, o resultado é outro. “Quem fala tem grandes proporções de querer fazer e de realizar, mesmo”, acentua.

Neste sentido, as abordagens no Sky Movement representam um trabalho inicial de prevenção. Casos mais críticos, verificados no evento por exemplo, são encaminhados a especialistas, a postos de saúde ou a particulares.

A indicação é de que o jovem busque auxílio autonomamente. Entretanto, o grupo realiza acompanhamento, por meio de telefone. O objetivo é mostrar para os adolescentes com dificuldades pessoais que eles não estão sozinhos.

Aqueles que mais necessitam de ajuda são envolvidos no trabalho chamado “S.O.S. Sobreviventes”. Ele consiste em um atendimento mais pontual aos jovens.

Silva conta que a organização sentiu a necessidade de ter uma ação mais específica, por conta do volume de atendimentos. Em média, 300 pessoas participam do Sky Movement e, para dar conta da demanda, o grupo acelera o trabalho.

No “S.O.S.”, os jovens têm mais tempo e são atendidos em “consultórios a céu aberto”. Os espaços são montados na praça, contando com profissionais específicos. Eles são destinados a pessoas que se sentem sozinhas ou precisam de atenção, abraço e orientações para tratamento de angústias e depressão.

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