Apodet leva grupo para visitar o fórum

255
Publicidade





Kaio Monteiro

Grupo de deficientes físicos visitou fórum e recebeu instruções sobre como utilizar elevador ‘em braile’

 

O fórum da comarca “Alberto dos Santos” transformou-se numa grande sala de aula de acessibilidade na quinta-feira, 3, com a visita de 20 alunos deficientes visuais da Apodet (Associação dos Portadores de Deficiência de Tatuí ).

O objetivo da atividade era fazer com que os alunos aprendessem a utilizar o elevador do Judiciário que apresenta botões em braile e dispositivo de áudio. Os assistidos, porém, surpreenderam a juíza diretora, Lígia Cristina Berardi Ferreira, com algumas solicitações para melhorar a locomoção dos deficientes visuais no local.

Publicidade

Logo que chegou ao prédio, o grupo foi diretamente ao elevador. Quem estava no fórum e tentou usá-lo durante o período em que os deficientes estiveram no local dividiu o espaço com o professor de informática e de braile Nilson Ribeiro dos Santos, 38.

A escolha pelo fórum aconteceu, segundo a presidente da Apodet, Solange Salles Abude, porque o Judiciário, juntamente com uma das agências da Caixa Econômica Federal na cidade, são os únicos lugares que possuem elevador adaptado aos deficientes visuais.

A máquina informa, por meio de um dispositivo de áudio, o momento exato em que os deficientes devem sair.

Durante a atividade, Santos atendeu cada um dos alunos que entrou na “sala de aula”. Ele esclareceu dúvidas e direcionou quais botões os cegos deveriam apertar após a leitura do braile.

Foram pelo menos dez “viagens” de subida e descida, do térreo ao primeiro andar. “Eu ensino para ajudá-los a viver sem a ajuda dos outros. Esse curso dá segurança para eles (os deficientes visuais) andarem pela cidade”, disse Santos.

O professor da Apodet contou que os deficientes conquistam essa “liberdade” quando os locais públicos oferecem, adequadamente, pontos de acessibilidade para quem não enxerga.

“É o primeiro elevador com áudio e braile que eu entrei na vida. Imagine se nós entrarmos em um normal e não tiver ninguém para ajudar. Ficaremos perdidos”, falou.

Durante a visita ao fórum, os alunos apontaram que o projeto de acessibilidade do prédio precisava de melhorias. Segundo eles, as guias – pisos emborrachados que indicam aos deficientes se devem parar ou seguir em frente – não têm continuidade.

“Da estrutura do fórum, o elevador está correto. Mas, existem algumas falhas, como o piso tátil que precisa alcançar a porta”, reclamou o professor da instituição.

Além do piso, a presidente da Apodet apontou outro ponto que precisa ser melhorado. De acordo com ela, os degraus das escadas são separados por um espaço no qual os cegos podem enroscar os pés. Isso, segundo Solange, “é um erro grave e que pode causar acidentes sérios com os deficientes visuais”.

“São falhas simples de serem consertadas. O prédio é moderno e já tem uma estrutura básica para deficientes”, afirmou a presidente. “Sobre os degraus, informaram-me que será corrigido em breve”, completou.

A juíza diretora do fórum não conseguiu acompanhar as aulas dos deficientes no elevador, pois estava presidindo uma audiência. Após o término da sessão, ela encontrou-se com o grupo de deficientes, ocasião em que ouviu sugestões apresentadas.

“É muito bacana que a gente conscientize as pessoas que podem mudar e que têm o poder na mão”, disse a presidente da Apodet, referindo-se à conversa com a juíza.

Em entrevista, a magistrada afirmou que “ficou surpresa com o assunto discutido pelos deficientes” e que não esperava que fosse receber tanta informação para melhorar as condições da circulação e locomoção dos deficientes no prédio.

Ela disse, ainda, que não tinha conhecimento de tantas falhas e que fará as soluções apresentadas chegarem até a presidência do Tribunal da Justiça de São Paulo, através da administração regional de Sorocaba. A juíza quer debater essa questão em todo o Estado.

A magistrada responsável pelo fórum da comarca também relatou que ficou muito contente em contribuir para o aprendizado dos alunos da Apodet. Ela disse que a solicitação é justa, pois eles precisam ter acesso aos serviços prestados no local.

“Quero agradecer e manter contato para corrigir essas falhas. Vocês ‘abriram nossos olhos’ para esses problemas”, disse ela, em conversa com os deficientes.

Para a presidente da Apodet, a visita do grupo ao fórum é importante porque faz parte do conteúdo pedagógico da associação. As aulas, segundo ela, são necessárias para que o deficiente fique apto a realizar tarefas básicas, como ir ao banco.

Solange, entretanto, salientou que muitas melhorias precisam ser feitas para que os cegos possam ter autonomia e exercer o “direito de ir e vir”. “Como vou deixá-los andar na rua se os projetos de acessibilidade da cidade não estão corretos?”, questionou.

Conforme ela, a questão da acessibilidade, atualmente, é mais ligada aos cadeirantes. Solange afirmou que os projetos de adaptação são mais voltados a estes, porque, “aparecem mais rápido”. Os visuais, explica ela, são praticamente imperceptíveis por terem os corpos perfeitos. “Rampa não é só para cadeirante. É preciso colocar um ‘alerta’ para os cegos, senão eles caem”, sustentou.

A presidente da Apodet revelou que esteve na semana passada com o diretor do Demutt (Departamento Municipal de Trânsito e Transporte), Francisco Antonio de Souza Fernandes, o Quincas, para realizar um mapeamento da acessibilidade do centro. “Ele ficou horrorizado com tanto erro. Disse que vai arrumar”, comentou.

Para ela, “o grande problema nas cidades” é que as autoridades pensam em adotar medidas de acessibilidade apenas para cumprir a legislação brasileira. Além disso, ela reclamou da fiscalização no município, classificando-a de “precária”.

“Se ninguém entende como a acessibilidade deve ser feita, como vão fiscalizar? A acessibilidade é um remendo mal feito”, avaliou Solange.

Por essa razão, a presidente da associação alega que os programas de visitas aos locais públicos são fundamentais para a população entender que os deficientes visuais estão procurando novos caminhos e maneiras de serem incluídos na sociedade.

Solange contou, ainda, que enquanto são realizadas demonstrações com os deficientes muitas pessoas aproveitam para tirar dúvidas sobre a acessibilidade. “Essa também é uma maneira de passar informação”, argumentou.

Após o final da visita no fórum, quando o ônibus emprestado pela Prefeitura à Apodet chegou à sede da instituição, Francelina de Fátima Martins, 54, fez questão de comentar o passeio.

Um dos pontos mais interessantes destacados por ela, que também é apelidada de Celina, foi conversar com a juíza. “Ela é ótima, uma pessoa muito legal, educada. Eu gostei bastante dela, está de parabéns, pois se interessou pelas nossas propostas”.

Durante a entrevista a O Progresso, Celina comentou sobre as dificuldades que enfrenta no dia a dia, na questão de acessibilidade. Ela disse que existem problemas e que eles fazem com que os deficientes sintam medo de sair das próprias casas.

“Nós nos sentimos muito presos por causa da insegurança. Está melhorando um pouco, apesar de não estarem (as autoridades) entendendo muito bem as nossas necessidades”, disse ela.

Com o fim da entrevista, Celina voltou para a cidade de Cesário Lange, onde reside, e para a rotina de dona de casa, com roupas para lavar e passar e refeições para cozinhar. “Eu tento sair um pouco de casa, mas tenho um pouco de dificuldade. Sempre que posso, tento ir para fora da residência”, concluiu.


Publicidade