
A aprovação unânime do projeto de adequações estruturais do Museu Histórico “Paulo Setúbal” (publicada na edição anterior, de especial de Natal) representa mais do que um avanço cultural no município: ela consolida um gesto concreto de responsabilidade, expressão madura de uma cidade que compreende que seu patrimônio não é apenas vestígio do passado, mas base para o futuro.
Em um momento em que Tatuí acaba de conquistar o status de estância turística do estado de São Paulo, preservar e qualificar seus equipamentos culturais torna-se tarefa estratégica — e o Museu “Paulo Setúbal”, um dos principais cartões de visita do município, volta ao centro das atenções com a dignidade que merece.
O gesto do Condephat ao aprovar o projeto, somado ao apoio financeiro da família Setúbal, configura alinhamento entre técnica, memória e compromisso social – tudo com o empenho evidente e sem trégua da Secretaria de Esporte, Cultura, Turismo e Lazer, sobretudo do secretário-adjunto Rogério Vianna.
O museu, instalado em um edifício de 1920, apresenta fissuras e problemas de fundação que exigem intervenções urgentes. Reconhecer essas fragilidades e agir é atitude necessária e responsável.
Nesse sentido, a parceria entre poder público e iniciativa privada revela-se exemplar: objetiva e orientada por um bem comum evidente: garantir que um dos mais relevantes equipamentos culturais de Tatuí continue cumprindo sua função.
As intervenções estruturais previstas, como o reforço de fundações com estacas do tipo “Mega”, a atualização do sistema de proteção contra descargas atmosféricas e a regularização das rotinas de prevenção a incêndios, podem parecer tecnicismos distantes do olhar cotidiano da população.
Contudo, são justamente essas ações discretas e essenciais que sustentam a vitalidade de instituições culturais. Sem segurança física, sem condições adequadas de preservação, nenhum acervo resiste.
E o museu que guarda parte da história de Tatuí — sua produção artística, documentos, narrativas, símbolos coletivos — só pode permanecer vivo se sua “casa” estiver igualmente protegida.
Há também um gesto simbólico que não deve ser subestimado. Quando uma família do alto mais alto escalão social – escapando muito da postura usual de desapreço à comunidade em geral, como denota a grande maioria da elite brasileira – oferece aporte financeiro de R$ 846,3 mil para garantir obras de preservação, a cidade recebe um recado importante: “a memória compartilhada é responsabilidade de todos”.
Não apenas do poder público, não apenas dos especialistas, mas de todos que reconhecem valor no legado de uma comunidade. Esse apoio, longe de ser mero patrocínio, materializa o reconhecimento da urgência e da relevância do projeto.
Em paralelo, a aprovação ocorre em um contexto especial para Tatuí. O município vive um ciclo de reafirmação cultural e turística, com o olhar voltado para o bicentenário em 2026.
Restaurar o Museu “Paulo Setúbal”, portanto, não é apenas prevenir danos, é preparar a cidade para receber visitantes, estudantes, pesquisadores e moradores com um equipamento seguro, atualizado e alinhado às normas mais recentes. É fortalecer, com gestos concretos, a identidade que sustenta a nova condição de estância turística.
Há ainda um mérito administrativo a reconhecer: a construção de um processo técnico sólido, conduzido com seriedade, que resultou em aprovação unânime pelo Condephat.
Isso demonstra que decisões sobre o patrimônio não podem ser improvisadas. Exigem laudos, diálogo, articulação institucional e compromisso com as diretrizes culturais que devem nortear o planejamento urbano. O museu, nesse cenário, transforma-se em exemplo de como o patrimônio pode ser cuidado com rigor e racionalidade.
O trabalho, no entanto, não se encerra aqui. Após a aprovação do projeto, seguem-se as etapas administrativas, igualmente necessárias, para viabilizar o início efetivo das obras. Caberá ao município conduzir esse processo com transparência, celeridade e atenção técnica.
O patrimônio não precisa apenas de recursos financeiros, precisa também de continuidade, acompanhamento e clareza de procedimentos. Ainda assim, a etapa concluída já diz muito sobre o que Tatuí escolhe ser.
Em tempos em que tantas cidades permitem que seus museus se tornem depósitos de si mesmas, abandonados e silenciosos, a decisão de restaurar o Museu Histórico “Paulo Setúbal” projeta Tatuí no sentido oposto: o de uma comunidade que deseja permanecer dona de sua história.
A cidade que vai celebrar 200 anos em breve demonstra, com essa iniciativa, entender que não há futuro relevante sem cuidado com o passado.
Se bem executada, a obra devolverá ao museu não apenas estabilidade física, mas também vigor simbólico. Um museu restaurado é sempre mais do que um prédio recuperado; é uma afirmação de que a memória coletiva continua sendo um valor a ser protegido. E, para uma cidade em plena ascensão turística e cultural, poucos sinais são tão importantes quanto esse.







