Anjos do Céu e da Terra

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“Os anjos e os arcanjos, querubins e serafins, não O cessam de louvar, dizendo em uma só voz: Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus do universo. O Céu e a Terra estão cheios de Vossa glória. Hosana nas alturas”. Muitos devem conhecer ou ter recitado o texto acima, mesmo sem entender quem são alguns dos nomes. Pois anjos, arcanjos, querubins e serafins são todos entidades divinas, e a louvação que encima este parágrafo dispõe diversas ordens hierárquicas (sim, os anjos também têm hierarquia!). Os nomes dessas ordens de anjos teriam sido trazidos pelos judeus que ficaram cativos na Babilônia (598 a 538 a.C.), sendo que no mais alto grau dessa hierarquia ficam os arcanjos. Os serafins seriam os espíritos celestiais da primeira ordem, enquanto os querubins estariam na segunda.

As imagens de anjos como criancinhas – às vezes, tocando liras ou trombetas – surgem com o grande pintor do Renascimento Rafael Sanzio (1483-1520) e chegam ao nosso  Aleijadinho (1730 ou 1738 a 1814), ouro-pretense que decorou com suas figuras angelicais infantis muitas igrejas da Minas barroca.

Os arcanjos (do grego “arkhos”, principal, e “aggelo”’, mensageiro) são a oitava e mais alta hierarquia celestial. Do judaísmo ao protestantismo, passando pelos católicos e ortodoxos, os arcanjos estão presentes, com diferenças pontuais. Os arcanjos seriam Gabriel, o mensageiro que anunciou a Maria a vinda de Cristo pelo seu bendito ventre (Lucas, 1:26); Rafael, do poder da cura divina (Tobias, 3:17); Uriel (Esdras II), o instrutor do profeta Ezra que porta espada e chama, a luz divina; Miguel (do hebraico “tal qual Deus”), que atacou Satã e os anjos do mal (Livro de Daniel e Apocalipse, 12:7-9, e entre os islamitas) e Salatiel, o arcanjo da intercessão divina (Esdras III, 5:16). Por fim, Jegudiel (apenas entre os ortodoxos) representa a glória divina e Jeremiel (Esdras II ou IV) é o que exalta Deus e sua bênção.

Carlos Drummond, em seu “Poema de Sete Faces” (1964), descreveu sua desventura com um anjo: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: vai, Carlos, ser gauche na vida” (N. do A.: pronuncia-se “gôch”). Gauche é uma pessoa tímida, retraída, talvez destinada a ser “errada”, atrapalhada como o querubim do Chico Buarque, em “Até o Fim” (1978): “Quando eu nasci veio um anjo safado / o chato do querubim / e decretou que eu estava predestinado / a ser errado assim …”. Oito anos depois de Chico e 22 depois de Drummond (1986), em “Bagagem”, a poetisa Adélia Prado contou a versão de seu anjo com um toque feminista: “Quando nasci um anjo esbelto / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher / essa espécie ainda envergonhada”.

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Os “Hells Angels” (nome do clube de motociclistas Hells Angels Motorcicle Club, HAMC) começaram a se organizar no final dos anos 1940, na Califórnia, e até hoje são considerados uma organização perigosa pela Justiça americana por sua associação a crimes como roubos, pancadarias, assassinatos, tráfico e exploração do lenocínio. Distinguem-se por andarem sempre em bandos, com suas jaquetas de couro com o dístico “Hells Angels” ornando em semicírculo suas costas. Roncam suas supermotos, as possantes Harley Davidson, símbolos de seu poder, sempre em alta velocidade. A chegada de um grupo de “Hells” a qualquer lugar dos EUA é motivo para preocupação da polícia, do comércio e população locais, porque os bandos estão sempre associados ao que há de pior. Mas o charme (gauche!) de suas jaquetas de couro tornou-se grife entre os motociclistas das classes média e rica de todos os países, incluindo o Brasil. Uma jaqueta dos “Hells” é luxo só, e atinge preços altíssimos, se original mesmo surrada (uma cópia barata custa na faixa de cem dólares). O nome “Hells Angels” evoca os anjos do mal, seguidores de Lúcifer, bem distantes dos benditos arcanjos.

Já os “Guardian Angels” (Anjos da Guarda) são uma organização voluntária internacional que tem mais de 130 grupos pelo mundo. Criada em 1979, em Nova Iorque, por Curtis Sliwa, ao contrário dos “Hells Angels”, são pela paz, e partiram de um movimento de jovens para combater a violência, assaltos e depredação dos metrôs nova-iorquinos por perigosas gangues. Apesar de realizarem apreensões e prisões sem terem poder de polícia, os “Guardian Angels” tiveram apoio – se não oficial, ao menos dos discretos olhos fechados – dos dois últimos prefeitos da metrópole americana, o inovador Rudolph Giuliani e Michael Bloomberg, que capitalizaram os resultados dessas milícias nas contabilidades da chamada “tolerância zero” nova-iorquina contra o crime. Grupos de “Angels” chegaram a receber treinamento tático não oficial das polícias de NY e Chicago, e para passarem uma imagem de bons meninos, passaram a promover ações sociais e culturais comunitárias.

Alban Berg compôs um belíssimo concerto para violino, “À Memória de um Anjo” (1935), em homenagem a Manon Gropius (filha do grande arquiteto alemão Walter Gropius e Alma, ex-esposa do compositor Gustav Mahler), adolescente vitimada pela poliomielite. Pois anjos são as crianças que nascem com o coração mais puro, castidade que começam a perder durante a vida cotidiana, à medida que crescem. Anjos são também alguns poucos adultos e idosos, por sua bondade, amor ao próximo, à justiça e à paz. E, antes de todos esses, anjos são os nascituros que deixam a vida pouco antes ou logo após nascerem, mas plantam com seu curto sopro de vida mais uma semente para os que ficam.


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