Brasil revive drama de ‘Fahrenheit 451’

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O futuro do país é incerto. Em meio a um clima de insegurança que aflige toda a população, o governo, de forma autoritária, decide proibir a venda de livros com o objetivo de impedir que as pessoas se instruam e, eventualmente, possam se rebelar contra o sistema. Essa breve história é a sinopse de “Fahrenheit 451”, best-seller de Ray Bradbury, um sucesso do pós-guerra. Mas, convenhamos, poderia muito bem ser o texto de abertura para retratar o episódio de censura ocorrida no último fim de semana na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro.

Tudo começou quando a prefeitura da cidade decidiu confiscar um livro de quadrinhos da Marvel que continha a imagem de dois personagens homens se beijando. O fato gerou grande repercussão na imprensa e nas redes sociais, resultando em uma intensa batalha judicial.

Diante da polêmica, o youtuber Felipe Neto adquiriu, em uma tacada só, 14 mil exemplares incluídos na temática LGBT para distribuir gratuitamente no evento, tornando-se o principal influenciador a contestar o ato de censura. Com os livros em mãos, os jovens gritaram palavras de ordem contra a decisão praticada pelas autoridades locais.

No domingo, após inúmeras reviravoltas, o Supremo Tribunal Federal decidiu impedir o confisco da obra, que – por sinal – já havia se esgotado.

O que se pode dizer de tudo isso? Bem, seria preciso mais do que um artigo. Mas – em um país em que a média de livros lidos por habitantes ao ano é de 2.43, de acordo com o Instituto Pró-Livro -, é inimaginável pensar que uma obra possa ter a sua venda proibida. Ao contrário, o Brasil precisa que a leitura seja cada vez mais estimulada.

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Em seu argumento, a Prefeitura do Rio classificou a história de “Vingadores: A Cruzada das Crianças” como “pornografia”, indicando que o material seria impróprio para menores. A medida, descabida, é mais uma prova de que as autoridades não fazem ideia sobre a proposta da obra e principalmente ignoram como ela, e tantas outras, podem ser relevantes para a educação dos jovens.

E, acredito que todos concordamos, o tema sexualidade, principalmente entre adolescentes, precisa ser mais bem abordado dentro de casa e na escola. Nesse sentido, os livros da categoria LGBT têm desempenhando um importante papel ao promover a informação, esclarecer dúvidas e, sobretudo, combater o preconceito tão visível em nossa sociedade.

Outro detalhe importante: temos acompanhado a crise pela qual atravessa o mercado editorial brasileiro. Vender livro aqui nunca foi fácil, mas nesses últimos tempos a situação se agravou. No entanto, em meio a toda essa dificuldade, as editoras se uniram para organizar um grande evento como a Bienal do Livro para promover a leitura. E isso deve ser alvo de elogios, jamais de críticas.

O saldo de tudo isso? Destaco dois ditos populares que ouvimos de nossos avós. “Há males que vêm para o bem”. Já que a polêmica aconteceu, que possamos utilizá-la a favor da informação, enaltecendo sempre o valor de conteúdos de qualidade na educação de nossos jovens. Agora sobre a decisão da Prefeitura, “o feitiço virou contra o feiticeiro”.

* Graduou-se em relações internacionais e cursou mestrado em administração, ambos na PUC-SP. Trabalha com escrita e publicação de livros desde 2004, já lançou mais de 500 livros de variados temas, entre eles gestão, negócios, universitários, técnicos, ciências humanas, interesse geral, biografias e ficção infantojuvenil e adulta.

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