O Enem 2015 e Simone de Beauvoir

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Uma polêmica além do surreal. Mesmo que ninguém soubesse quem foi Simone de Beauvoir, a questão teria sido simplíssima. Porém, os “diplomados” pelas redes sociais que tiram conclusões apressadas já pelos meios-títulos cunhados com má intenção, caem na esparrela. Houve uma mocinha que escamoteou levianamente com o dedo o final da questão, deixando entrever na foto apenas o início: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Postou na rede e escreveu no caderno da prova este descalabro: “Nasci mulher, tenho vagina”. Simone pensava que tornar-se mulher era assumir-se como tal em uma sociedade em que “o segundo sexo” (título do livro de onde saiu a frase) é subserviente. Ora, talvez pressionada por modernidades como “o sexo ou opção de gênero acontece depois”, a garota desferiu um golpe mortal na lógica. A introdução, que ela cobriu em parte, explica que tornar-se mulher significa encontrar seu lugar na sociedade machista. Nada a ver com sexualidade, ponto.

Usar papo da moda para se referir a uma frase de 65 anos atrás foi para lá de cabotino. As respostas em múltipla escolha tiveram antes uma curta explicação, e essa quase trazia a resposta: “Na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir serviu para estruturar um movimento social”. Ponto. (A) “Ação do Poder Judiciário para criminalizar a violência sexual”. Absurdo, não seria da alçada do Judiciário inventar algo que a lei não define. (B) “Proposição ao Poder Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho”. Impedir? A “segunda jornada” se refere ao lar, depois do trabalho, e não é uma questão de divisão de trabalhos domésticos. (C) “Organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero”. Seria a resposta correta, fora minha restrição: os citados anos 60 vieram mais de uma década depois do livro de Simone. Meu filho cravou por lógica. (D) “Oposição de grupos religiosos para impedir os casamentos homoafetivos”. Naquela época? (E) “Estabelecimento de políticas governamentais para promover ações afirmativas”. Soa como coisa da Secretaria da Política para as Mulheres.

A discussão, eivada de maldades e distorções, foi além do ridículo. A literatura brasileira não foi solapada pela francesa, pois a questiúncula (no diminutivo mesmo) era tão curta, entre 45, que mais lembrava as “leituras silenciosas” do colégio. Ninguém precisaria conhecer o pensamento da filósofa, sequer saber quem ela foi. A simples lógica induz à opção correta. Simone propunha ideias feministas, sim, e nunca pelas mãos do estado, haja vista que à mulher francesa foi “concedido” o direito de votar apenas quatro anos antes de seu livro. Não interessava – nem interessa – ao estado machista abrir espaço às mulheres. Ademais, o jargão empregado nas respostas erradas, (D) e (E), é típico vocabulário recente brasileiro, especialmente se vindo de instâncias do governo, de cima para baixo, e não de um movimento de conscientização sério, de baixo para cima. Conseguiram radicalizar uma coisa simples, e pilantras dos mais reacionários e ignorantes subiram ao palco armados.

Normal o fato de a quase totalidade das pessoas não conhecer o trabalho de Beauvoir – estamos no século da escuridão, e não no século das luzes (18, pré-revolução francesa), ou no 20 das proposições de Beauvoir. Responder à questão implica em um mínimo de bom-senso. Agora, “ideologizar a prova”, como querem os radicais das bancadas “da bala” e “da Inquisição”, Bolsonaro e Feliciano, como sendo uma interferência ideológica do governo é uma demonstração de que o radicalismo e a ignorância correm sem freios.

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Se a questão fez a menina, por má-fé, tampar o restante do preâmbulo e fotografar o caderno de provas para fazer sobressair sua infeliz anotação “nasci mulher, tenho vagina” só cabe lamentar. Talvez seja a busca pelos “15 minutos de fama” como preconizou Andy Warhol – e essa fama hoje via redes sociais pode ser até curtida anonimamente, mero prazer. Porém, uniu-se a outros ignorantes e oportunistas na leitura maliciosa do texto. Para apimentar o festival de besteiras – saudades do Febeapá! -, vereadores de Campinas aprovaram, em 28/09, moção de repúdio contra Simone de Beauvoir na prova do Enem! (Será que conseguiram oficiá-la no cemitério de Montparnasse?). Campos Filho (DEM) bradou: “A questão é demoníaca (…) como alguém pode ser homem de dia e mulher à noite?” Colégio e zero nele! Jaírson Canário (SD) saiu-se com essa pérola: “Se Deus quisesse que não tivesse diferença entre homem e mulher, teria feito Adão com dois órgãos genitais” (sic). O analfabetismo e a cegueira grassam. Erros de português, de pronúncia, de vocabulário legal (exarar é emitir sentença ou decisão por escrito, e não opinar) macularam o alto status cultural campineiro pela patuscada de seus legisladores. Sem falar no promotor sorocabano Jorge Marum: “Uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não raspa as axilas”. Um promotor de justiça! Onde andam a PGE e a Embaixada da França? Um representante do MP atingiu um país inteiro por preconceito!

Já a redação proposta no exame, “violência contra a mulher”, não tem ideologia nem partido – é sobre crime e ponto. Ter tido o privilégio de ler Simone e Sartre em casa e um pai que conheceu o casal em 1960 não me habilitariam melhor para responder à questão do que qualquer leigo preparado para ingressar em uma universidade. Apenas lamento que a ignorância tenha atingido profundidade abissal e mostrado que o país está doente, cada vez pior.


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