Exposição propõe conversa entre imagem parada e em movimento

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Cristiano Mota

Gravuras reproduzem momentos de videoperformances

 

O vermelho e o sépia dão cor às imagens da exposição inédita aberta em Tatuí na noite de sexta-feira, 3. Mas é o preto que predomina no novo trabalho de Katia Salvany. Denominada de “Corpo Tinta Preta”, a mostra propõe uma conversa entre a imagem parada e a imagem em movimento e que pode ser vista no MHPS (Museu Histórico “Paulo Setúbal”) até o dia 2 de agosto.

Conhecida dos tatuianos, Katia expôs pela primeira vez em Tatuí na antiga sede da Amart (Associação dos Artistas Plásticos de Tatuí e Região). Na época, em 2010, trouxe para a cidade “Desenhos Extraordinários”. Cinco anos depois, ela volta a conversar com o público local, em gravuras que se completam, mas, ao mesmo tempo, não têm uma conexão em termos cronológicos.

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A mostra aberta em Tatuí é a primeira feita pela artista com trabalhos produzidos em Londres e no Brasil. “É uma coletânea. São várias gravuras dos últimos quatro anos realizadas, em grande parte, por conta do doutorado”, explicou a artista durante o processo de montagem, na manhã de quinta-feira, 2.

Katia concluiu doutorado em artes pela ECA (Escola de Comunicação e Artes), da USP (Universidade de São Paulo). Ela obteve título de PhD no chamado “doutorado sanduíche”, por conta de uma bolsa para pesquisa e finalização, realizando estudos na USP e no RCA (Royal College of Art), em Londres.

Na volta ao Brasil, ela vislumbrou a possibilidade de expor as gravuras – fruto de pesquisa. O MHPS tornou-se o primeiro espaço a abrigar os trabalhos. “É difícil ter um local para apresentar um conjunto de obras”, afirmou.

As gravuras se relacionam no conteúdo e apresentam diferentes visões e técnicas de produção. Grande parte dos trabalhos que compõem a exposição é composta por gravura. A mostra também inclui dois videoperformances.

“A ideia do projeto é realmente essa, a conversa da imagem fixa e da imagem em movimento”, descreveu a artista. Partindo desse conceito, Katia realizou “uma investigação artística”. O resultado é que parte dos trabalhos é composta por imagens capturadas dos vídeos. São quadros transformados em imagens fixas, transportados para matrizes e que compõem gravuras.

Mesmo com essa relação direta entre o visual em movimento e o fixo, a artista mencionou que não há uma ordem linear. “A ideia não é que os quadros sejam um ‘storyboard’ (roteiro) do que foi a videoperformance, porque não é”, disse.

Essa reflexão tem a ver com o tempo entre o fazer a gravura e o que o vídeo mostra. Dessa forma, Katia destacou que há mais elementos da “atmosfera condensada” do que a relação direta entre as imagens pode sugerir. “Seria um síntese da atmosfera que está acontecendo no vídeo”, afirmou.

Durante o processo de pesquisa, a artista decidiu utilizar o próprio corpo como ponto de partida para as reflexões. Por esse motivo é que todas as obras em exposição – capturadas a partir do vídeo e transformadas, ou não – são representações da artista. As gravuras mostram o entendimento dela sobre o corpo.

“Eu tinha essa condição de experimentar a imagem. O corpo que vira uma imagem e, nesse sentido, ele é uma figura plástica que pode ser composta de diversas formas. A figura tem esse caráter plástico de poder ser esticada, rebatida, replicada várias vezes. Coisas que não posso fazer no meu corpo físico”, citou.

As intervenções no corpo como imagem englobam trabalhos realizados entre 2014 e 2015 – período do doutorado. Elas compõem diversas séries, todas nominadas pela artista com base nos momentos de experimentação e na vida pessoal.

Os trabalhos também apresentam objetos utilizados nas cenas das videoperformances. São elementos que foram combinados com a figura da artista sem se fundirem e que receberam cores que vão do tom vibrante ao mais suave.

A artista fez uso da litografia para produzir as gravuras. A técnica envolve a criação de marcas (ou desenhos) sobre uma matriz com um lápis gorduroso. “Outro jeito que se pode fazer e que foi a pesquisa que fiz em Londres é trabalhar com a matriz de zinco jateado que ainda não achei no Brasil”, disse.

Na matriz jateada, o desenho é feito diretamente na placa, que é processada quimicamente com ácidos e gomas. O resultado vai para uma prensa offset (que utiliza cilindros) e dá vida às gravuras. A vantagem desse processo é o controle do tempo de exposição e o uso de fotografia para o trabalho em gravura.

O uso dessa técnica permitiu à artista a transposição de “frames” (quadros) do vídeo em gravura. Nesse estágio, Katia trabalhou os dois momentos: um que representou a ação captada no vídeo; o outro, o registro dela direto na placa.

“Esses dois instantes são misturados. Há a condensação de tempo numa mesma imagem (a desenhada ou a fotográfica)”, disse. Também estão incluídos os objetos utilizados no vídeo, como uma cadeira, uma tigela, também resíduos da performance captados em “um universo domesticado e não doméstico”.

O que não se pode ver, mas que está relacionado e é citado pela artista como pano de fundo, é o desenvolvimento da investigação. Nesse processo, Katia estabeleceu conexões com o universo do feminino. As figuras registradas fazem menção à potencia do criar, do gestar e do desejo, trazendo para o trabalho a questão do gênero, também incluído na pesquisa de doutorado.

“Tem essa questão no trabalho. A figura em negro vai andando e tem a ver com o corpo que está no estilo de Judith Butler (filósofa norte-americana) que coloca esse corpo como nem masculino, nem feminino e nem uma terceira coisa”, disse.

A questão do gênero está presente no trabalho não como ferramenta de discussão – do assunto que está em voga. Katia explicou que ele propõe a sobreposição das figuras masculina e feminina no contexto da interação erótica. “Isso é mais interessante. Eu tentei trazer isso para os trabalhos”, descreveu.

3 momentos

“Corpo Tinta Negra” poderá ser visto em três espaços, que representam três momentos. Na sala de exposições temporárias, são 19 trabalhos de gravura. Na sala de reuniões do museu, estão os demais trabalhos (sequências fotográficas).

Quem entra na sala do piso inferior tem a liberdade de correr as paredes em qualquer sentido. Portanto, as gravuras produzidas a partir do plano sequencial e não linear. “É possível andar e ler a imagem enquanto se está andando. E as pessoas podem estabelecer a conexão que desejarem, porque não há um começo, um meio e um fim, como se dá na videoperformance”, explicou.

Também no piso inferior, o público poderá apreciar as videoperformances. Apesar de ser o ponto de partida das gravuras, os vídeos não tem a condição de estabelecer conexão com os trabalhos. Daí, a opção de a artista se retratar de uma forma que não possa ser reconhecida por quem vê as gravuras.

Os trabalhos têm predominância do preto, mas presença do “vermelho sangue”, descrito por Katia também como “vermelho menstruação, ferida e paixão”. É exatamente a “quebra do preto” pela cor mais viva o contraponto das gravuras.

A presença marcante do preto também determinou o nome da exposição, batizada por conta de um trabalho da mãe de Katia. “Ela também é artista e escreveu uma poesia que falava sobre esse corpo em tinta negra. No momento que li, disse que esse seria o nome da minha próxima exposição”, contou.

A poesia foi produzida por conta da exposição de Katia no Centro de Preservação Cultural da USP “Casa de Dona Yayá”, em São Paulo. Ela integra o trabalho da artista estabelecendo, com isso, uma relação entre mãe e filha. Essa vinculação também deu origem a uma das 30 gravuras em exposição e emocionou a artista, no momento em que ela descrevia as nuances.

A exposição é considerada especial para a pesquisadora porque acontece no período em que ela chega aos 50 anos, como mãe, filha e como mãe da mãe dela. “Isso faz parte. É algo que vem com o amadurecimento. O tempo vai passando e vamos gerindo, tenho histórias de rompimento e de reaproximação”, falou.

As gravuras trazem a questão do gênero (no caso o feminino) exatamente no ponto em que elas estabelecem a relação entre a artista e a mãe e amigas. “Há muitas estórias envolvendo a mulherada nessa exposição”, comentou.

O público que for ao museu vai encontrar, além das figuras, parte do processo criativo da artista. Entre eles, alguns modelos de matrizes usados na produção. Também será exposta uma litoescultura (uma escultura feita em papel com gravuras). Katia chama a peça de gravura tridimensionalizada.

Por todos esses motivos, a exposição é considerada uma “gráfica expandida”. A ampliação envolve as investigações plásticas, o olhar para o gênero, a conversa entre as imagens e o uso de linguagem e as relações pessoais.

A abertura prevista para as 19h de sexta-feira, 3 (após o fechamento desta edição) contaria com apresentação de Cibele Sabioni e Natália Ferlin. “De novo aparece a figura da mulher, mas, agora, com outra linguagem, a do som”, concluiu.


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