Concorrência para curso oferecido pelo Fundo Social chega a centena

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AC Prefeitura / Evandro Ananias

Capacitação oferecida pela entidade abrange duas turmas por ano; aulas acontecem no ‘Doce Lar’

 

Chega a uma centena a lista de espera por uma vaga no curso de cuidador de idoso. Oferecida pelo Fundo Social de Solidariedade, a capacitação é voltada para pessoas que já trabalham com idosos e, por exigir menos escolaridade – o aluno não precisa ter ensino fundamental completo –, registra muita procura.

A constatação é da gerontóloga Paola de Campos. Coordenando também o Projeto Melhor Idade, realizado no Parque Ecológico Municipal “Maria Tuca”, ela é responsável pela formatação do curso, que mudou de espaço e de dinâmica.

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Inicialmente, a formação acontecia em uma das salas da Femague (Fundação Educacional “Manoel Guedes”), no Valinho. Desde 2013, as aulas passaram a acontecer no projeto “Doce Lar”, na vila Esperança, com turmas de 20 alunos.

Por ano, são formados 40 cuidadores de idosos. Paola informou que eles são bastante disputados pelo mercado de trabalho. Os salários variam, conforme vários fatores. Entre eles, experiências anteriores e, especialmente, certificação.

Desta maneira, o curso de cinco meses é considerado um sucesso. A gerontóloga afirmou que, na região, falta mão de obra e que os formandos são sempre requisitados.

Também relatou que a equipe do Fundo Social se surpreendeu com a demanda quando retomou a formação. “O mais interessante é que nós pensamos que ninguém iria procurar o curso. Ocorre que temos uma lista de espera de cem pessoas”, contou.

Paola informou que o curso tem vagas limitadas em função do espaço físico. A sala destinada às aulas, situada no “Doce Lar”, abriga 20 pessoas. “Além do que, mais que 20 pessoas acaba virando conversa”, comentou.

Durante o período do curso, os alunos – a maioria mulher – aprendem toda a parte psicossocial do envelhecimento. A área abrange explicações sobre o que é envelhecimento, o que acontece com o corpo, as questões sociais, políticas públicas, mitos e preconceitos com relação à velhice e direitos dos idosos.

Para aumentar o nível de conhecimento dos alunos, o corpo docente do curso também trata de temas correlatos. Entre eles, ética profissional, religiosidade e morte (luto e viuvez) e procedimentos de higiene e conforto. “Tudo isso é algo que os alunos vão vivenciar no cotidiano de trabalho”, afirmou Paola.

Os alunos têm conhecimento, ainda, a respeito das doenças mais comuns do envelhecimento. Eles também aprendem a realizar testes de verificação da cognição (avaliação da memória, pressão e qualidade nutricional).

Os testes são realizados de modo preventivo para verificação de memória, por exemplo. “Não que os alunos usem isso para diagnosticar problemas de saúde, mas para avisar a família a respeito de algum problema”, descreveu.

Paola declarou que os resultados permitem aos cuidadores informar aos familiares dos idosos sobre algum distúrbio. Dessa maneira, os parentes das pessoas sob os cuidados poderão encaminhá-las a especialistas, como geriatra e neurologista.

As instruções são todas teóricas, com as práticas feitas no próprio ambiente de ensino. Até o momento, os participantes do curso não desenvolvem atividades fora, em instituições como Casa do Bom Velhinho “Vale da Lua”, ou Lar São Vicente de Paulo.

“Nós temos uma estrutura, e as próprias alunas são as cobaias, vamos assim dizer”, declarou a coordenadora.

As turmas são selecionadas com base em triagem feita pela equipe que atua na formação. O curso é destinado a quem já atua na área e não possui certificação. Podem participar, também, pessoas “mais velhas” e que demonstrem interesse.

“Geralmente, o público-alvo são as mulheres de baixa renda e de meia-idade. São pessoas que já cuidam de idosos e que não têm capacitação”, reforçou Paola.

Regulamentação

Por conta de não ser regulamentado, o curso de cuidador de idoso ainda pode ser ministrado pelo Fundo Social nesse formato – com cinco meses de duração e voltado para pessoas com o ensino fundamental completo.

A coordenadora explicou que a capacitação deverá ser formalizada ainda este ano. A partir disso, haverá uma série de exigências, como carga horária diferenciada, tempo de duração e grau de escolaridade mínima.

Paola informou que o projeto de regulamentação exige que o aluno tenha o ensino médio completo. “Eu ainda posso chamar o nosso curso de cuidador de idoso. Quando ele for regulamentado, vai ser muito difícil nossos alunos serem certificados”.

Paola afirmou que, apesar de não ser técnico, o curso oferecido pelo Fundo Social é “bem reconhecido” pela população. De acordo com ela, muitas famílias com idosos que necessitam de cuidados procuram a entidade para contratar.

“As famílias que nos procuram prezam muito pela experiência. E se a pessoa tem um certificado, que é o diferencial, é rapidamente contratada”, salientou.

Para quem já atua na área, a gerontóloga afirmou que participar do curso representa aperfeiçoamento. Segundo ela, há casos de cuidadores que atuam melhor que outros profissionais. Entretanto, como não possuem muitas instruções, eles falham em não conseguir verificar problemas de memória ou de depressão.

Também é preciso saber “lidar com a família” do assistido e aprender a se comportar em ambiente de trabalho. Durante a capacitação, professores do Fundo Social transmitem, ainda, informações sobre como “não infantilizar a pessoa idosa”. “Essas coisas não são faladas no dia a dia, mas são importantes”, ressaltou.

Como complemento, o curso abrange noções de envelhecimento populacional, de contágio, manifestação e sintomas de doenças e sinais de suspeitas para diagnósticos.

As instruções são repassadas pela equipe do Fundo Social que atua no “Melhor Idade”. O projeto atende a 180 idosos, com atividades desenvolvidas de segunda a sexta, no período da manhã.

O programa da formação inclui os limites da atuação dos cuidadores de idosos. A coordenadora explicou que os formandos não podem atuar em áreas que exijam conhecimentos técnicos ou “mais apurados”. “A pessoa pode ir até o ponto em que não entrar na parte de auxiliar de enfermagem”.

Não são ensinados, por exemplo, como aferir pressão e como trocar sondas. A coordenadora citou que, quando há necessidade, os cuidadores devem ser incluídos dentro de uma equipe multidisciplinar de cuidados.

Entretanto, a contratação desses profissionais depende da necessidade do idoso e da disponibilidade das famílias. Por esse motivo, os professores do Fundo Social orientam os formandos a conversarem com os contratantes para perguntar quais as expectativas e explicar o que pode ser realizado.

“Nós temos de educar as famílias, para elas entenderem as diferenças. Se for um idoso totalmente acamado, dependente, com sonda urinária e traqueostomia e necessitar de cuidados, a família tem de entender que terá de contratar um auxiliar de enfermagem e não um cuidador”, afirmou a coordenadora.

O mesmo trabalho de conscientização é feito com os formandos. De acordo com a coordenadora, muitos aceitam trabalho sem questionar quais serão as atribuições e detalhar quais são as possibilidades de trabalho. “Tenho orientado os alunos para que conversem antes e perguntem tudo”, complementou.

Outra preocupação da equipe do Fundo Social é com a falta de entendimento da família sobre o papel do profissional. Paola relatou que muitas pessoas procuram um cuidador esperando que eles cuidem “de toda a casa”.

“Ele pode, sim, cuidar da roupa, da louça e do ambiente, desde que seja do idoso e não da família toda. Então, as famílias também precisam ter essa ideia, porque cuidar do seu idoso é uma coisa muito recente, a família não está preparada, o Estado não está preparado e não existem muitos profissionais”.

Até por essas razões, Paola afirmou que é “dificílimo encontrar mão de obra”. “Mas, o legal é que as pessoas que sabem que eu coordeno o curso me acionam para que eu indique os alunos. De duas a três vezes por semana, faço isso. E estou muito feliz porque vejo resultados”, declarou.

As vantagens para os formandos são encontradas, também, no quesito remuneração. Paola explicou que o ganho depende de vários fatores, mas que pode ser maior em razão da qualificação do cuidador e da região de atuação.

Em média, um cuidador ganha um salário mínimo por mês, trabalhando cinco dias por semana e oito horas por dia. O vencimento tem como base a lei de direitos das empregadas domésticas, uma vez que a profissão não é regulamentada.


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