Que de dane a democracia?

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Por motivos óbvios, muito mais marcados pela crise econômica que pela corrupção, a imensa maioria da população manifesta-se descontente com o governo federal. Seguidamente, a desaprovação escapa à instância da opinião pública e ganha as ruas.

Sem problema, até porque faz parte da democracia. O perigo maior começa quando não se leva a sério que a tal democracia ainda não é pacificamente consolidada no país.

Prova disso é que, por um lado, se a indisposição quanto ao governo suscita pedidos de impeachment – compreensivelmente -, por outro aspecto, ninguém parece se importar com quem – ou que grupo – ocuparia o lugar de Dilma em caso de afastamento.

Pior, há muitos que sabem muito bem o que gostariam: o retorno de um governo totalitário, preferivelmente militar. Ou seja, querem o fim da democracia, como se os problemas econômicos e sociais fossem derivados do sistema de governo – senão de um partido em particular.

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Há, ainda, quem acredite – ou queira acreditar e fazer crer – que a corrupção é fenômeno recente, cultivado no país após a posse da atual administração federal. Por aí se vê a importância da educação – novamente – e os prejuízos que a falta dela pode causar.

Basta um pouquinho de interesse pela história nacional – e mundial, aliás – para chegar-se à conclusão de que a corrupção é endêmica e inerente ao ser humano.

Ela sempre habitou, com grande desenvoltura, o território nacional, muito mais à mostra, até, que as “vergonhas” dos naturais da terra, os índios que andavam pelados por aí antes de os europeus ancorarem suas naus e, com elas, semearem as desvirtudes na Terra de Vera Cruz.

Mas, calma! Sem ingenuidade, sem a frescurite do politicamente correto, a qual apresenta os aborígenes como santos na terra, todos inocentes, bonzinhos e alheios às mesquinharias e crueldades do “capitalismo selvagem”.

É bonitinho esse discurso, mas, certamente, ninguém preferiria deixar de conviver com a corrupção para se arriscar a ser comido (literalmente) por um índio como troféu de guerra (sim, havia guerra e canibalismo no Brasil antes da corrupção do homem branco – ou seria “elite branca?”).

A verdade é que o povo ganharia muito mais se não fosse tão afetado por discursos bobos e falsos, segundo os quais há “mocinhos” e “bandidos” firmemente fincados em lados opostos. Não há.

A corrupção esteve sempre aí, sob as fardas ou não. A diferença mais significativa é que, antes, não era possível se saber o que efetivamente ocorria nos meandros do poder – tampouco figuras de alto escalão e megaempresários eram presos (ainda que para serem soltos em seguida). Ademais, o que não deixa de ser certo avanço.

Sim, muitos argumentam que, agora, estão extrapolando, que nunca houve tanta corrupção. Não é verdade, e o tempo cuidará de provar isso. A promiscuidade “no” e “junto” ao poder público não sofreu qualquer sobressalto, mantendo a alta performance desde a arrancada.

Por consequência, pode-se questionar que, sendo a corrupção um patrimônio nacional, seria aceitável não fazer nada? Por certo, não. Deve-se protestar, embora com consciência e sem comprometer a democracia.

Dois fatores justificam esse cuidado. Primeiro, a consciência de que, caso não estivesse faltando emprego e dinheiro na praça, poucos estariam incomodados com a corrupção. Ou seja, a causa real dos protestos não é a corrupção, mas a crise econômica.

A verdade é que se todos – patrões e empregados – estivessem tranquilos, consumindo, comprando seus carros novos, suas bolsas de grife, passeando no shopping, pintando as unhas e tomando cerveja à vontade, pensariam o seguinte sobre a corrupção: dane-se!

E não adianta negar: a reeleição da presidente é prova dessa verdade, vez que o mensalão e o “petrolão” já eram de domínio público, mas a crise econômica ainda não havia implodido em outubro.

Há “idealistas” – sem dúvida! -, que pensam no futuro do país e dos próprios filhos e netos, agindo em favor deles, mesmo que tendo de se indispor, se arriscar no momento. Mas, francamente, são minoria.

Outro fator fundamental concerne à consequência possível em razão de eventual afastamento da presidente. Uma das alternativas seria um golpe de estado, com o fim da democracia.

Repetindo um clássico clichê de Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras”. Nada a acrescentar…

A outra alternativa seria a posse constitucional dos legítimos substitutos. Que ótimo! No entanto, seria interessante saber se o povo crê, mesmo, que Michel Temer seria melhor na presidência… Sério???

Ah, mas não se pode esquecer o presidente da Câmara Federal, digníssimo deputado Eduardo Cunha, que entrou na política pela graça de PC Farias, o lendário tesoureiro e eminência parda do ex-presidente Fernando Collor.

Sim, esse mesmo que teve o mérito de ser o primeiro a sofrer impeachment na história do Brasil, justamente por… corrupção, como todos sabem (ou deveriam saber).

Por fim, que não fique imagem equivocada, de que os protestos, as manifestações, seriam errados. Muito pelo contrário. Apenas, ao longo dessa caminhada para as ruas, seria muito produtiva, também, a passadinha em alguma biblioteca. Diferentemente do oba-oba das redes sociais, há muita coisa séria e fundamental a se aprender nos livros de história.


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