Mulher!

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Henrique Autran Dourado

“Quando vem a madrugada ele some / ele é quem quer / ele é o homem / eu sou apenas uma mulher”. Nesta lindíssima canção, “Esse Cara” (1973), Caetano retrata a mulher submissa, mero objeto do homem que faz na vida o que quer, enquanto ela apenas o aguarda (link no final do texto). Caetano se coloca exatamente no lugar dela, ao cantar, apesar de a irmã Bethânia também ter gravado uma linda versão. Essa transmutação de um homem cantando os sofreres de uma mulher não é incomum, Chico Buarque a fez duas ou três vezes, a exemplo de “Com Açúcar, com Afeto” (“fiz seu doce predileto / pra você parar em casa”), É a autocrítica do homem à sua culpa pela condição da mulher desses tempos, ela que aceitava com resignação os caprichos e desígnios do companheiro.

Sendo homens a grande maioria dos compositores e as mulheres os modelos para suas criações, claro que no passado prevalecia o ponto de vista masculino, o lado mais forte, o que conta a história. Para o cabra-macho Virgulino Ferreira, o Lampião, sua companheira de cangaço tinha de ser submissa, como bem cantou Volta Seca, homem do grupo do Rei do Cangaço, em gravação de 1957, 19 anos depois da morte da amante do chefe: “Acorda, Maria Bonita / levanta, vem fazer café / que o dia já vem raiando / e a polícia já está em pé”. Em jornada dupla, ela participava do cangaço e preparava a boia e o café, arrumava a tenda, limpava e areava as panelas de fundos encarvoados pela lenha das refeições. E ainda namorava.

Assim como em Caetano e Volta Seca, o aguçado espírito crítico de “Cotidiano”, de Chico Buarque, mostra o homem cantando o dia a dia da mulher que o acompanha, labuta na casa e vai esperá-lo pontualmente na entrada quando ele chega: “Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã”. No retorno do trabalho, 12 horas depois, segue a rotina: “Seis da tarde, como era de se esperar / ela pega e me espera no portão”. Se na partida o beijo da mulher tinha o gosto da hortelã da pasta de dentes, na volta da labuta o sabor que o recebia era o da paixão.  Genial é a “Feijoada Completa”, também do Chico, uma receita que desce aos detalhes, um roteiro para a companheira fazer o agrado aos compadrios do homem: “Mulher / você vai gostar / tô levando uns amigos pra ‘cunversar’”. Como o dinheiro anda curto, ele diz para botar água no feijão, mas pede cerveja, que não pode faltar, “prum” batalhão. “Bota a mesa no chão que o chão tá posto / e prepare a linguiça pro tira-gosto”, tarefas a que ela deve se dedicar com especial deferência.

Em 1974, participei da temporada de “Mais Quero Asno que me Carregue que Cavalo que me Derrube”, auto do português Gil Vicente (1456-1536) extraído da “Farsa de Inês Pereira” e adaptado aos tempos modernos por Carlos Alberto Soffredini. Estrelava a atriz Tereza Rachel, que cantava um fado com direito a sotaque lusitano e vestida a caráter. Eu e o violonista Gaetano Galifi a acompanhávamos: “Pois se espelhe aqui comigo / eu que não tenho marido / e sou por aí falada como desavergonhada”. Era um sofrimento a mulher estar solteira, e um desterro viver separada. Cantando, ela dá um conselho: “Mulher tem que ter um homem / que lhe abrace e lhe dê nome / sem homem mulher é nada / e acaba desesperada”.

Desde o fado do auto do Gil Vicente, de 500 anos atrás, passando pela “Maria Bonita” do cangaceiro Volta Seca, e por Caetano e Chico do século 20, a música tem sido uma boa maneira para redesenharmos o caminho trilhado pela mulher rumo à tão cobiçada emancipação. Da Santa Jeanne D’arc à inglesa Mary Shelley e a francesa George Sand, ambas do século 18, chegando à contemporânea Simone de Beauvoir, a também inglesa Virginia Wolf (virada do século 20), a mexicana Frida Kahlo e dela até as americanas Gloria Steinem, Betty Friedan e Oprah Winfrey, sim, mulher, como tem sido longa e dolorida a sua luta!

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Havia um anúncio de cigarro em revistas americanas em que uma linda mulher, sempre muito bem vestida, aparecia em primeiro plano em pose elegante, fumando um daqueles “slims”. No fundo, em preto e branco ou sépia, uma cena mostrava o passado: mulher enchendo uma carroça com feno ou alguma ilustração que mostrasse a submissão de que ela teria, enfim, se libertado. Sempre trocando a modelo que ilustrava o anúncio, o título da série era “You’ve come a long way, baby”, algo como “Sua estrada vem de longe, garota”. Essa propaganda da Philip Morris para o Virginia Slims, voltada ao público feminino, teve início em 1968, fazia a propaganda do vício e tinha a luta feminina como oportuna estratégia de marketing,

A todas as mulheres, aplaudimos a celebração deste seu dia, por terem feito tanto pelo mundo, e rumo à posse do merecido espaço de justa igualdade, embora ainda longe de ser conquistada. Em um 8 de março, em 1884, Susan Anthony propôs à Câmara dos Representantes dos EUA uma emenda que garantisse às mulheres o direito ao voto. Simbolicamente, a data serviu para uma conquista de Clara Zetkin, militante feminista alemã, durante a Conferência Internacional das Mulheres Socialistas de NY de 1910. Em 8 de março de 1910, a francesa Raymonde de Laroche foi a primeira mulher a receber um brevê de piloto de avião, e na mesma data, em 1911, eclodiu o primeiro movimento pelo voto feminino.  Não é uma data qualquer, ela é símbolo de sofrimentos, lutas, histórias e significados. O dia de março continua a ser dedicado a elas em grande parte dos países do mundo. You’ve come a long way, baby.

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