Geopolítica de Tatuí­, traçada de norte a sul

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Começando o entrecorte, um violoncelo marca a entrada da Capital da Música. Saímos da Pompeo Reali (vice-prefeito), rua que mais embaixo, na rotatória, abraça a (também vice-prefeito) Nelson Fiuza, dois políticos do passado. Lá pelo meio da Fiuza, o residencial Villa Monte Verde, de uma vista da cidade que é uma pérola de fotografia. Ali tem a Cantina do Júlio, que serve uma grande variedade de pratos, com destaque para o tomate empanado com carne de porco, um belo hambúrguer de costela e o filé à parmigiana (com grafia correta!). A TV serve o couvert político, que é temperado com a crítica apaixonada dos frequentadores.

Descendo a Nelson Fiuza, seguindo o eixo central, à direita fica a concha acústica Spartaco Rossi. Daquele lado, mais para dentro, o lindo Museu “Paulo Setúbal”, nome do escritor que é orgulho de Tatuí, pai do ex-prefeito de São Paulo, o velho Olavo. Do outro lado da Concha, a Padaria Rosa tem conversa até no degrau, e até mesmo na esquina da rua que vai dar perto da Fábrica São Martinho; este, um belíssimo prédio de 1881 (em cuja torre há um relógio que lembra o Big-Ben londrino), velhos tempos em que a indústria têxtil de Tatuí ficou conhecida como a terra do “ouro branco”, o tecido. Subindo à esquerda, a Praça da Matriz com sua Igreja e o novo palco de shows e concertos. Do outro lado, o Hotel Del Fiol (com a estátua do músico que lhe deu nome, com seu violoncelo), antes bar e restaurante, sobre cujas mesas o professor Coelho se debruçou, ao lado de técnicos, para elaborar a planta do Teatro “Procópio Ferreira”, de 1971 (que consagrou Tatuí como o local definitivo para o Conservatório, a despeito da cobiça, do olho gordo e da dor de cotovelo de alguns, especialmente da capital). Voltamos à praça, cujos bancos de concreto abrigam o “Senadinho”, onde a conversa política é salutar, é exercício de cidadania. Do outro lado, também casa de conversa política, o Café Canção, onde sem querer você pode encontrar o ministro Celso de Mello, natural da cidade, ou a poetisa Cristina Siqueira, que ora divide seu tempo entre o Café e Trancoso (se é que é possível).

Agora é preciso descer a rua 15 e voltar, para não perdermos a nossa trilha, o caminho desse traçado norte-sul que desenhamos no início. Chegamos à rua do Cruzeiro, paralela à São Bento, para passarmos pelo Posto 400, também às vezes reduto de conversas políticas ou fiadas no fundo, e chegamos à nova pastelaria do conselheiro Tambelli (tem pastel de carne com banana que é um almoço, entre outros). Mas retomemos o caminho, voltando do cruzamento da rua 15 com a Cruzeiro, até chegar à rua São Bento, onde de um lado fica a rodoviária, ao centro a estátua do maestro e à direita o Conservatório Dramático e Musical, o maior do país, com seu Teatro “Procópio Ferreira”: mais de 200 apresentações anuais só no grande auditório. Seguindo em frente, passamos pelo Paulinho, onde se conversa e se come com boa qualidade, e depois o Paladar, restaurante dos professores de música que trabalham na Unidade 2, que fica ali, logo ali na esquina, na avenida das Mangueiras, um prédio onde antes funcionava o foro da comarca. O imóvel acomoda hoje, em seus mais de 2.200 construídos, cursos teóricos e de música antiga e canto, além de um salão que, agora reformado, transformou-se em mais um espaço para recitais em Tatuí. Nessa mesma rua, a Prefeitura e a Câmara, centros de tudo o que acontece pela cidade, do palco das decisões ao palco das discussões e propostas de interesses dos cidadãos. É o lugar da política formal, de dois dos três poderes, bem vizinhos. Mas é preciso retornar à rotatória, sem fugir ao rumo traçado e nem tão bem cumprido, confesso, pois aqui e ali nos desviamos, sem querer (e talvez querendo, como diria velho personagem).

Na Salles Gomes, muitas lojas, e à esquerda o conhecido Bar da Lena, nome da senhora simpática que serve das pessoas mais simples aos políticos e articuladores, fora os empresários – ali existe a perfeita comunhão social com simplicidade, e mesmo o espaço sendo pequeno há lugar para muita discussão, especialmente nos anos eleitorais, quando a temperatura lá dentro e lá fora costuma subir por igual. Antes de cruzar a linha da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, se calhar de estar passando lentamente um comboio de 60 vagões, pode-se simplesmente ler um caderno de jornal inteiro, mas há a opção do atalho que levará à rodovia, agora totalmente repavimentada. Na estrada, do lado direito, plantações de cana e sítios quase invisíveis, até se aproximar o muro alto do Residencial Colina das Estrelas, à esquerda. Mais um pouco e ali entramos, seguindo a rua principal, que divide o condomínio: a parte do lado direito é chamada “Morumbi”, e a do lado esquerdo é a “Rocinha” (ironia de moradores, brincadeira de amigos). Um campo de futebol oficial, quadras de tênis e piscinas e a Cantina do Abud, que serve boas pizzas, feijoadas e aperitivos. Nos finais de semana, promotores, empresários, médicos e aposentados ocupam o restaurante, depois do jogo de tênis, para bebericar e beliscar petiscos, até que a patroa ligue porque é hora do almoço. Saímos do Colina e, seguindo à esquerda, chegamos ao Residencial São Marcos, também com amplas casas, mas já no limite de nossa jornada norte-sul. A partir dali, a estrada vai desembocar em Iperó, e é hora de parar e retornar. O passeio foi bom, tudo bem, mas é preciso voltar, urgente: há muita coisa para se ver e comemorar, porque hoje é domingo, aniversário de Tatuí!

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