JONAS DA SILVA TELES

442
Publicidade





O homem que deu a Tatuí a Casa dos Presentes

Bem, meus amigos, cá estou eu novamente, agora falando de mais um amigo, um grande amigo que todos nós perdemos no dia 11 de janeiro, o senhor Jonas da Casa dos Presentes, como era conhecido. Sempre risonho atrás da sua mesa, tinha um tino comercial invejável, foi um grande professor para quem trabalhava com ele. Ou seja, você tinha que aprender e, no dia a dia, ia crescendo e aprendendo a arte do vender. Isso porque exige a arte, o dom, o carisma, a boa vontade, o saber atender, o não ter preguiça de mostrar, mostrar, ir na prateleira, subir na escada e mostrar mais um modelo, com um pequeno detalhe, e era isso que fazia a diferença, e como faz!

Como já foi noticiado, ele iniciou a sua vida comercial em 15 de novembro de l947! Bem, mas eu nasci em 16 de novembro de 1952, e me lembro que a Casa dos Presentes era a maior, a mais sortida, onde vendia-se de tudo, desde roupas, televisão, bicicletas, rádios portáteis, e foi nela que meus pais Maria Aparecida e Diógenes compraram o meu primeiro rádio de pilhas , um Philco Junior (que tenho até hoje na estante) no Natal de 1962. E nele eu coloquei uma pequena cinta que vinha para aumentar a alça e usá-lo a tiracolo (precursor dos “walk men”), e me lembrei que era só uma faixa de onda e só “pegava” AM, a ZYL-5 Rádio Difusora de Tatuí, com as vozes ternura, voz paixão dos irmãos Walter e Oscar Motta, e as músicas natalinas na harpa do Luiz Bordon.

E, com o rádio ligado, haja sola de sapato para dar voltas na Praça da Matriz! As mulheres pelo centro e os homens no sentido contrário, enquanto os olhares se cruzavam naquelas incontáveis voltas !

Publicidade

E a Casa dos Presentes era a “Rainha da Praça”, com seu luminoso em azul, suas inúmeras vitrines e seus incontáveis espelhos, onde todos, homens e mulheres, “davam” uma passadinha e uma olhadinha para acertar a franja, o topete , o “pega-rapaz”. E o pente Flamengo não podia faltar nos bolsos traseiros dos rapazes, para acertar a brilhantina; o Gumex, a loção Brilhante e o Trim, a “olhadinha” era sagrada.

Bem, na esquina da Praça da Matriz com a rua Prudente de Moraes, ficava o setor de venda de discos, e ali, quando surgiu a Jovem Guarda e os Beatles, eu passava todos os dias para ver e ouvir os últimos lançamentos, e onde o rei Roberto Carlos tinha todo o tempo que quisesse, e a nossa querida e inesquecível Bartira Paes da Rosa colocava, com o maior prazer e dava, uma “aumentadinha” no volume da sonata. Os outros estilos musicais, todos os lançamentos em LPs com 12 músicas, ou compactos simples com duas músicas, ou duplos com quatro músicas, tudo em vinil, passava pelas mãos e bom gosto da Bartira. Que saudades!

Ah! Em 1967, com 15 anos de idade, meus pais me deram uma bicicleta Göricke verde esmeralda, e, após 30 anos, eu pintei de preta e a tenho até hoje, superconservada, e também comprada na Casa dos Presentes!

Para facilitar a chamada aos funcionários na loja, já que eram muitos, o senhor Jonas instalou um sistema de som e, pelo microfone e o nome que mais se ouvia durante todo o dia, era: “Domingas, venha aqui! Domingas, favor comparecer no setor de roupas”!

Ela era a funcionária Domingas Caresia, que aposentou lá e que teria milhares de histórias para contar! Quando eu fui estudar no colegial, tendo em vista a grande influência da música na minha vida, como Beatles, Renato e seus Blue Caps, Elvis e todos os demais, me esquecia de estudar e, assim, acabei “perdendo um ano”.

Meus pais, pra não me verem desde cedo até a noite ao lado da vitrola Philips ouvindo músicas e músicas, conversaram com o Jonas e me colocaram para trabalhar no setor de venda de roupas masculinas e calçados, naquele final de ano. Porém, eu já havia trabalhado um mês com o senhor Júlio Rodrigues de Lima, pai da Jussara, que era o proprietário da Casa 7, no Largo do Mercado.

E assim foi que naquela véspera do Natal no Clube Recreativo (hoje Casas Pernambucanas), todos tinham o costume de ir festejar essa data em um “Baile Branco”, ao lado da Casa dos Presentes. E eu ali, vendendo, abrindo e fechando caixas, subindo e descendo escadas, tentando agradar os fregueses, e modéstia à parte, senti que eu tinha jeito para a coisa.

O senhor Jonas, um dia, conversando comigo, me convidou para mostrar o seu Mercedes preto, um dos primeiros importados da cidade. E a grande surpresa era o rádio Blaupunkt, que vinha no carro, pois, naquele tempo, os carros nacionais não possuíam tal equipamento.

Saímos na estrada, e o senhor Jonas me levou até a ponte do rio Sarapuí, ouvindo a Eldorado FM, com o famoso programa “Um Piano ao Cair da Tarde”. Confesso que foi inesquecível, aquele carro, com aquele conforto, e o som estéreo, pois foi a primeira vez que eu andei naquele carro. Depois desse episódio, nasceu entre nós uma grande amizade, muitos sorrisos, muitas boas conversas, sempre palavras de otimismo e amor à vida!

Durante a minha passagem pela Câmara Municipal, me lembro que outorguei-lhe, com o aval daquela Casa de Leis, o título de cidadão benemérito de Tatuí, tendo em vista a sua vida dedicada ao comércio de nossa cidade.

Como ele não gostava de muita badalação, no dia da entrega, apesar de ter sido avisado, não compareceu. Porém, demos um jeitinho e levamos em mãos para ele, que ficou tão contente com aquela surpresa que mandou fotografar aquele momento e, em seguida, mandou pintar um quadro com a mesma imagem da fotografia da hora da entrega. E lá ficamos expostos na parede, ao lado de sua mesa, e o que se orgulhava de mostrar: Jonas, Fábio Menezes e Voss!

Daí para frente, todas as vezes que eu passava pela sua loja, dava uma “entradinha” para cumprimentá-lo e comentar sobre o Corinthians, time para o qual ele torcia e eu continuo torcendo.

Porém, sabemos que o tempo é o senhor da nossa vida e, ultimamente, ele já não ficava mais na loja. Me lembrei que, na noite do dia 8 de dezembro do ano passado, Dia da Padroeira de Tatuí, na procissão noturna, ao passar defronte ao seu apartamento, vi alguém na janela, mas não era ele. Até a sua funcionária confirmou isso.

Passados apenas três dias desse episódio, ele faleceu, e só fui saber dessa triste notícia na missa da noite, pois foi num domingo, e fiquei muito triste.

No dia seguinte à noite, fui com a minha esposa Fátima a uma farmácia do centro e, quando ao passar defronte aos seus inúmeros prédios, me bateu uma saudade de tudo o que eu passei na minha infância , juventude, naquela praça, e, em segundos, eu voltei no tempo. Pensei quantas famílias de funcionários de Tatuí, ou não, viveram graças aos salários pagos pelo senhor Jonas! Quantos presentes! Quantas alegrias! Quantas surpresas! Quantos discos! Quantos milhares de olhares nos seus espelhos! Quantas portas para se entrar na Casa dos Presentes!

E ali, quando se entrava, vivíamos um mundo de sonhos! Natais! Casamentos! Aniversários! Alegrias! Que professor ele foi, pois muitos funcionários, quando se aposentavam, ainda continuavam trabalhando, ou, então, abriam seus próprios comércios graças aos ensinamentos passados por ele.

Naquela noite, já passavam das 23 horas, o silêncio da Praça da Matriz, as árvores caladas, o coreto, os bancos mudos. E foi incrível, não havia ninguém, e caiu uma chuva bem fina, e eu senti que até a praça chorou pela morte do senhor Jonas! Foram 90 anos de lutas incansáveis ao lado do seu irmão, Mário, para manterem em seus tempos o comércio com as portas abertas para Tatuí! Passaram-se crises, mas, como a Águia da Fênix, renascia das cinzas e voava ainda mais alto e adiante! Fazia aquilo porque gostava, e era feliz porque gostava do que fazia! E, por tudo o que ele fez pela vida comercial de Tatuí, acredito que a Prefeitura Municipal e a Associação Comercial de Tatuí poderiam instituir alguma premiação ou denominar alguma obra que perpetue, para a eternidade, o nome de “Jonas da Silva Teles” nesta terra que ele tanto amou e onde tanto investiu. Muito obrigado ao senhor Jonas e a todos os funcionários que trabalharam na Casa dos Presentes durante todo o tempo! E, agora, descanse em paz!


Publicidade