Democradura

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Mouzar Benedito é jornalista, geógrafo, escritor, folclorista e especialista em pinga (que andam chamando de cachaça, pra ficar mais chique e estimular a exportação).

Nascido em Nova Resende, Minas Gerais, é uma típica figura daquelas que, imediatamente, identificamos como “gente boa” – aliás, feito qualquer verdadeiro intelectual, até pela consciência de que ninguém sabe nada, inclusive, nós e eles mesmos.

Mais que isso, porém, Mouzar tem grande identificação com a região de Tatuí, tendo abordado, entre suas obras, a cultura regional, cenário do livro “O Tropeiro que não Era Aranha nem Caranguejo”, afora o fato de ser expert em saci, essa personagem tão fascinante do folclore interiorano, o qual, apesar de “afrodescendente, perneta e órfão”, não se faz de vítima e jamais perde o bom humor…

Nesta semana, Mouzar publicou artigo no blog na editora Boitempo em que avalia, com fatos e muita graça, a situação das democracias em geral e do Brasil em particular. Lamentavelmente, reconhece a perda de valor das liberdades individuais e do recrudescimento do autoritarismo.

Observa Mouzar: “Quase todas as vezes que alguém vai escrever sobre a democracia cita Winston Churchill, que disse: ‘A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos’”.

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“Acredito que muitos dos eleitores brasileiros (e seus líderes) querem mesmo é uma aparência de democracia, mas só aparência. Métodos ditatoriais, Estado policial, perda de liberdades e de direitos, perseguições por motivos ideológicos e religiosos, imposição de políticas baseadas em crenças religiosas, fanatismo, intransigência e muitas outras coisas nada democráticas estão no perfil de muitos eleitos e eleitores nas últimas eleições. Quem sabe podemos rotular o que querem de ‘democradura’?”

Na sequência, ressaltando que, “enquanto ainda é possível escrever essas coisas”, Mouzar enumera uma série de notórios pensamentos sobre democracia, os quais reproduzimos a seguir, tanto pela pertinência de momento quanto pelo prazer da leitura.

“Tem para quase todos gostos. É curioso ver que praticamente ninguém exalta a ditadura, mas são muitos os que criticam a democracia. Estranho, não?”, observa o escritor.

Vamos a elas:

Mário Sérgio Cortella: “Numa ditadura não daria para fazer uma passeata pela democracia. Na democracia você pode fazer uma passeata pedindo ditadura”.

Gerald Barry: “Democracia é o regime em que você diz o que quer e faz o que lhe mandam”.

Millôr Fernandes: “Todo homem tem o sagrado direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo”.

Millôr, de novo: “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim”.

Alberto Moravia: “A ditadura é um Estado em que todos temem alguém”.

K. Chesterton: “A democracia é o governo dos deseducados. E a aristocracia é o governo dos mal-educados”.

Barão de Itararé: “O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato”.

James Dale Davidson: “Democracia é aquela forma de governo em que todos têm o que a maioria merece”.

Adolph Hitler: “Que sorte para os ditadores que os homens não pensem”.

Antônio Lobo Antunes: “A cultura é uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo”.

Lilia Schwarcz: “Há um desejo de ver a ditadura como uma utopia que melhoraria a segurança, a economia, a estabilidade, tudo o que vai mal agora. O brasileiro tem essa mania, de projetar a responsabilidade por suas desgraças. E não há nada como se projetar em um governo militar. É distante, autoritário e recebe todas suas responsabilidades como cidadão. No Brasil, tudo é sempre culpa do outro”.

Robert de Flers: “Democracia é o nome que costumamos dar ao povo sempre que precisamos dele”.

Hubert Humphrey: “Numa democracia, o direito de ser ouvido não inclui automaticamente o direito de ser levado a sério”.

Clement Atlee: “A democracia é uma forma de governo que prevê a livre discussão, mas que só pode ser atingida se as pessoas pararem de falar”.

L. Mencken: “Sob a democracia, um partido devota suas principais energias à tentativa de provar que o outro partido é incompetente para governar – e ambos conseguem e ambos estão certos”.

Mencken, de novo: “A democracia é a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos”.

Laurence J. Peter: “Democracia é um processo pelo qual as pessoas são livres para escolher quem levará a culpa”.

Charles Bukowski: “A diferença entre uma democracia e uma ditadura consiste em que numa democracia se pode votar antes de obedecer ordens”.

Rui Barbosa: “A pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer”.

Silas Malafaia: “Liberdade de expressão para todo mundo dizer a mesma coisa é ditadura de opinião”.

Getúlio Vargas: “Nos períodos de exaltação e de luta não é raro vermos a democracia matando em nome da liberdade e a fé religiosa trucidando em nome de Deus”.

Churchill: “O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com um eleitor mediano”.

Ulysses Guimarães: “Na ditadura, à sombra de Marco Aurélio, pululam e ficam impunes os Calígulas sanguinários, os Torquemadas da Inquisição e da intolerância, os enxundiosos Faruks da corrupção”.

Aristóteles: “A democracia é um governo nas mãos de homens de baixa extração, sem posses e com empregos vulgares”.

Jorge Luis Borges: “A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria, e a maioria é formada de imbecis”.

Nelson Rodrigues: “A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas, que são a maioria da humanidade”.

Einstein: “O meu ideal político é a democracia, para que todo homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado”.

Fernando Sabino: “Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um”.

Granz Lebowtiz: “A democracia é uma ideia interessante e até louvável. Comparada ao comunismo, que é muito chato, e ao fascismo, que é muito excitante, não há dúvida de que se trata da forma mais palatável de governo”.

George Bernard Shaw: “O fato de um camponês poder tornar-se rei não torna este reino democrático”.

Oscar Wilde: “A democracia quer simplesmente dizer o desencanto do povo, pelo povo, para o povo”.

Johan Goethe: “A democracia não corre, mas chega segura ao objetivo”.

Wilson Aguiar (chefe da Censura Federal, durante a ditadura): “Quando tomei posse, assumi o compromisso de fazer da censura uma atividade artística e cultural”.

Heitor Moniz: “Se o Estado intervém ao lado do forte para esmagar o fraco, essa intervenção é reacionária e não pode merecer o apoio dos homens justos”.

Paula Nei: “A democracia seria ideal se não tivesse sovaco: tudo, tudo, menos tal cheiro de suor honrado”.

Jânio Quadros: “Quem afirma em conceito dogmático que a democracia é o governo das liberdades, está errado”.

Leoni Kaseff: “A democracia só deve ser governada por elites intelectuais que sejam, ao mesmo tempo, elites morais”.

Godofredo de Alencar: “Nada mais estúpido que a democracia. O povo pensa que lhe dão o direito de julgar quando o fazem apenas o derrubador de superiores”.

Mouzar Benedito: “No Brasil, democracia é o jeito de transformar em políticos normais os expoentes odiados da ditadura”.

Emiliano Zapata: “Se não há justiça para o povo, que não haja paz para o governo”.

Carlos Drummond de Andrade: “Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder”.

Conceição Evaristo: “Para dizer que temos democracia racial, a pessoa tem de ser alienada ou cínica”.

Mahatma Gandhi: “O único ditador que eu aceito é a voz silenciosa da minha consciência”.

Ambrose Bierce: “Ditador é o chefe de uma nação que prefere a peste do despotismo à praga da anarquia”.

Bertolt Brecht: “Não há nada mais parecido com um fascista do que um burguês assustado”.

Elói Felipe da Silva (acusado de ser do Esquadrão da Morte do Rio de Janeiro): “Eu não mato, quem mata é Deus: só faço os furos”.

General João Baptista Figueiredo: “Prefiro cheiro de cavalo ao cheiro de povo”.

Figueiredo, de novo: “A solução para as favelas é jogar uma bomba atômica”.

Costa e Silva (quando ainda era ministro da Guerra e queria substituir Castello Branco no governo): “Nunca seria um ditador, inclusive porque no Brasil não há lugar para ditadores”.

Juracy Magalhães (ministro das Relações Exteriores durante a ditadura): “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Georges Clemenceau: “A democracia: Vocês sabem o que é? O poder de os piolhos comerem os leões”.

Platão: “A democracia é uma constituição anárquica e variada, distribuidora de igualdades indiferentemente a iguais e desiguais”.

Curzio Malaparte: “A ditadura é a forma mais acabada do ciúme”.

Alexis de Tocqueville: “Creio que em qualquer época eu teria amado a liberdade; mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la”.

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