Busca por renda alternativa dispara e ocasiona fila de espera por cursos

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A retração da economia por conta da instabilidade política do país tem gerado dificuldades em todas as regiões. Em Tatuí, o Fundo Social de Solidariedade vem registrando efeito bastante peculiar – e até então incomum para a coordenação – e que exige medidas criativas.

“A procura pelos cursos era muito polarizada, mas, neste ano, as pessoas estão indo nos locais onde há vagas”, disse a primeira-dama e presidente da entidade, Ana Paula Cury Fiuza Coelho. De acordo com ela, cada vez mais pessoas estão se deslocando de suas regiões para buscar capacitação em bairros distantes.

Conforme levantamento do Fundo Social, até o ano passado, moradores da região da vila Angélica só frequentavam cursos no centro de capacitação do bairro.

Desde a metade do ano passado, quando as demissões em massa começaram a ocorrer no município por conta da crise econômica, essa situação mudou.

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Ana Paula explicou que esse tipo de comportamento tem gerado uma ocupação “maciça” dos centros de capacitação. No Jardim Santa Rita de Cássia, por exemplo, há alunos e alunas do curso de costura de diversas regiões da cidade.

“Eles vão porque não querem esperar vaga em unidades próximas das casas e, também, devido à retração do mercado. As pessoas estão optando por usar mais os recursos que têm em casa para conseguir gerar renda”, analisou.

Embora não tenha um estudo em números, a primeira-dama afirmou que o aumento é sentido pelo Fundo Social por conta da procura. “Aumentou muito a quantidade de pessoas que estão nos procurando. Nós temos essa noção com base na divulgação. Nós propagamos pouco os cursos”, explicou.

Para não gerar fila de espera, Ana Paula disse que o Fundo Social tem como prática fazer divulgações nos próprios bairros onde os centros estão localizados. Até o ano passado, a equipe da entidade percorria os locais para fazer panfletagem e divulgar, no boca a boca, as vagas e as capacitações.

Neste ano, o Fundo Social não precisou fazer uso desses recursos. “A busca pelos cursos está sendo espontânea. Nós não precisamos divulgar nada. Inclusive, estamos recebendo ligações na sede, coisa que nunca acontecia”, comentou.

Assim como as razões que levaram à procura, o perfil de quem está frequentando os cursos também mudou. De senhoras que buscavam uma renda extra ou ocupação, passaram a ter como alunos pessoas “de todas as idades”.

Desde o início do ano, a maior procura tem sido por homens, em geral, desempregados. “Antes, as pessoas vinham como opção de renda. Atualmente, elas buscam no Fundo Social modo de obter renda principal”, disse Ana Paula.

Robson Rodrigues Alves, 32, não está desempregado, mas ocupa uma das vagas oferecidas pelo Fundo Social como “precaução”.

O vigia concilia o tempo extra que tem no horário de folga (ele trabalha à noite) com o curso de cabeleireiro, disponibilizado pela entidade por meio do programa Tesoura & Cia.

Alves contou que decidiu por obter o certificado como uma espécie de garantia, caso seja atingido pela crise econômica. “Não trabalho na área (de beleza), mas resolvi fazer por causa do mercado de trabalho. Com essa crise pela qual o Brasil está passando, tive iniciativa de fazer um curso extra”.

A menos de um mês no curso, o vigia tem planos de – numa recuperação da economia – poder mudar de profissão. Ele pretende montar uma barbearia no bairro em que reside com a esposa e um casal de filhos, o São Judas Tadeu.

De início, deve montar o negócio na garagem de casa e conciliar os dois empregos. “Estou pensando dessa forma. Hoje, estou empregado, mas não sei o dia de amanhã. Está complicado. O negócio é ter uma segunda carta na manga”, disse.

Para Alves, a vaga no curso veio em boa hora, mas somente um ano após inscrição. O vigia contou que procurou a escola do Fundo Social em março do ano passado. No início deste mês, recebeu contato para que pudesse frequentá-lo.

Quando terminar a capacitação, Alves receberá certificado e uma consultoria do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio ao Micro e Pequeno Empreendedor).

“Nós batemos muito nessa tecla. Em parceria com o Sebrae, nós explicamos para os usuários do Fundo a questão da importância da formalização para que eles encarem os cursos como um negócio”, disse a primeira-dama.

Uma atenção especial, nesse sentido, é dada para os cursos da área da beleza. Ana Paula citou que, até por isso, a maioria dos concluintes está inscrita como MEI (micro empreendedor individual), que garante direitos de trabalhador formalizado. Boa parte deles também tem negócio próprio – a maioria, em casa.

“A minha manicure atende na casa dela e já tem MEI. Acho importante que as pessoas se formalizem, porque têm de pensar na aposentadoria, em benefício no caso de se machucarem. As pessoas não podem ficar à mercê de nada”, argumentou.

As orientações são disponibilizadas a todos os formandos. Um consultor do Sebrae conversa com os alunos ao final da solenidade de certificação. Quem demonstra interesse é orientado a procurar a Sala do Empreendedor.

Esse tipo de consultoria é aberto a alunos e não alunos do Fundo Social. Também podem receber orientações pessoas que se formaram em anos anteriores. “Nós informamos as datas em cada centro de capacitação. Quando a pessoa não pode ir no local em que fez o curso, vai em outro”.

De acordo com a presidente do Fundo Social, esse tipo de parceria tem dado maior resultado nos cursos de beleza. Em particular, porque eles são frequentados por artesãos, caso da dona de casa Rita de Cássia Estevam Martins Pedroso.

Ela concluiu capacitação em EVA (etileno acetato de vinila) no ano de 2013. Após uma experiência com a família, está aceitando fazer decorações de festas particulares.

“Ela mudou com o aprendizado. As pessoas se reinventam e acabam fazendo outras coisas para gerar renda”, disse a primeira-dama.

Para motivar os novos alunos, a presidente do Fundo Social afirmou que a entidade tem apostado em “novos talentos”. Por esse motivo, tem recrutado ex-alunos e alunas para lecionar nos centros de capacitação.

“Eu gosto muito de fazer isso, porque acho que dá um incentivo para os que começam”, concluiu.


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