Censura ao beijo

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Em meio aos ataques sistemáticos e indisfarçados contra a democracia, a conclusão pitoresca de que beijo na boca é ato pornográfico – segundo acurada avaliação do prefeito carioca Marcelo Crivella – não chega a escandalizar – pelo menos a ponderar-se a biografia do eminente gestor.

Afinal, todo cidadão – figura pública ou não – tem o direito de interpretar o mundo conforme seus dogmas, convicções, educação e demais vivências.

O problema – gravíssimo – ocorre quando, em posição privilegiada, o homem público busca impor esses valores pessoais como regra a todos os demais cidadãos – por consequência, tirando-lhes o direito às próprias convicções.

Uma das virtudes mais significativas da democracia é, justamente, o respeito ao direito alheio, sobretudo, o da opinião própria, o que deve permear desde as situações mais comezinhas do dia a dia até as grandes questões existenciais, como as que implicam em religiosidade, filosóficas e ideológicas.

(Bem) mais abaixo na discussão, contudo, pode-se exemplificar – tomando a tentativa de censura do prefeito carioca como base – que, para uns, o beijo na boca é um ato libidinoso, sexual – tão certo quanto um cumprimento com beijinho no rosto deve ser uma preliminar… Para outros, não obstante, um beijinho no rosto (ou dois) é apenas um cumprimento simpático…

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Ok, a comédia sem graça ocorrida na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, teve como pretexto o Estatuto da Criança e do Adolescente, o qual impõe o lacre a materiais com conteúdo erótico, com objetivo de não os deixar em fácil acesso a crianças.

Relembrando: na noite do dia 5, o prefeito Marcelo Crivella anunciou, no Twitter, que censuraria a HQ “Vingadores – A Cruzada das Crianças”.

O título traz a imagem de dois homens se beijando (completamente vestidos, ressalte-se). Na sequência, houve a real tentativa, pela Justiça, de retirada do título do evento, com reação e natural venda completa da revista…

Para além da ignorância (também) quanto a marketing (a editora dos “Vingadores” agradece, prefeito!), segue a dúvida: um beijo seria libidinoso e – pior – erótico somente quando trocado entre pessoas do mesmo sexo?… Por essa visão, o pensamento não seria em termos, mas totalmente homofóbico!

Caso contrário, se a pegação labial não deve ser testemunhada por crianças e adolescentes indiferentemente ao sexo de seus agentes salivares, aí a situação complica de vez!

Para melhor entendimento, raciocinemos ainda segundo a visão do alcaide carioca: uma confraternização social, por exemplo, onde os jovens trocam beijos sem miséria – como um baile de debutantes, digamos – seria, na verdade, uma grande bacanal…

Ou seja, não haveria outra saída senão proibir, em todo local público, qualquer tipo de interação física, como o beijo – então restrito aos mais recônditos e sombrios lugares de pecado, como os motéis (lembrando que, como as crianças costumam perambular por dentro de suas casas, elas poderiam vir a flagrar os pais cometendo, inadvertidamente, alguma libertinagem, como um beijo na boca…).

Por esta hipótese, talvez, uma boa ideia visando ao espaço público seria a inspiração direta no nazismo – cujas “convicções” andam tão em voga na atualidade –, com a criação de “guetos” de beijoqueiros, apartados da sociedade, tal os judeus no Terceiro Reich.

É ridículo, sim. Risível. Mas, não menos que uma autoridade de destaque na nação implicar com uma revista em quadrinhos e, daí, tentar promover o retorno da censura no país.

E, aliás, não fica muito atrás a tentativa de se retirar da rede pública de ensino uma cartilha, simplesmente, porque ela aborda a tal “ideologia de gênero”, como ocorreu em São Paulo.

É por demais incompreensível toda essa preocupação com a sexualidade alheia. A justificativa é sabida, claro: querem fazer crer que, pelo simples conhecimento e visão da homossexualidade, as crianças “virarão” gays…

Desculpem, é ridículo. E impõe outro questionamento: quando se passa a mensagem de que criança não pode ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando, se está a dizer que isso é “errado” e, por consequência, que a homofobia seria “correta”. O prefeito do Rio pode até discordar, mas é isso.

Destarte, cabe aos pais pensarem:  será mesmo que nossos filhos são tão suscetíveis e incertos quanto às suas sexualidades e, portanto, vale a pena apoiar a opressão, a perda da liberdade de expressão e o consequente fim da democracia no país?

Ou, quem sabe, seria melhor criar futuros cidadãos mais tolerantes, sensíveis, despreconceituosos e, assim, menos homofóbicos, racistas, xenofóbicos, machistas etc. e tal?

Na dúvida, ao menos uma certeza: foi grotesco, tétrico o que se tentou efetivar na Bienal do Livro. Ainda bem que o Supremo Tribunal Federal interveio e trouxe “luz” à chama oscilante da democracia.

E (que bacana para nós, tatuianos!) o magistrado mais eloquente e elogiado no país todo pela defesa à liberdade de informação e expressão foi nosso conterrâneo, ministro José Celso de Mello Filho.

Portanto, com (esperada) licença do proeminente tatuiano, conclui-se este editorial com a reprodução da carta dele ao jornal Folha de S. Paulo (a partir da qual, para o momento, não há nada a se acrescentar:

“A apreensão de exemplares de um livro com temática LGBT na Bienal do Rio de Janeiro mostra-se inaceitável!!!! NA REALIDADE , o que está a acontecer no Rio de Janeiro constitui fato gravíssimo, pois traduz o registro preocupante de que, sob o signo do retrocesso – cuja inspiração resulta das trevas que dominam o poder do Estado -, um novo e sombrio tempo se anuncia: o tempo da intolerância, da repressão ao pensamento, da interdição ostensiva ao pluralismo de ideias e do repúdio ao princípio democrático!!!!

Mentes retrógradas e cultoras do obscurantismo e apologistas de uma sociedade distópica erigem-se, por ilegítima autoproclamação, à inaceitável condição de sumos sacerdotes da ética e dos padrões morais e culturais que pretendem impor, com o apoio de seus acólitos, aos cidadãos da República!!!

Uma República fundada no princípio da liberdade e estruturada sob o signo da ideia democrática não pode admitir, sob pena de ser infiel à sua própria razão de ser, que os curadores do poder subvertam valores essenciais como aquele que consagra a liberdade de manifestação do pensamento!!!!”.

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