Não há um porto feliz a se salvar do coronavírus

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Não vamos começar com o erro – só não mais infeliz que irresponsável – de sair receitando remédios sem ser médico, tampouco de assumir função que não nos cabe, emitindo opinião como se fosse anúncio de fatos reais, sem qualquer lastro científico ou comprovações.

Portanto, as observações a seguir não buscam indicar o uso – ou “não uso” – de quaisquer “kits anticovid” que se possa encontrar por aí, seja no mundo real ou no forrobodó negacionista virtual.

O cuidado em reforçar a não ingerência em questões médicas, naturalmente, é por puro bom senso, consciência profissional e, sobretudo, respeito à vida alheia.

Afinal, se ninguém tem absoluta certeza de algo, não cabe a insensatez e a molecagem de prescrever tratamentos experimentais como se fossem imunizações “definitivas”, tal como minimizar a gravidade do novo coronavírus.

Para uns – sortudos -, pode mesmo ser uma gripezinha, mas, para outros – dramaticamente -, não o é, significando até a morte. Portanto, a falta de cautela, zelo e boa carrada de humildade pode, em última instância, acabar matando muita gente antes do tempo.

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Por outro aspecto, bom senso – em exemplo completamente hipotético -, seria o seguinte: o Brasil entra em guerra com a Argentina, prevendo a morte de muitos, e o que faz o governo? Chama lá um experiente general para organizar nossas Forças Armadas, para nos defender? Não!

De maneira completamente inacreditável, por alguma razão – tão próxima ao bom senso quanto Osama Bin Laden de Nelson Mandela, Roger Abdelmassih de Madre Tereza de Calcutá ou Darth Vader de Bob Esponja -, o governo decide colocar à frente do combate (e rufem os tambores!) o doutor Drauzio Varella…

Muitos pensariam: “O sujeito é muito bom, correto, especialista na área dele, mas… não é militar… O que ele entende de guerra – salvo estar sendo posto na condição de bucha de canhão?”.

E os questionadores incrédulos teriam “razão”, algo em falta na decisão de se manter há mais de dois meses, em plena pandemia, a liderança nacional da Saúde distante de algum profissional da área médica.

Para não escapar ao bom senso – virtude tão ausente no momento quanto fundamental em qualquer época -, vamos lembrar que atuamos no jornalismo – não na ciência ou na caserna – e seguir com observações sobre a Covid-19 em nossa região, porém, a partir de fatos.

Assim, vale tomar a cidade de Porto Feliz como um caso em relevo na Região Metropolitana de Sorocaba, da qual Tatuí faz parte.

Lá, desde 28 de março, data do surgimento do primeiro caso confirmado, a Secretaria de Saúde local estabeleceu um “kit Covid-19” com os medicamentos hidroxicloroquina, azitromicina, celecoxibe 200 mg e metroclopramida.

Além da profilaxia, o município foi um dos primeiros a enrijecer o isolamento social. Desde 25 de junho, um decreto municipal proibiu o consumo de bebidas alcoólicas em espaços públicos e também limitou o período de serviços de drive-thru, após as 18h, nos dias de semana e aos sábados, e após as 12h, aos domingos.

Muito bem. Porto Feliz tem cerca de 60 mil habitantes e, conforme dados oficiais apresentados pela prefeitura nesta terça-feira, 14, somava 391 casos confirmados da doença, o que representa contaminação de 0,65% da população. Com dez óbitos, o índice de letalidade atingia 2,6%.

Na mesma terça-feira, por sua vez, o governo do estado divulgou as cidades com as taxas menos ruins de letalidade por Covid-19 em São Paulo (para não marcar “boas”, porque não tem nada de bom nesta pandemia).

Em coletiva de imprensa, o secretário estadual Marco Vinholi anunciou os dez municípios com a menor letalidade considerando-se os com população superior a cem mil habitantes – entre os quais, não se encontra Porto Feliz.

Eles envolviam: Araraquara (1,17%), Taubaté (1,89%), Bauru (2,06%), Botucatu (2,14%), São Carlos (2,37%), Presidente Prudente (2.39%), Bragança Paulista (2,57%), São José dos Campos (2.73%), Araçatuba (2,9%) e São José do Rio Preto (2,94%).

Segundo o secretário, dois fatores principais explicam os bons resultados desses municípios: “Primeiro, a qualidade no tratamento de saúde; em seguida, a política de testagem para o vírus, que é fundamental para seguir avançando em todo o  estado junto com nosso programa de rastreamento, anunciado na última semana, que possibilitará melhoras na evolução da pandemia”.

Em comparação “fria”, matemática – ciência exata que escapa aos delírios político-ideológicos -, é possível notar que, a despeito das iniciativas mais incomuns, não há diferença gritante contra ou a favor de qualquer município.

A conclusão é que, mesmo em meio a localidades maiores – que têm mais dificuldade para enfrentar a pandemia, obviamente -, a ora famosa cidade da nossa RMS não estaria “destacada”, em primeiro lugar, no bom combate ao coronavírus, mesmo com o tal “kit”.

Isso só comprova que a cautela, o bom senso e a responsabilidade – todos a indicar o isolamento social – ainda são as armas menos ruins nesta guerra – até porque, lamentavelmente, não há um porto feliz para se salvar do novo coronavírus.

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