Estelionatos e boa-fé

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Em reportagem recente, O Progresso demonstrou estar crescendo em Tatuí o número de ocorrências classificadas como “estelionato”. A designação é ampla e utilizada para vários tipos de golpes em que o criminoso se utiliza da boa-fé da vítima para obter vantagem ilícita, geralmente envolvendo dinheiro.

Oficialmente, a Secretaria de Segurança Pública do Estado não delimita os números de estelionatos nos municípios. Porém, o balanço informal feito pelo jornal a partir dos boletins de ocorrência da Delegacia Central indica que esse tipo de crime realmente está se tornando mais frequente.

Até aí, em momentos de crise, não há surpresa. O inusitado é a diversidade dos golpes, que têm inovado em seus enredos de ação. Em ocorrência recente, por exemplo, um homem de 28 anos recebeu uma mensagem por “WhatsApp” dando conta de uma vaga de emprego em empresa de construção civil.

O morador da vila Angélica usou um dos números de telefone indicados no anúncio e entrou em contato com um homem cujo nome seria “Vagner”. De acordo com o boletim de ocorrência, Vagner disse à vítima que havia a necessidade de ela depositar R$ 400 relativos a um curso preparatório.

Feito o depósito, em nome de “Abraão Henrique Silva”, o candidato foi informado, por Vagner, de que um veículo passaria na casa dele para levá-lo ao local do curso. Depois disso, o golpista bloqueou o número da vítima no aplicativo de mensagens.

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Na sequência, a vítima esteve na Delegacia Central para denunciar a fraude, quando informou que dois conhecidos haviam caído no mesmo golpe. “Todos nós acreditamos nessa possibilidade de conseguir um trabalho e acabamos quebrando a cara”, comentou a vítima a O Progresso.

Prejuízo semelhante teve um auxiliar de serviços gerais de 33 anos. Ele buscava comprar um automóvel pela internet, no portal “OLX”. A negociação também aconteceu pelo “WhatsApp”.

De acordo com a placa informada na elaboração do BO, ele iria comprar um Chevrolet Corsa Wind, ano 1998, com placas de Porto Alegre, por R$ 5.000.

A vítima afirma ter feito depósito de R$ 1.500. Contudo, o dono do carro pediu mais adiantamento, o que lhe foi recusado. Depois, o suposto vendedor desapareceu do aplicativo e não houve mais contato entre as partes.

Uma professora de 61 anos, moradora do centro, foi mais precavida e escapou do golpe. No fim de janeiro, ela recebeu carta de um suposto escritório de advocacia, apontando um ganho de causa na Justiça.

A professora teria direito a uma indenização de R$ 87.520, mas as custas processuais do escritório ficariam em R$ 7.556,40. Como de fato está envolvida em um processo judicial, a idosa chegou a acreditar nas informações.

Em contato telefônico com o escritório, ela foi informada de que deveria fazer o depósito do valor correspondente serviços advocatícios. Ela desconfiou e, com algumas pesquisas, confirmou a suspeita.

Esses casos recentes somam-se a dezenas de estelionatos em que os criminosos utilizam os “meios tradicionais”. Um dos mais comuns é aquele em que um falso familiar ou amigo simula problemas mecânicos no carro durante viagem e pede ajuda em dinheiro para pagar o guincho ou o conserto.

Em novembro, um advogado de 70 anos teve prejuízo de R$ 2.980, pagos a um criminoso que se identificara com o nome de um amigo da vítima e dito que estava com o carro quebrado na rodovia Castello Branco.

Outra modalidade de estelionato frequente é a ação de falsos funcionários de banco. Eles oferecem ajuda a usuários das agências e aproveitam-se das informações para sacar ou movimentar dinheiro das contas deles.

Em dezembro, uma aposentada de 62 anos teve prejuízo de R$ 2.620, depois que um falso bancário da Caixa teve acesso ao cartão de crédito dela. Golpes desse tipo também foram registrados no Banco do Brasil.

Nessa mesma época, O Progresso noticiou o caso de uma funcionária pública estadual que perdera todo o dinheiro da conta dela, no BB, depois de aceitar ajuda de um falso atendente.

Também envolvendo dados bancários, e geralmente tendo idosos entre as vítimas, outra modalidade de golpe consiste em telefonema para avisar sobre cartões supostamente clonados.

Primeiro, o falso atendente da operadora tranquiliza as vítimas, afirmando que as despesas indevidas serão canceladas e, para oferecer ainda mais comodidade, informa que um funcionário da operadora irá até a casa do usuário para recolher o cartão com problema.

Para tanto, “basta” que o usuário escreva uma carta informando dados pessoais e autorizando o bloqueio definitivo do cartão.

Dessa forma, em dezembro, uma aposentada do bairro Nova Tatuí entregou o cartão de crédito e a carta a um mototaxista supostamente a serviço da “Seguradora de Cartões de Crédito” do Banco Itaú.

Na mesma tarde, a idosa descobriu que o cartão havia sido utilizado para compras em vários estabelecimentos comerciais da cidade. Os valores envolvidos não foram divulgados.

O capitão Luiz Antônio da Silva, comandante da Polícia Militar de Tatuí, ressalta ser importante que as pessoas tenham cuidado quando aparecem facilidades.

“Normalmente, o estelionatário vai procurar apresentar facilidades que não são regra. Isso acontece muito na aquisição de bens, principalmente via internet”, observou.

O oficial acrescenta que o estelionato é facilitado pela “ganância” da vítima. Neste caso, o melhor exemplo é o falso prêmio. “Se a pessoa vai muito fundo na ânsia de ganhar e não mede as consequências, ela é facilmente enganada. Muitas vezes, a pessoa não tem motivo nenhum para estar ganhando aquele prêmio”.

Um fator de dificuldade para a atuação policial é que, geralmente, a pessoa percebe o golpe quando o crime já está consumado e não há meios de flagrante. “O importante é que, mesmo assim, a pessoa faça o registro desse golpe junto à polícia”, orienta o comandante.

Em razão do volume de golpes, o jornal realizou enquete com o tema, na semana passada, e o resultado foi surpreendente.

No total, 74% dos participantes da pesquisa virtual veiculada em “O Progresso Digital” (acessível em www.oprogressodetatui.com.br) responderam que “não” foram vítimas de estelionato.

Ou seja, isso implica na conclusão de que, grosso modo, ¼ (um quarto!) da população tatuiana já sofreu algum tipo de golpe. É muito!

Essa realidade é extremamente preocupante, tanto por indicar a possibilidade de uma quadrilha muito abrangente e criativa agindo na cidade, quanto por evidenciar o oportunismo criminoso a se beneficiar da boa-fé das pessoas.

É preciso, portanto, atenção especial sobre esse crime, tal como um tanto mais de “desconfiança” generalizada – infelizmente.

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