Simeão Sobral í  espera da tocha olí­mpica





Chegar aos 99 anos com saúde, bom humor e disposição não é para qualquer um. O advogado aposentado Simeão José Sobral é um deles. Nascido em São Paulo, em 1916, ele viu inúmeras mudanças pelas quais o Brasil passou.

Para o ano de seu centenário, estão reservadas novidades, como a presidência do Rotary Clube de Tatuí e a participação na caminhada da tocha Olímpica, ambas em junho.

“Fui escalado para carregar a tocha olímpica. Vou comprar um ‘Keds’ e começar a treinar. Você sabe o que é um Keds? É o que vocês, hoje, chamam de tênis”, comentou, bem-humorado.

Sobre a presidência do Rotary, entidade que fundou em Tatuí e presidiu em duas ocasiões, Sobral classificou de “loucura” dos companheiros rotarianos.

“Sou um dos fundadores do Rotary de Tatuí, que aconteceu em 1947, e o único vivo. Estou escalado para assumir em junho. Foi um ato de loucura de meus companheiros de clube. Onde é que se viu contar com o trabalho de um cara com 99 anos? Eu devia estar internado em um asilo”, brincou.

Para a presidência, Sobral afirma que os planos vão aparecendo conforme as circunstâncias, mas tem uma preocupação especial, com as bolsas de estudo da Escola de Enfermagem.

“Um dos meus planos é ampliar nossa participação nas bolsas de estudos de enfermagem, praticamente criada pelo Rotary. É uma das preocupações”, contou.

Em 99 anos, Sobral viveu em períodos democráticos e duas ditaduras, das quais não tem lembranças boas. No Estado Novo, ditadura de Getúlio Vargas, entre 1930 e 1945, o advogado ainda estudava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.

“As minhas lembranças do Estado Novo são as piores possíveis. Eu era estudante e tinha muita perseguição, violência e impedimento de a gente se manifestar. Foi uma época dolorosa”, contou.

“Não tinha nenhuma liberdade. Nossas liberdades individuais estavam todas suprimidas. Só foi reestabelecida em 1945, com a primeira Constituição, digamos, popular, que veio a garantir os direitos pessoais do nosso povo”, emendou.

Simeão Sobral foi contemporâneo, durante os estudos na Faculdade de Direito, do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães.

“Participávamos do grêmio estudantil e da política interna da faculdade. De lá, saiu o Ulisses Guimarães, que deixou o nome na história do Brasil. Cheguei a conhecer ele, era um político de nascença”, afirmou.

Na política local, Sobral foi vereador uma vez, pelo PSP (Partido Social Progressista, já extinto), na década de 1950. A carreira terminou cedo, pois estava “contaminando a vida pessoal”.

“Estava me cercando de inimigos e criando problemas pessoais. Daí, eu me afastei da política. Não faço mais parte de partido político nenhum, só vou votar”, contou.

“Vereador naquela época parece que não mandava em nada. Tudo girava em todo de política. Tinha que obedecer às ordens do partido. E isso, muitas vezes, contrariava. Percebi isso, desgostei e abandonei a política”, emendou.

Sobral foi presidente da subsecção de Tatuí da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) por seis vezes. Quando presidente, segundo ele, a instituição tinha um caráter mais “burocrático”.

“A OAB era simplesmente um órgão arrecadador do dinheiro dos advogados, que era enviado para a secção de São Paulo. De modo que, praticamente, a nossa função era arrecadar dos advogados da região e mandar para lá. Não tínhamos recursos nenhum”, afirmou.

“Tanto que a máquina de escrever fomos nós que fizemos uma ‘vaca’ para instalar no fórum, pois não tínhamos recursos nenhum. Hoje, a Ordem está mais poderosa, tem recursos e fornece recursos para as subsecções”.

Na advocacia, Sobral atuou nas áreas cível, criminal e trabalhista. De acordo com o advogado aposentado, o direito criminal é mais “atraente”.

“A pesquisa sobre os casos é extensa e profunda, é muito cativante essa área. Tive alguns casos que chamaram mais atenção, mas não foram casos que tiveram muita repercussão. Foram mais repercussões momentâneas. Fiz júri em Itu, Itapeva, Itaporanga e em algumas outras cidades, além de Tatuí”.

Sobral, que está aposentado desde 1997, diz que, por estar afastado da vivência forense, não sabe ao certo se a Justiça melhorou ou piorou desde que começou a carreira. No entanto, observa que, pelo que conversa com os colegas atuantes, “a situação não é das melhores”.

“Penso que piorou um pouco a situação, pelo que os advogados dizem. Está tudo muito demorado, muito complicado, cheio de burocracia. No meu tempo, as coisas não eram muito rápidas, mas, ao que parece, a advocacia era mais tranquila”, opina.

Das lembranças do passado, Sobral se recorda da “Tatuí antiga”, da juventude, época em que os clubes eram os pontos de encontro da garotada.

Segundo o aposentado, a cidade, que tinha 30 mil habitantes, compreendia o quadrilátero formado pela avenida das Mangueiras, a “mata” Santa Cruz, a fábrica São Martinho e o velório.

“A vida aqui era doméstica. Nós tínhamos o cinema São Martinho, que era o ponto principal de atração, e o jardim em frente à Matriz. Então, tinha cinema, baile no fim de semana, a gente dava algumas voltas no jardim”.

Para sair, Sobral pegava uns trocados com o avô Simeão, com quem “tinha relação de amizade e cumplicidade”.

“Ele tinha outros netos, e era quem nos dava uns ‘cobres’ (dinheiro) para a gente, toda semana. Era quem sustentava nossos finais de semana. Nosso relacionamento foi muito bom”, conta.

Para namorar, segundo o aposentado, só com o consentimento dos pais da garota. O casamento com a primeira esposa, Rosa, aconteceu em 1946 e durou quase 50 anos, quando ela faleceu.

“Eu casei em 1946, com quase 30 anos. Namorei, possivelmente, uns três anos. Naquela época, o namoro era muito diferente. Um olhava para o outro, devagarzinho ia se esbarrando”, explica.

“E ia até se atingir uma coisa chamada noivado, que era o compromisso de casamento. Hoje, a coisa está muito mais socializada, entre o homem e a mulher. Está bem democratizado. Eu noivei em menos de um ano”, completa.

Simeão Sobral está esbanjando saúde. Mente sã, corpo são. O coração está 100%, segundo o aposentado. Todos os exames estão bons. Resta agradecer, então.

“Minha saúde está boa. Faço os exames de rotina, aqueles que o médico manda a gente fazer, e sempre dão resultados bons. Estou muito bem. É um privilégio que Deus está me dando, a minha saúde”.

Sobral não fuma cigarro, mas aprecia uma “cervejinha” às quartas-feiras e aos finais de semana.

“Bebo Brahma e um uisquinho quando o tempo está carregado. Adoro vinho; quem vai conhecer Portugal tem que gostar de vinho. De quarta-feira, eu vou ao treino dos veteranos do XI de Agosto. Fico lá, tomando uma cervejinha, conversando sobre futebol”, conta.

O advogado gosta de futebol, apesar de o time do coração não estar dando as alegrias de outrora. Desde que o São Paulo tomou uma “sova” do Corinthians (ainda no ano passado), Sobral está desgostoso com o time do bairro paulistano do Morumbi.

“Fiquei meio abatido, pois o Corinthians deu uma ‘sova’ no São Paulo. O meu time até tem suspeita de roubalheira. Agora, deu para aparecer ladrão lá também. Era um exemplo para os outros times, e se tornou isso aí”, afirmou.

O aposentado é ativo. Até hoje pega o carro e dirige pela cidade. Guiar pelas rodovias não dá mais, segundo Sobral. “O trânsito está muito violento”. A esposa, Maria Elisabete Sobral, com que vive desde 2002, às vezes, dá “puxões de orelha” no motorista.

“Em minha opinião, eu dirijo bem; já a minha mulher acha que não. Ela diz que eu sou descuidado, não olho muito para os lados. É aquela coisa de passageiro que quer dirigir do jeito dele e esquece que quem está dirigindo é você”.

Sobral já conheceu os Estados Unidos e a Europa. A mais recente viagem internacional foi para Portugal, a terra do avô paterno Simeão Augusto Sobral, onde ficou duas semanas.

“O que comemos de bacalhau lá você não imagina! Saí de lá com raiva de bacalhau. Fomos numa excursão, que visita várias cidades. Foi um entra e sai de ônibus danado. É até um pouco cansativa, mas proveitosa. Gostamos muito”.

O aposentado confidencia que os países dos quais mais gostou foram os europeus e que morre de vontade de conhecer Barcelona, capital catalã, na Espanha.

“Disseram-me que é uma cidade que não tem dia nem noite, não tem hora. A cidade não para. Tenho vontade de conhecer”, afirmou.

Quanto ao futuro, o aposentado planeja mais viagens, apesar dos obstáculos que a idade impõe. “Vontade é o que não falta”, comenta Sobral.

“Tenho várias viagens programadas, mas está ficando cada vez mais difícil. Primeiro, porque estou ficando velho; segundo, o dólar está subindo. Mas, se tivermos chances, ainda vamos sair para mais algum lugar”, finaliza, sempre programando o futuro.