É verdade: ganhar voto com mentira complicou

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Observando um título desses, muitos podem nem ler ou concluir, erradamente, tratar-se de crítica a determinado grupo político. Mas, não – muito embora seja algo realmente por demais significativo o fato de que falar em “fake news”, imediatamente, já faz lembrar gabinetes do ódio, teorias da conspiração, negacionismo e milícias digitais.

A identificação pessoal com tais desgraças da atualidade, sem dúvida, levam à antipatia por observações a favor da verdade, dos fatos, do diálogo, da conciliação, da harmonia e, claro, da defesa da democracia. Assim, nada a estranhar quanto às reações dos sectários.

Falando aos adultos de bom senso, portanto, é muito produtiva a iniciativa do Supremo Tribunal Eleitoral de buscar combater as fake news em larga escala, com parcerias e campanhas – além do próprio aperto da Justiça sobre os crimes virtuais.

Nas eleições anteriores, a sensação de terra de ninguém na internet resultou em terra arrasada – pelo menos no campo da política propositiva.

Ou seja – sem julgamento de valor quanto aos vencedores -, a realidade é que se deu melhor quem ofendeu mais e menos se importou com a verdade dos fatos e as costumeiras “propostas”.

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Negar o óbvio e criar factoides imaginários pautou a regra, de tal azar que o país parece ter regredido décadas, como se transportado à guerra fria pós-Segunda Guerra, com o perigo vermelho debaixo da cama, pronto a destruir virtudes e propriedades da tradicional família brasileira…

Em que pese o fato de a imensa maioria das famílias já estar sofrendo com a crise econômica – perdendo as parcas propriedades – e de os valores morais em tese, não se sustentarem em ódio, conflito e desagregação, o discurso “fake” de defesa da “tradição, família e propriedade” (o mesmo que sustentou o golpe de 1964) pegou e rendeu vitórias país afora.

Não obstante, muito desse sucesso é devido às milícias digitais e suas campanhas de fake news, daí porque estas eleições podem significar grande avanço no processo eleitoral e na própria democracia, que precisam aprimorar-se para reagir melhor frente aos desafios impostos pela internet.

Importante lembrar que as fake news sempre existiram, tendo ocorrido mudança somente na ferramenta utilizada por ela – agora infinitamente mais rápida e abrangente. As reações têm de seguir na mesma velocidade – ou pelo menos tentar.

No pleito anterior, contudo, as fake news foram carregadas por lebres matreiras, enquanto a Justiça Eleitoral seguia – como se diz – a passo de tartaruga.

O resultado acabou sendo toda essa desenvoltura em espalhar bobagens e xingar à vontade, garantida pela sensação de que a Justiça – aquele cágado se arrastando lá atrás – jamais alcançaria a fuzarca difamatória.

Assim, muitos cruzaram a linha de chagada sob aplausos de uma massa de cidadãos (certamente) bem intencionados, embora ludibriados. Estas eleições, contudo, podem ser diferentes. E isto já é visível, dado o menor número de ataques e mentiras.

São várias as medidas de combate às fake news responsáveis pela mudança, entre as quais, campanhas publicitárias nos veículos “tradicionais”, parcerias com as principais corporações da mídia digital e enrijecimento da lei eleitoral.

Para dissabor das milícias digitais, estão entre as medidas do TSE a campanha “Se for fake news, não transmita”, figurada pelo biólogo Atila Iamarino, youtuber e divulgador científico que tem atuado contra notícias falsas durante a pandemia do novo coronavírus.

Na mensagem, Átila fala sobre como as fake news vêm se alastrando em proporções avassaladoras e lembra que tudo começa com um simples transmissor, uma única pessoa a passar para o grupo familiar, que repassa para a comunidade e, “rapidinho, diversas pessoas já estão contaminadas”.

“Parece até o espalhamento de um vírus, e, na verdade, esse fenômeno é uma espécie de vírus”, diz ele na mensagem, ao lembrar que, em um processo eleitoral, a divulgação de boatos e notícias falsas é letal para a democracia , pode acabar com a reputação de pessoas idôneas e, ao mesmo tempo, esconder a verdade sobre candidatos mal intencionados. “No final, todo mundo leva tempo para se curar dos efeitos”, ressalta.

“Tudo que você receber, verifique antes de repassar. Consulte fontes e agências de checagem. Quem espalha fake news prejudica outras pessoas, a si mesmo e pode estar cometendo um crime. Se for fake news, não transmita”, conclui o biólogo.

Também mirando o processo eleitoral deste ano, o TSE mantém, desde agosto de 2019, o Programa de Enfrentamento à Desinformação. A iniciativa conta com a parceria de 49 instituições – entre partidos políticos, entidades públicas e privadas, associações de imprensa, plataformas de mídias sociais, serviços de mensagens e agências de checagem – que se comprometeram a trabalhar com a Justiça Eleitoral para minimizar os efeitos negativos provocados pela desinformação.

A corte eleitoral ainda mantém uma página específica na internet com diversos conteúdos sobre o tema. No site “Desinformação” (http://www.justicaeleitoral.jus.br/desinformacao/), é possível encontrar esclarecimentos sobre informações falsas divulgadas durante as eleições de 2018, a urna eletrônica e o voto.

O cidadão também tem acesso a uma série de vídeos explicativos produzidos pelo Núcleo de Rádio e TV da Assessoria de Comunicação do Tribunal.

Já por meio do WhatsApp, o TSE conta com um “bot” (espécie de robô virtual) que oferece informações sobre horários e locais da votação, candidaturas em cada cidade e cuidados com a saúde antes de sair para votar. A ferramenta também destaca as checagens de fatos realizadas por parceiros da Justiça Eleitoral.

Em evento virtual para anunciar a parceria, a secretária-geral do TSE, Aline Osorio, afirmou que o tribunal seria o primeiro órgão eleitoral do mundo a contar com um bot do WhatsApp. Para interagir com ele, é preciso mandar uma mensagem para o número (61) 9637-1078 ou abrir o link wa.me/556196371078 no celular ou no WhatsApp Web.

O acordo ainda inclui uma página para eleitores denunciarem ao TSE contas de WhatsApp que aparentam ter feito disparo de mensagens em massa.

Segundo o órgão eleitoral, essa prática se refere a situações em que pessoas, empresas e bots enviam a mesma mensagem para muitas pessoas ao mesmo tempo. “O texto é impessoal, pode conter links e conteúdos suspeitos, alarmistas ou acusatórios”, define o tribunal.

Para completar, o TSE firmou acordo com Facebook e Instagram, envolvendo uma ferramenta para apresentar, no feed dos usuários, avisos sobre a eleição.

Batizada de “Megafone”, ela mostra alertas a respeito da organização do processo eleitoral e das medidas sanitárias adotadas por conta da pandemia de Covid-19.

O Instagram, por sua vez, ajuda a divulgar a campanha sobre a participação de mulheres na política. A rede social está ganhando, ainda, figurinhas sobre as eleições municipais — também disponíveis no WhatsApp.

Principalmente por essas medidas práticas do TSE, pode- se esperar que o medo da perda do anonimato – maior qualidade das milícias digitais – e de consequentes punições está impondo mais compostura e seriedade neste pleito. Ou, em visão figurada, está desacelerando as lebres, levando-as a sentir o fungar do quelônio togado em seus cangotes.

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