Consciência Negra é tema de ‘interferências’ no municí­pio

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David Bonis

Nesta quinta, há peça teatral na Praça da Matriz voltada ao Dia da Consciência Negra

 

Nesta semana, a Pastoral Afro-brasileira, em parceria com o CMICN (Conselho Municipal dos Interesses do Cidadão Negro), realiza diversas atividades ligadas ao dia da Consciência Negra, comemorado nesta quinta-feira, 20.

Na segunda-feira, 17, foi realizada palestra, às 20h, na igreja Santa Teresinha, pelo presidente do CMICN, professor José Mesquita, cujo tema foi a data festiva, instituída em 2003 para relembrar o dia da morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares, morto em 20 de novembro de 1695.

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Na terça, no mesmo local e horário (após o fechamento desta edição, 17h), teria sido realizada ação voltada às expressões da cultura negra.

Já na quinta-feira, haverá quatro ações. Às 9h, deve ocorrer o Concurso de Beleza Negra na escola “Accácio Vieira de Camargo”, na vila São Cristóvão. A ação é organizada por Mesquita.

Ele diz que convidou cerca de 40 alunos da instituição, com idade entre 6 e 13 anos, para participar. Um aluno e uma aluna serão eleitos “garoto e garota afro 2014”. O prêmio será um kit educacional – composto por cadernos, lápis e outros itens – e um almoço num restaurante.

Às 14h, haverá apresentação de peça de teatro sobre o Dia da Consciência Negra, na Praça da Matriz. Mais tarde, às 18h, a peça será encenada na igreja Santa Teresinha. O evento que fecha a programação será uma missa no mesmo local, às 20h.

Para Mesquita, eventos educativos e culturais do dia 20 de novembro servem, sobretudo, para “despertar consciência quanto ao preconceito que ainda existe em relação ao negro”.

“No interior de São Paulo, ainda vemos muita discriminação. E em Tatuí não é diferente. Não há médicos negros na cidade, dentistas negros, bancários negros. Por que isso acontece? Não pode ser por acaso. Vemos o preconceito de forma sutil, no dia a dia”, argumentou.

Em relação ao mercado de trabalho, por exemplo, dados do Censo Populacional do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010, mostram que há diferença salarial em Tatuí entre pessoas que se autodenominam “pretas” e “brancas”.

Conforme a pesquisa, o rendimento mensal médio de indivíduos que se denominam “brancos” é de R$ 1.238, ante R$ 907 de renda média dos tatuianos que se denominam “pretos”.

“Essa diferença salarial é reflexo do preconceito, mas também de um problema histórico de falta de oportunidades para os negros”, opinou a ativista Michele Rolim Pinheiro, ex-presidente do CMICN.

“O que as pessoas que lutam pelos direitos da comunidade negra querem não é que o negro ganhe mais que o branco. Chega de segregação. Queremos união”, pontuou ela.

“Quero que todos, negros e brancos, tenham os mesmos salários, os mesmos direitos, que sejam tratados, no dia a dia, da mesma forma”, complementou.

Conforme Michele, a situação da “comunidade negra do município vem melhorando nos últimos anos”, pois haveria mais acesso à educação – inclusive, por meio de programas de cotas às universidades – e mais cidadãos que se autodenominam “negros” trabalhando com carteira assinada.

No entanto, ela ressalta que essa realidade vem mudando “a passos lentos” no município e no Brasil. Ela cita, por exemplo, que os estudantes negros ainda são minoria dentro das universidades, mesmo com programas de cotas.

Os resultados do Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) de 2013 mostraram que apenas 6,13% dos estudantes concluintes dos cursos superiores são negros. Em relação à área de medicina, esse número cai para 2,66%. Os dados correspondem a todo o Brasil.

“Hoje, não vemos o preconceito de forma tão explícita. O problema em Tatuí e no Brasil é que o preconceito ainda é camuflado. É preciso ser negro ou acompanhar bem as estatísticas para perceber de que forma ele acontece”, opinou Michele.

De acordo com o Mapa da Violência 2014, nos últimos anos, morreram, proporcionalmente, 146,5% mais jovens negros, entre 19 e 26 anos, vítimas de violência no Brasil, que brancos.

Ainda conforme o estudo, entre 2002 e 2012, houve redução de 32,2% no número de mortes de jovens brancos no país, ante aumento de 32,4% em relação ao número de óbitos de jovens negros.

“Tudo bem viver em um país de maioria negra, em que morrem mais jovens negros vítimas da violência, mas que, dentro das universidades, a maioria é branca?”, questionou Michele.

Após dois anos à frente do CMICN, ela deixou a presidência do conselho, que existe desde 2007, em setembro passado. Para ela, um dos avanços para a comunidade negra local seria a criação de uma Secretaria da Promoção da Igualdade Racial, semelhante à que existe na cidade de São Paulo.

Conforme Michele, dessa forma a secretaria poderia pleitear verbas federais para incentivar a comunidade negra local.

Em Tatuí, a ideia de Mesquita é reforçar o sentido educacional do conselho. Por isso, ele diz que pretende vincular o departamento à Secretaria da Educação, Cultura e Desenvolvimento Turístico.

Ele quer promover mais ações do CMICN nas escolas. Pretende, também, que as reuniões do conselho deixem de acontecer mensalmente e ocorram a cada 15 dias em instituições de ensino municipais.


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