Pau no jornalismo

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No ano passado, os casos de violência contra jornalistas no Brasil cresceram 17,52%, na comparação com 2015. Foram registradas 161 ocorrências nas quais 222 profissionais de todo o país foram submetidos a agressões físicas ou verbais, ameaças, intimidações, cerceamento por meio de ações judiciais, impedimentos ao exercício profissional e à atividade sindical, prisão, censura, atentados e assassinatos.

As informações constam no “Relatório de Violência Contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil 2016”, divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), dia 12, no Rio de Janeiro.

“Apesar dos números alarmantes, temos a impressão de que os dados são subestimados. Muitos casos não se tornam públicos, pois o jornalista tem medo de se expor ao denunciar quando é vítima de violência”, declarou a presidenta da Fenaj, Maria José Braga.

“Identificar os casos de censura também ainda é um desafio. No relatório, são poucos, mas sabemos que esse número é muito maior”, acrescentou ela, durante a apresentação, no auditório do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro.

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Dois jornalistas foram assassinados no Brasil no ano passado: João Miranda do Carmo, morto com sete tiros por denunciar, em seu blog, problemas em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, e Maurício Campos Reis, dono do jornal “O Grito”, assassinado em uma emboscada na cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais.

Entre as ocorrências constadas no relatório, a agressão física foi a forma mais frequente de violência contra profissionais da imprensa: 36,03% dos casos. Agressões verbais (16,15%), ameaças (14,91%) e cerceamento à liberdade de expressão por meio de ações judiciais (11,18%) aparecem em seguida.

A região Sudeste concentrou a maioria dos casos: 44,10%. A violência contra jornalistas em manifestações fez com que o Sul ocupasse o segundo lugar no ranking, com 18,63%.

O Nordeste apresentou queda expressiva nas ocorrências, especialmente entre os chamados “crimes por encomenda”, que eram frequentes na região.

Os profissionais de televisão são os maiores alvos da violência (31,83%), de acordo com o relatório. A maior facilidade de identificar esses trabalhadores, e os riscos a que eles estão expostos, são algumas das razões apontadas para a incidência maior de casos nesse grupo, segundo a presidenta da Fenaj.

“Temos que encontrar uma forma de resguardar a integridade física dos profissionais de imagem”, disse Maria José Braga.

Já entre os agressores, policiais militares e guardas civis despontam como os maiores “algozes” dos jornalistas brasileiros – tendo sido responsáveis por 25,47% das ocorrências. Mas, a quantidade expressiva de casos envolvendo manifestantes também é preocupante, de acordo com Maria José Braga.

“Isso é bastante complicado. Temos acompanhado a atuação importante de alguns sindicatos junto aos movimentos e fóruns populares para informar e alertar sobre a importância do trabalho do jornalista e que os profissionais não devem ser agredidos.”

São também notáveis as presenças de políticos – e seus assessores e familiares – (15,53% dos casos) e membros do Poder Judiciário (10,56%), como juízes, procuradores e oficiais de Justiça, entre os principais agressores de jornalistas no país.

“Não há justificativa para violência contra jornalistas e é preciso denunciar, pois a impunidade é o combustível da violência”, ressaltou Braga.

O “Relatório de Violência contra Jornalistas e Liberdade de Expressão no Brasil 2016” é produzido pela Fenaj em parceria com os 31 sindicatos de jornalistas do país.

Contudo, seria natural o cidadão ponderar se essa violência carrega algum outro problema além do óbvio, que seria o abuso da própria agressão, algo ilegal em face de qualquer cidadão.

Basicamente, ocorre que nenhuma sociedade minimamente decente se sustenta, de fato, sem informação, tampouco sem a tal liberdade de expressão. Esses dois direitos fundamentais manifestam-se, basicamente, pela imprensa.

Por esse aspecto, já se clarifica o problema. Não obstante, há mais, como as sistemáticas manobras oportunistas com o objetivo de desqualificar o profissional jornalista, particularmente por meio da não exigência de estudo formal para o exercício da profissão.

O oportunismo está no fato de se embaralhar, propositada e hipocritamente, os conteúdos informativos com os opinativos – em outras palavras, reportagens com artigos.

Para noticiar, sim, é preciso estudar; para dar opinião ou assinar artigos, não – salvo, claro, se o artigo, por exemplo, for sobre orientações médicas. Aí, naturalmente, o redator tem necessidade de ter feito faculdade (a de medicina, não de jornalismo!). Porém, são situações muito distantes, cuja discussão levada a público de maneira confusa só pode partir da má-fé de quem quer desqualificar o jornalismo, dado dele ter receio – aqueles que têm algo a esconder.

Ainda, em época de auge das redes sociais, talvez, exista quem imagine que o desestímulo ao jornalismo profissional não indique problema. “Tudo bem, a gente fica sabendo o que acontece pelo ‘Face’!”. Ou, mesmo, “para que se informar se só tem notícia de desgraça?”.

Diante de óticas dessa natureza, convêm duas ponderações: seria possível confiar no que se mistura, sem cuidado e sem critério, em tudo aquilo que se encontra no instrumento que deu maior vazão ao egocentrismo da história humana? Mesmo?…

E, por sua vez, seria conveniente a alienação quanto ao mundo, ao nosso país, Estado, cidade, comunidade, quarteirão? Entre milhões de exemplos, seria melhor “não” saber que um cidadão da quadra próxima foi assaltado na porta de casa? Ou que um traficante foi preso vendendo drogas na porta da escola de seu filho? Mesmo?…

Com um mínimo de questionamento, já se observa que, entre tantos aspectos delicados a serem enfrentados pelo país, mais esse não deixa de ser alarmante: a possibilidade de mais trevas pela literal ignorância, aquela que tira o seu direito à informação – ao saber! – algo, obviamente, fundamental a quem quer viver em mundo civilizado e, também, ter opinião, mesmo que seja para atirá-la sem critério nas redes sociais.

Aliás, se for para atirar, que sejam besteiras na internet, jamais com armas de fogo contra quem quer que seja.


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