Patrimônio secular





Entre as várias virtudes reconhecidas e atribuídas à Capital da Música – também conhecida como Cidade Ternura -, além das óbvias que lhe garantem esses dísticos, está uma, literalmente, viva há um século, por sorte do município e graça do destino.

Sorte porque os tatuianos podem, proximamente, espelhar-se nele como modelo de cidadão digno e incansavelmente produtivo; graça porque poucos recebem a bênção de alcançar os três dígitos de vida – especialmente com saúde e inabalada capacidade intelectual.

Por isso, Tatuí tem muito a comemorar junto a Simeão José Sobral, que completou cem anos de idade nesta terça-feira, 29. Neste sábado, inclusive, o advogado festeja a data com amigos e familiares, na sede do Rotary Club de Tatuí, do qual é presidente no momento, como já o foi em outras duas oportunidades.

Relembrando, este foi um ano de “quebra de recordes” para Simeão Sobral. Em junho, ele assumiu novamente a presidência do Rotary. No mês seguinte, foi um dos tatuianos a carregar a tocha olímpica durante a passagem da chama pela cidade.

Simeão Sobral chegou a comentar, brincando, que viver cem anos é “abusar da vida”. Apesar da idade, o aposentado tem vida ativa. Dirige o próprio carro, preside o clube de serviços, participa de excursões e, às quartas-feiras, reúne-se com amigos na Associação Atlética XI de Agosto, onde toma uma “cervejinha” e conversa sobre futebol.

Quase 20 anos após a aposentadoria, Simeão Sobral ainda pretende voltar às atividades no ano que vem, em “causa própria”. Ele conta que ingressará com ação judicial, de “cunho administrativo”.

O centenário é membro ativo da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) desde 1944 e foi presidente da subseção local em seis oportunidades.

Além da festa no Rotary, Simeão Sobral pretende comemorar o aniversário com uma viagem ao Mato Grosso. O aposentado foi convidado por um amigo para passar alguns dias em uma fazenda. “Estamos cogitando essa possibilidade”.

No entanto, afastou a ideia de voltar a realizar viagens internacionais ao lado da esposa, Maria Elisabeth Amadei Vieira de Camargo. Para ele, “nesta etapa da vida, é melhor evitar percursos mais longos”.

Para o ano que vem, o centenário planeja dar continuidade na direção do Rotary, entidade da qual é um dos fundadores – o único vivo. Em agosto, a entidade completará 70 anos de fundação e o aposentado, o mesmo tempo como rotariano.

“Vamos fazer uma festa para comemorarmos a data. Também vou comemorar meus 70 anos de Rotary, isso se eu chegar até lá”, disse, novamente brincando.

O plano de Simeão Sobral é trazer mudas de uma planta que teria a característica natural de repelir o Aedes aegypti e distribuí-la na cidade. A ideia foi colocada em prática pelo Rotary no Estado do Paraná.

Embora seja um “tatuianíssimo” como poucos, Simeão Sobral nasceu em São Paulo, no ano de 1916. Revendo o passado, em entrevista a O Progresso no início do ano, ele lembrou que já vivera em períodos democráticos e sob duas ditaduras, das quais não tem lembranças boas. No Estado Novo, ditadura de Getúlio Vargas, entre 1930 e 1945, ainda estudava na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.

Nessa época, foi contemporâneo do presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães. “Participávamos do grêmio estudantil e da política interna da faculdade. Cheguei a conhecer ele, era um político de nascença”, aponta.

Na política local, Sobral foi vereador uma vez, pelo PSP (Partido Social Progressista, já extinto), na década de 1950. A carreira terminou cedo, pois estava “contaminando a vida pessoal”.

“Estava me cercando de inimigos e criando problemas pessoais. Daí, me afastei da política. Não faço mais parte de partido político nenhum, só vou votar”.

Sobral também foi presidente da subsecção local da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) por seis vezes. Quando nesse cargo, segundo ele, a instituição tinha um caráter mais “burocrático”.

“A OAB era simplesmente um órgão arrecadador do dinheiro dos advogados, que era enviado para a secção de São Paulo. De modo que, praticamente, a nossa função era arrecadar dos advogados da região e mandar para lá. Não tínhamos recursos nenhum”, afirma.

“Tanto que a máquina de escrever fomos nós que fizemos uma ‘vaca’ para instalar no fórum, pois não tínhamos recursos nenhum. Hoje, a Ordem está mais poderosa, tem recursos e fornece recursos para as subsecções”.

Na advocacia, Sobral, que está aposentado desde 1997, atuou nas áreas cível, criminal e trabalhista. Entre as quais, observa ele, o direito criminal é mais “atraente”.

Das lembranças do passado, Sobral ressalta a “Tatuí antiga”, da juventude, época em que os clubes eram os pontos de encontro da garotada.

“A vida era doméstica. Nós tínhamos o cinema São Martinho, que era o ponto principal de atração, e o jardim em frente à Matriz. Então, tinha cinema, baile no fim de semana, a gente dava algumas voltas no jardim”.

Para sair, Sobral pegava uns trocados com o avô Simeão, com quem “tinha relação de amizade e cumplicidade”.

“Ele tinha outros netos, e era quem nos dava uns ‘cobres’ (dinheiro) para a gente, toda semana. Era quem sustentava nossos finais de semana. Nosso relacionamento foi muito bom”.

Para namorar, só com o consentimento dos pais da garota. O casamento com a primeira esposa, Rosa, aconteceu em 1946 e durou quase 50 anos, quando ela faleceu.

“Eu casei em 1946, com quase 30 anos. Namorei, possivelmente, uns três anos. Naquela época, o namoro era muito diferente. Um olhava para o outro, devagarzinho ia se esbarrando”, relembra.

“E ia até se atingir uma coisa chamada noivado, que era o compromisso de casamento. Hoje, a coisa está muito mais socializada entre o homem e a mulher. Está bem democratizado. Eu noivei em menos de um ano”, completa.

Sobre a saúde, Sobral se orgulha em contar: “Estou muito bem. É um privilégio que Deus está me dando, a minha saúde”. Isso apesar da “cervejinha” às quartas-feiras e aos finais de semana.

“Bebo Brahma e um uisquinho quando o tempo está carregado. Adoro vinho. De quarta-feira, vou ao treino dos veteranos do XI de Agosto. Fico lá, tomando uma cervejinha, conversando sobre futebol”.

E não apenas saúde Sobral tem de sobra: “perícia” e lucidez também. Tanto que costuma ser visto constantemente dirigindo pela cidade. Já pilotar pelas rodovias não dá mais, diz ele. “O trânsito está muito violento”.

“Em minha opinião, eu dirijo bem; já a minha mulher – Maria Elisabeth, com quem vive desde 2002 – acha que não. Ela diz que sou descuidado, não olho muito para os lados. É aquela coisa de passageiro que quer dirigir do jeito dele e esquece que quem está dirigindo é você”.

Sobral já conheceu os Estados Unidos e a Europa. A mais recente viagem internacional foi para Portugal, a terra do avô paterno Simeão Augusto Sobral, onde havia ficado duas semanas.

Também por ser “largamente” vivido – em tempo e pelo mundo – Simeão Sobral segue como (bom) exemplo e um dos maiores patrimônios tatuianos. A ele, portanto, os nossos parabéns!