Futuro sem graça

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Reportagem publicada no jornal “Folha de S. Paulo”, domingo passado, mostrou que alguns dos cursinhos mais “tradicionais” da capital paulista (entenda-se para “poucos”, que podem pagar) estão abolindo as piadas em sala de aula.

Por ora, mais essa manifestação opressora do politicamente correto atinge formalmente os professores, embora já esteja presente entre os jovens, instigados a demonizar as brincadeiras entre eles mesmos, rotuladas como o malfadado “bullying”.

Tudo é “bullying”! Se alguém critica um colega, “bullying”; se nota que o companheiro tem alguma “diferença” passível de comentário jocoso, “bullying”, com agravante de discriminação; se pratica uma safadeza com o coleguinha, “bullying”…

Não obstante, o problema costuma se acomodar nos excessos, nos extremos – sem importância quanto ao lado. Numa realidade em que todos só se dão ao trabalho de infernizar a vida alheia, certamente haverá conflito, até morte em última instância.

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No outro extremo, contudo, num mundo onde ninguém pode brincar com ninguém, sem dúvida, reinará o mau humor, a chatice, o desânimo. E isto em nome de quê? Do respeito às “diferenças”?

Desde quando brincar é desrespeitar? Desde que uma tendência política medíocre e oportunista enxergou nisso a possibilidade de posar de boazinha e, assim, tirar vantagem da eterna desatenção da maioria, que se deixa levar pelos discursos da moda, ainda que claramente vazios e tão somente retóricos.

Está se chegando ao cúmulo de proibir até apelidos nas escolas. Fosse o professor a fazê-lo, vá lá. Os mestres de hoje já não têm a mesma intimidade com seus pupilos que antigamente. Mas, ocorrer isso entre os próprios estudantes é exagero, muito exagero!

Além disso, corresponde a uma invasão da liberdade de expressão da criança e do jovem, os quais podem, sim – por que não?-, se expressarem por meio da piada, do “sarro”, da individualização dos colegas a partir das diferenças de cada um.

No caso das piadas, lembra Hélio Schwartsman, articulista e bacharel em filosofia, que elas sempre serviram como instrumento de ensino, posto que reforçam a memória tanto quanto mantêm desperta a atenção dos estudantes. Bem, não pode mais!

E outras tantas coisas antes banais, logo, certamente também serão estigmatizadas, abrindo mais caminho aos tentáculos do sectarismo e à consequente perda das liberdades individuais.

Correto, a nova investida do PC atinge salas de aula, lugares coletivos, públicos, portanto. Porém, é preciso lembrar que as escolas servem para educar as crianças e jovens para o futuro. Isto quer dizer, também, prepará-los para enfrentar os tais “desafios da vida”.

E, então, talvez o maior problema: lembrando outro lugar-comum, todos sabem que a “vida é cruel”. Sendo assim, ela não vai reservar a nossos queridos filhinhos a companhia por tempo indefinido de pudicos professores para lhes defender das cacetadas com as quais a vida costuma nos agraciar quase todos os dias.

Ou seja, ao ser “vítima de bullying” na escolinha (guardadas as devidas atenções quanto aos exageros), as crianças e jovens também estão sendo, efetivamente, educadas para o futuro. Caso contrário, o que esse maldito politicamente correto está fazendo é formar gerações de frouxos, de incapazes de se defender dos naturais desafios da vida – que não perdoa e não costuma ser boazinha. É isso que queremos para nossos filhos?

Por ora, diante da passividade dos pais, levados a crer que as proibições infinitas são pelo bem de todos – especialmente pelo das crianças -, os professores perdem cada vez mais autonomia e liberdade para ensinar de fato. E ainda mais, então, perdem nossos filhos.

Já estão perdendo. Basta observar que muitos dos próprios estudantes estão processando escolas e professores a pretexto de terem sofrido discriminação por conta de alguma piada, de alguma brincadeira…

Que mundo maldito e profundamente sem graça será esse do futuro, povoado por molengas reclamões, mal-humorados e covardes… Não estamos formando cidadãos, estamos nutrindo uma população de “vítimas”, mesmo sabendo-se que todos temos nossos problemas e diferenças, passíveis de piada, e, portanto, deveríamos era aprender a conviver (bem) com nossas imperfeições.

Pena que uma população crescente parece não se importar com o fato de que o maior e mais constrangedor motivo de piada é ser ignorante… E encerrando com as palavras de Schwartsman: “Se há algo tão ruim quanto uma pilhéria de gosto duvidoso, é perder a capacidade de rir das incongruências do mundo. A diferença é que, enquanto a primeira tende a ser resolvida com o silêncio que reservamos às piadas sem graça, a falta de humor priva a vida de seus sabores”.


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