Como Tatuí chegou a ter 52% da população da capital um século

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Tatuhy, hoje a Cidade da Música, tem sua origem ligada ao berço da siderurgia, a Fundição Ipanema (1811-1926), que deu nome ao famoso bairro carioca.

Os primeiros técnicos, suecos e alemães trazidos por D. João VI, disseminaram o gosto pela música entre os trabalhadores, alguns dos quais migraram para o local da futura Tatuí.

Em 1840, a recém-fundada Tatuhy tinha apenas nove ruas em 14 quadras, entre elas as atuais José Bonifácio, 11 de Agosto, 7 de Maio, Cap. Lisboa, Prudente de Morais e o histórico Largo “Central”, depois “da Beneficência”, hoje Concha Acústica.

Com apenas 3.200 habitantes, a maior parte rural, desmembrou-se de Itapetininga em 1844.

O adolescente Martinho Guedes morava em Campinas, com os irmãos mais velhos e sua mãe. Há pouco, chegaram da região do Porto depois da prisão do pai, João Guedes, nobre que suportava D. Miguel, rei incumbente, irmão e oponente do “nosso” D. Pedro I na Guerra Civil Portuguesa, que largou a criança Pedro II aqui, para disputar também a coroa portuguesa.

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O jovem Martinho foi vender os produtos europeus importados por sua família na região dos tropeiros, que traziam seus animais do sul. Em Tatuí conheceu uma jovem viúva quatrocentona, dona da fazenda Pederneiras, onde hoje é a pista de testes da Ford.
Martinho Guedes e Maria Alves de Almeida Lima casaram-se em 1848. Plantavam, importavam produtos e os comercializavam na região.

Importaram de Savannah (EUA) sementes de algodão herbáceo, diferente do arbóreo, comum por aqui como cultura nas pequenas propriedades. Desenvolveram o plantio racional do algodão, nova técnica agronômica.

Com a revolução industrial fortemente concentrada no setor têxtil, a Inglaterra dependia do algodão como hoje dependemos do petróleo.

Com a Guerra Civil Americana (1861-1865), a Inglaterra se viu sem matéria-prima. As máquinas inglesas dependiam do algodão americano, o indiano e o egípcio não serviam.
Com visão, Martinho, a exemplo do que fazem hoje as cooperativas agrícolas, importava as sementes de algodão herbáceo, as distribuía entre agricultores locais, orientava, e depois comprava o algodão, o beneficiava, e exportava para a Inglaterra com uma qualidade comparável à dos norte-americanos.

Com a explosão de preços (de 6$ na década de 1850 para a faixa de 14$ a 23$ entre 1863 e 1866), o algodão herbáceo ficou conhecido como “Ouro Branco”, e Martinho acumulou grande fortuna entre 1863 e 1870, quando os americanos voltaram a produzir e exportar grandes quantidades de algodão, fazendo os preços internacionais caírem muito.

Outras regiões, com menos técnica agrícola e portanto menos competitivas, enfrentaram grande crise e abandonaram o algodão.

O visionário Martinho continuou produzindo e pretendia “verticalizar” o negócio, construir a primeira grande fiação e tecelagem, para absorver a produção e criar valor adicionado, mas morreu em 1872.

A mulher e o filho, Manoel Guedes, igualmente visionários, conseguiram botar a fábrica São Martinho para funcionar em 1881, sem ferrovias e estradas.

Sorocaba começou depois com a menor N. Sra. da Ponte. O hoje shopping e enorme Cianê foi “filhote” da São Martinho, pois seu fundador lá trabalhou 16 anos como diretor industrial.

Em 1885 no estado todo havia apenas nove tecelagens, sendo a São Martinho provavelmente a maior, sendo que na verdade era um complexo fabril, com olaria, fábrica de correias, etc.

Devido principalmente à produção do “Ouro Branco” e construção e operação da fábrica São Martinho, a cidade tornou-se a quinta mais populosa do estado de SP, segundo o Censo de 1886, com 24.936 habitantes.

Ou seja, mais da metade da população da capital (47.697 habitantes), que finalmente tinha superado Campinas.

Em 1910, a S. Martinho foi também a primeira a ser movida por energia elétrica, vinda de barragem em fazenda de Manoel, que também eletrificou Tatuí, um dos primeiros municípios a ter essa comodidade.

Surgiram então muitas indústrias no estado. Em Tatuí, a hoje renovada Campos & Irmãos/Santa Adélia, 27 anos após a S. Martinho.

Manoel Guedes, reconhecido por historiadores como um dos 12 “Próceres das Indústrias e Finanças de São Paulo”, junto com Matarazzo e Crespi, também promoveu a cultura.
Um dos primeiros teatros do estado (o São João, na atual praça Manoel Guedes) foi construído em 1871, e 25 anos depois um dos primeiros cines-teatros do estado (o S. Martinho, na praça da Matriz, hoje Banco Itaú), além do monumental Theatrão, nunca concluído, pois Manoel faleceu, e infelizmente demolido nos anos 50.

Na Saúde, doou terrenos e ajudou a construir a Beneficência, precursora da Santa Casa, mantinha farmácia gratuita para seus empregados e trouxe, como médico da fábrica, o depois famosíssimo dr. Emílio Ribas, instalando-o numa casa hoje ainda conservada, a um quarteirão da Matriz.

Empregou muitos técnicos e trabalhadores italianos e de outras nacionalidades, o que ajudou a Tatuí crescer e hoje ter uma rica diversificação cultural.

O palacete por sua beleza e imponência tornou-se cartão postal, “Souvenir, Manoel Guedes Residence, Tatuhy, São Paulo”, nas então importantes feiras mundiais, “World Expositions” da virada do século.

O complexo fabril, o palacete e a vila operária, a apenas quatro quarteirões da Praça da Matriz, estão tombados e são únicos no estado de São Paulo.

Mas esse complexo histórico está abandonado e infelizmente se decompondo por causa de disputas judiciais infindáveis por dívidas outras dos atuais donos, o outrora poderoso grupo Moinho São Jorge, da família Chammas.

Para evitar a total ruína que se avizinha, os credores (INSS, credores trabalhistas e a prefeitura, que tem hoje 239 ações ativas de execução), juntamente com MP, governo estadual, vereadores e proprietários, deveriam se unir para não perderem estas “garantias judiciais”, que são um tesouro inexplorado para o turismo e a história econômica nacional e até mesmo internacional.

E Tatuí, com músicos, cultura, clima, localização, gastronomia, empreendedorismo, rede médica e hoteleira recém-expandida e de qualidade, poderia assistir à criação de muitas vagas no turismo cultural, grande geradora mundial de empregos e moderna indústria da economia sustentável.

* Cursou engenharia de produção (Poli-USP), direito (Cidade, RJ) e mestrado em administração (FGV-Eaesp e Stern/New York University). E-mail: (guedes234@gmail.com).

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