Quem manda?

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Superficialmente – senão ingenuamente – o “dono” de um negócio pode crer que quem “manda no pedaço” é ele. E, superficialmente, tem razão.

Porém, se isto implica na premissa de que, por consequência, ele pode fazer o que bem quer, o resultado pode ser que esse empresário mandará por tempo curto, vez que não tardará a alcançar a falência.

Por quê? Qualquer microempresário (sobrevivente) sabe bem a resposta: porque, se não considerar os interesses de seus consumidores, estes “clientes” buscam outras empresas para adquirir o que lhes interessa, outros profissionais para lhes prestar os serviços necessários.

As empresas, portanto, necessitam “corresponder” ao que seus clientes esperam, se assim pretendem continuar no mercado. E os veículos de comunicação seriam diferentes? Sim e não.

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Jornais, rádios, TVs, portais de notícias etc. têm, todos, algum – ou alguns – proprietários. Portanto, são empresas como outras quaisquer.

O fato de não venderem geladeira, mas fornecerem informação, não interfere em nada nessa lógica de comércio – especificamente no caso, de prestação de serviço na forma de notícias.

Há um público consumidor, da mesma forma, o qual busca informação pelos veículos. Naturalmente, este “cliente”, tal como não aceita uma geladeira que estraga os alimentos porque não faz bem o serviço que deveria, também não se satisfaz com notícia “antiga”, “tendenciosa”, “fragmentada”, “parcial”, “mal feita”…

Mais ainda: não aceita omissão, pois sabe que, ao abrir o jornal que assina e não encontrar os fatos “mais significativos” de sua comunidade, isto seria o mesmo que comprar a porcaria dessa geladeira e, no final das contas, não recebê-la em casa.

Nesta situação, procuraria o Procon; no caso da imprensa, pelo “produto” (a informação) estar sujeito a uma subjetividade muito grande – pela chamada “pauta” não poder ser previamente “acertada” com o consumidor (o leitor, radiouvinte, telespectador) -, este simplesmente se decepcionaria e passaria a ler outro jornal, escutar outra rádio, ver outra TV…

Ah, e onde está a diferença lá do “sim” e não”? Está no seguinte: quando o empresário dá as costas aos interesses dos consumidores, como já observado e sabido por todos, ele usará a autonomia dele, toda a força que acreditava ter, para puxar abaixo a porta do empreendimento que possuía, terminando por passar-lhe o cadeado.

Já no caso da imprensa, tem uma “saidinha”… Sim, sem hipocrisia, senhores, tem uma malandragem! Por meio dela, o negócio ainda fica em pé mesmo que o produto chegue “faltando pedaços” à casa do consumidor, ou seja simplesmente uma porcaria. Acontece assim: a empresa jornalística deixa de praticar jornalismo e começa a “fazer” política. Só isso.

Como é feito? Acontece assim: o “dono” da empresa só divulga aquilo que interessa a ele e ao grupo do qual faz parte – ou, na melhor das hipóteses, se coloca numa prepotente condição de “dono da verdade”, pré-julgando as informações com o propósito de decidir o que o “povo pode e não pode saber”…

É importante lembrar que não há meio termo: ou se faz jornalismo, ou, consequentemente, política. No caso da política, ocorre a barganha, pela qual o veículo recebe privilégios e benefícios outros que garantem sua sobrevivência – às vezes, muito boa sobrevivência.

Lógico que o preço disto – o outro lado da moeda -, óbvio, é a perda sistemática de credibilidade e, novamente por consequência, de público, de consumidores de notícia. Daí porque costuma ser, como se diz, um caminho sem volta.

Sem volta porque, com público ínfimo, vai-se o consumidor que compra os produtos e serviços anunciados na imprensa. Ou seja, sem o tal “retorno”, não há anunciante. E quem mantém financeiramente os veículos “não políticos” são justamente os anunciantes.

Não se trata, aqui, de apontamentos desmerecedores a nenhum outro veículo da região, mas apenas de reforçar que o verdadeiro “dono” de um jornal sério – tal como de todos os veículos de comunicação de respeito – não é seu proprietário, mas todos os seus leitores.

Se o ingênuo chefe ignorar isto, fatalmente fará companhia ao empresário falido por incompetência. Já quanto à alternativa, se a “direção” deste jornal tivesse de parar de praticar jornalismo em favor da política para sobreviver, com certeza, iria preferir também baixar as portas e começar a, quem sabe… vender geladeiras.


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