Perigo de incêndio

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Como já divulgado, na semana passada, cerca de 70 famílias invadiram uma área perto de onde residiam, pertencente à Prefeitura, na vila Angélica. O grupo iniciou a demarcação do local esperando obter o direito de construir moradias nele.

São homens, mulheres e crianças, fixados improvisadamente no local. A área, situada entre as ruas José Gaspar e Danilo Medeiros Paes, acabou “tomada” por barracos.

A maioria dos “ocupantes” – eles não se autodenominam invasores e não se consideram sem-terra – já residia no bairro. A O Progresso, enfatizaram que querem permanecer na localidade, uma vez que possuiriam emprego em áreas próximas e que buscam ficar “livres do aluguel”.

“Todos que estão aqui são da vila Angélica. Eu decidi vir para cá porque a casa onde moro não é minha. Tenho uma família muito grande e que divide três cômodos. Pagava R$ 350 de aluguel, que pesa bastante”, argumentou uma das pessoas.

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Como a mesma intenção, as demais famílias encorparam o movimento, a ponto de muitas aceitarem dividir a mesma porção de terreno.

Conforme ela, o movimento não possui liderança. Entretanto, a ocupação segue critérios de organização. Cada terreno é dividido conforme metragem específica. Parte deles tem frente medindo cinco metros; outra, 6 m por 25 m (metragem padrão).

A ocupante frisou que as famílias não querem briga com as autoridades. Também refutou a possibilidade de conflito com a Polícia Militar.

As 70 famílias estão abrigadas em moradias improvisadas. Contudo, o número de ocupantes pode ser maior. Conforme os moradores, a estimativa é de que 90 famílias estejam pleiteando terra para construir.

“De pessoa dá muito mais. Cada barraca tem cinco ou seis pessoas”, disse a dona de casa. O número está sendo verificado pela assistência social do município, que atua na Secretaria Municipal da Indústria, Desenvolvimento Econômico e Social.

O grupo quer a doação do terreno pela municipalidade. “Ocorreu com uma residência ao lado. A Prefeitura não deu o terreno, mas o proprietário se alojou. Nós poderíamos ficar do mesmo jeito”, argumentou a dona de casa.

De acordo com ela, todos os ocupantes com emprego trabalham próximos à região, ou pegam conduções para o serviço nas imediações. Por esse motivo, o grupo disse que não quer área em outro ponto.

Também por essa razão, ela sustentou que nenhuma das pessoas que estão no terreno da vila Angélica participou do movimento dos sem-terra em Quadra.

Segundo a ocupante, o grupo decidiu fazer a demarcação dos terrenos para “evitar confusões”. Em função da divulgação da ocupação, no fim da semana passada, a dona de casa informou que o número de pessoas que estiveram no local aumentou.

Também disse que uma pequena parte apenas montou barraco e não permaneceu no local. Utilizando o controle, o grupo faz a verificação de quem se mantém na ocupação e quem apenas quis garantir espaço. Com a ausência prolongada, as famílias são repostas, e “passam a ter preferência sobre o terreno”.

A O Progresso, o prefeito informou que tomou conhecimento da invasão na semana passada e que, na segunda-feira, 8, o Departamento Jurídico da Prefeitura já havia tomado providência, ingressando com ação de reintegração de posse.

Manu informou que a Prefeitura adotou a medida com base na verificação da situação dos ocupantes, cuja maioria possui residência e mora no bairro. “A Prefeitura vai verificar como ajudar quem não tiver condições de ir para outro lugar”, ressaltou.

A rotina dos moradores do acampamento tem sido de improvisos. Cada família montou barraco fixando pedaços de madeira no chão e os cobrindo com lonas ou sacos plásticos.

Eles sofrem com o calor e dependem de colaboração da população do entorno para se manterem no local. As famílias criaram uma cozinha comunitária e tomam banho em um posto de combustíveis.

“Como todas as barracas têm mais que três pessoas, deitam todo mundo junto e o corpo de um esquenta o outro”, contou um dos ocupantes.

Eles têm de improvisar porque não conseguiram levar todos os pertences para a área. Também temem perder geladeiras, fogões, camas e sofás, caso haja reintegração de posse. Assim, optaram por deixar os eletrodomésticos e móveis na casa de vizinhos ou parentes.

Rosineide Maria dos Santos terminou a montagem do barraco que ela ocupa com os filhos no domingo, 7. Dos dez que vivem com ela (entre 12 que ela tem), apenas uma parte está dormindo no barraco improvisado.

Ela perdeu o emprego recentemente e disse que, por essa razão, a proprietária pediu a desocupação do imóvel. “Estou contando com isso daqui (com a doação do terreno da Prefeitura). Depois desse prazo, tudo vai ter que vir para cá, até os meus filhos que estão em casa”, declarou.

Com o salário de perto de R$ 700, ela disse que pagava o aluguel (R$ 300), as despesas de água e luz (em torno de R$ 200), mais gás, remédio e comida. “Passava dificuldade o mês todo. Mas, tenho fé em Deus”, disse.

Rosineide revelou que sonha em construir uma casa com três cômodos. Contudo, frisou que o espaço não é importante. “Se eu ganhar, já fico feliz. Eu creio que vou ganhar (o direito de propriedade do terreno)”, completou.

Como ela, os demais ouvidos pela reportagem (vários), encontram-se em situação crítica. Obviamente, necessitam de auxílio. Entretanto, por mais indigesto que seja, é preciso questionar se a simples doação de terreno seria solução.

Afinal, uma população tão carente de condições básicas de sobrevivência digna como conseguiria construir? Uma das consequências seria a possibilidade de uma comunidade de barracos? E mais: a improvável doação de terreno a uns não poderia redundar em igual demanda por outros “sem-casa própria”?

É lamentável a situação, vale repetir. A intervenção pública, com o apoio em tudo o que for legalmente possível, deve ser imediata. Não obstante, parece haver problema ainda maior: o risco de morte.

Conforme ressaltado pelo Corpo de Bombeiros, as edificações improvisadas são extremamente vulneráveis a incêndio, particularmente pelo uso de fogo para aquecimento de comida e de velas para iluminação.

Lá, existem crianças, inclusive, que podem potencializar ainda mais o perigo. A grave realidade não representa apenas mais um infortúnio social, mas a necessidade de se efetivar, verdadeiramente, um amplo trabalho de assistência social. Com urgência!


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