O Brasil da coxinha, do caviar e do pão com ovo

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Para entender o Brasil de hoje, os neologismos políticos e a tendência de rotular pensamentos e comportamentos, fui pesquisar o significado de “direita coxinha”, “esquerda caviar” e “pão com ovo”, além de outras denominações. Achei por bem consultar os universitários, como dizia um apresentador de TV, e indaguei minha filha Isabela, aluna da USP, o melhor lugar para se pesquisar e criar teorias, mas fértil também nos neologismos e modismos. Cheguei a uma breve taxonomia do coxinha, do caviar e do pão com ovo. Taxonomia, segundo o “Houaiss”, é “ciência que lida com a descrição, identificação e classificação dos organismos”, e no caso, serve também para classificar produtos alimentícios animais. Esquerda caviar é (claro) expressão francesa dos anos 1980, e se refere aos “socialistas” que desfrutam dos melhores vinhos e iguarias finas nos bistrôs e cafés parisienses.

O conceito histórico de esquerda e direita surgiu na assembleia francesa pré-revolução: os nobres e a alta aristocracia partidários do império de Napoleão sentavam-se à direita, para evitar atritos com a ala contrária, progressista e republicana – tal qual nos estádios de futebol hoje se aglomeram torcidas em lados diferentes, para evitar tumultos. Monarquia-república quase 230 anos atrás, Corinthians-Palmeiras hoje.

A definição moderna do termo esquerda consolidou-se com o socialismo “real”. Friedrich Engels (1820-1895), foi historiador e filósofo marxista e depois um de seus maiores influenciadores. Lênin escreveu um marco sobre o assunto, “Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo”, pintando a esquerda com ingenuidade “sonhática” – a do sonhador pragmático, outro neologismo recente -, de mãos dadas com a burguesia (o que é isso, companheiro?). Segundo Lênin, os esquerdistas eram obstáculo ao progresso do socialismo e do comunismo – este último, versão do primeiro implantada pela força. Grande maioria dos que hoje se dizem de esquerda por modismo ficariam arrepiados ao ouvirem isso. A II Internacional Socialista (1889) isolou os esquerdistas, diagnosticando-os com a “doença infantil” do comunismo. Enxergavam o chamado “sarampo” nos social-democratas, trabalhistas e liberais. A III Internacional (1919/1943), chamada Comunista (Komintern), definiu quem é quem no movimento. Curiosamente, a social-democracia, que já andou de braços com socialistas no passado, é expressão que faz a nova esquerda brasileira ter arrepios, jogando-a na vala comum da “direita coxinha”, essa disputa entre quitutes de frangos e ovas de peixes (no caso, os esturjões do caviar), classificação político-estruturalista-culinária. Essa “direita coxinha” refere-se aos que não comungam a integridade dos mandamentos, nunca escritos, da nova esquerda. “Tutto sociale-democrazia”, diriam os anarquistas do passado, jogando a nova esquerda e os coxinhas em um mesmo saco (o que é isso, companheiro?). Já o “esquerdopata” teria o perfil utópico de certos filósofos e acadêmicos. O “direita coxinha” é conservador e tem imagem e hábitos burgueses, enquanto a “direita pão com ovo” fica com as migalhas da parca distribuição de riqueza e recente acesso aos bens de consumo, mas nunca vai concretizar seus sonhos de ser milionária ou grande empresária capitalista.

O Brasil seguiu a reboque das tendências da III Internacional e acompanhou o “racha” do XX Congresso do Partido Comunista da URSS. Aqui, partidos socialistas e comunistas dividiram-se, e cada parte subdividiu-se em tendências. Porém, com a redemocratização e a legalização dos partidos proscritos, o comunismo perdeu seu sentido histórico, o socialismo implantado pela ditadura do proletariado (classe operária), o fim do poder econômico, a implantação de um partido único e a propriedade coletiva dos meios de produção. Uma vez registrados na Justiça Eleitoral como partidos legais, disputam pelo voto cargos eletivos e até mesmo de confiança em governos à sua direita. Do comunismo ficou apenas o nome, venceu-o o interesse pelo poder de seus filiados e partidos, esquecidos os ideais de Marx e Lênin. O comunismo nunca ameaçou o Brasil, e isso a história e documentos liberados recentemente (aos milhares) pelos EUA revelam: ele foi um “fantasma” exportado para apavorar a família brasileira e suas Forças Armadas, um “Gasparzinho do mal” alimentado pelo exterior e mesmo daqui de dentro por meio de cooperações sociais e estudantis (como a Aliança para o Progresso e o MEC-Usaid). Nos anos pré-1964 houve forte presença de militares (gen. Vernon Walters, adido militar no Brasil, vice-presidente da CIA) e diplomatas americanos (Lincoln Gordon, embaixador, um dos articuladores do golpe). Buscava-se o controle da América Latina na guerra fria contra a URSS.

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Por fim, a criatividade política brasileira abre caminho para desdobrar-se até em novas culinárias. Não preciso dizer que não compartilho desses rótulos e acho infantis e ridículas as interpretações depreciativas de esquerda e direita de que se servem à mesa: “caviar”, “coxinha” e “pão com ovo”. Não fosse a enorme diferença de preço entre as mercadorias, seria o meio termo político uma mistura dessas iguarias? Afinal, em um país onde se come pizza de frango com Catupiry até em bons restaurantes (“perdono, vecchia Italia”), poderia haver até coxinha com caviar e ovo. Um “pot-pourri”, “ola odrida”, “gulash” (misturada de panela)! O grande Jackson do Pandeiro já cantava: “… chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”.


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