O tempo bom do chope

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É domingo, dia 12 de fevereiro de 2017. Em minha casa, na mesa da sala, às 11h, estava assistindo um jogo do campeonato paulista. Vi o estádio do Pacaembu, e fiquei acossado por saudades decorrentes das centenas de vezes que lá estive, seja na parte da manhã, tarde ou noite.

No decorrer do jogo mencionado, olhava, outrossim, os jornais do dia, comprados na Praça da Matriz, ali na banca do João. Este cidadão, como sempre é observado, deixa de comparecer ao seu expediente apenas nas oportunidades que fica alhures contando dinheiro. Todo mundo sabe que o João, mesmo que se deparasse com um “Plano Collor” durante os últimos dias de sua vida, e ele tem apenas 50 anos, jamais teria qualquer dificuldade financeira.

Foi, então, que vi uma notícia na “Folha”. Dizia uma manchete daquele jornal que havia falecido “conhecido garçom que trabalhou até os 96”. Poxa, era o seu Luiz do Bar Léo de São Paulo. Sim, o Luiz de Oliveira, nascido em 1921, na cidade de São Pedro (SP), e falecido na capital, em 09-02-2017.

Minha visão foi de imediato arrebatada pela avalanche desmedida de cenas passadas, como num “flashback” de filmes. E lá estava, em meados do ano de 1979, com o Ari Hoffman, sendo apresentado ao sr. Luiz. Então, na mesa do Bar Léo, ouvi do sr. Luiz que gente de Tatuí era sempre bem-vinda, pois todos eram “gente boa”. Ele citou dentre outros, o nome de Mateus Peixoto.

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E começou, daí, uma amizade com aquele senhor simpático e atencioso. Na oportunidade, eu era novel profissional do direito, com assento no departamento jurídico de uma grande empresa multinacional, pois não me assolavam, ainda os lampejos apaixonantes do Ministério Público, tampouco da magistratura, ou mesmo da aposentadoria. Efetivamente, eram tempos bons e desafiadores.

Sempre estive depois, mesmo dependente de oportunidades possíveis, à mercê do acompanhamento de chopes e salgadinhos no Bar Léo, onde não raro encontrava o pessoal de Tatuí (alô, Mário Sazham, Tony Caranguejo, Pelé, Ivan Gonçalves, Ivanzinho, Darcy Peru, Manso, Zirdo Moreno, Santala, Dr. Xavier, Chico Severino, Gonzaga, Cabral, Dito e Geraldinho Pastel, Guarugy Comeli, Paulinho Rosa, Dr. José Rubens, Márcio Pasqualote, Marcelo Peixoto, Guiga, e outros tantos). E o sr. Luiz lá estava sempre, jamais aborrecido, fazendo apologia do seu querido Palmeiras. Ele não nos encarava como simples jovens fregueses, mas sim amigos, nos confidenciando aspectos e experiências da vida. Todos gostavam de suas palavras. Para nós, aquele ambiente do Bar Léo era coisa de “primeiro mundo”, título, aliás, que trouxe num artigo inserido no “O Progresso de Tatuí”, de 07-05-1995. Destaquei na ocasião, a sintonia do trabalho desenvolvido pelo famoso “Luigi” (apelido do sr. Luiz). E assim foi.

Agora, frente à notícia do seu passamento, tenho de administrar a emoção, conquanto há muito tempo tenha deixado de comparecer ao Bar Léo, ou de conversar com o seu Luiz.

Muitos tatuianos que lá compareciam ainda com frequência, me contaram em encontros informais, que o “Luigi” me mandara um abraço. A realidade era de que o Bar Léo ainda mantinha a estica do bom chope tirado pelo sr. Luiz. Cientes todos, porém, de que se rogassem por um chope sem colarinho, inevitavelmente não seriam atendidos. Essa era a lei do sr. Luiz.

Um vazio, é certo, agora se apresentou. O mandamento do bom chope com farta espuma será detectado possivelmente em outros espaços, mas o toque emocional da verdadeira palheta pode ter ido embora. Quem se aproveitou daquele jeito do sr. Luiz, guardará para sempre um tesouro inalcançável pelas novas gerações. Nesse particular, o sonho acabou.


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