Milho, farinha, açúcar e até algodão são gêneros produzidos na freguesia

Ocupação territorial tem salto em 1826, quando ocorre a demarcação do rócio

Relação da produção de 1829 apresenta panorama sobre a produção agrícola e a característica agrícola de Tatuí; dados incluem Itapetininga e Paranapanema. (Foto: Maços de População 1818-1846)

Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias

Cristiano Mota

Embora estivesse na rota de tropeiros, Tatuí não se organizou economicamente – em seus primeiros anos – em torno do comércio de muares. Apesar de ter se beneficiado da relação de sua força produtiva com os tropeiros, o povoado manteve, por longos anos, uma diversificação limitada, com ênfase em gêneros de abastecimento interno. O foco era a subsistência.

Ao fim da década de 1820, a população da freguesia, já consolidada, especializa-se em produtos, como milho, farinha, açúcar e – sobretudo – rapadura, como se pode abstrair da “Relação de Produção da Villa de Itapetininga e Freguesias de Paranapanema e Tatuhy em o Anno de 1829”, assinada pelo sargento-mor de Itapetininga, Domingos Affonso Pereyra, em 27 de março daquele ano. O documento acompanha a lista da população, o mapa geral e as listas de nascimentos, casamentos e mortes.

Nesse período, a produção regional revela uma clara hierarquia: o milho dominava os campos, somando 116$800 (mil reis), seguido pelo feijão (1$800) e pelo arroz (1$049). Outros gêneros, como o amendoim ($800), o algodão ($100) e o fumo ($186) mostram tentativas de diversificação.

Destacavam-se, porém, as “ágoas ardentes” ($300), o açúcar (3$000) e, acima de tudo, a rapadura (10$000) – esta última, com papel de moeda informal no comércio regional.

A pecuária, dividida entre gados (2$200) e equinos (1$050), completava o perfil econômico.

Fundamentada na lavoura de sobrevivência e no cultivo de gêneros tropicais, a economia tatuiana integra-se ao circuito agroexportador de base escravista em função dos grandes engenhos. Essa transição, embora gradativa, acelera-se em apenas nove anos, alimentada por um modelo de trabalho desigual que cristaliza um sistema econômico profundamente assimétrico.

É nesse contexto que emergem, de um lado, a burguesia agrária escravista, e, de outro, as classes média e pobre tatuianas, representadas pelos pequenos proprietários rurais que são maioria em números, mas a minoria econômica. Esse marco pode ser perfeitamente visto nas listas de 1820 e de 1829. A proporção de fogos com nenhum ou com menos de cinco escravos (149), no primeiro ano, em contraste com as grandes propriedades, no segundo, é descomunal. Enquanto em 1820 apenas duas grandes propriedades detinham quase a totalidade dos escravos, em 1829, o número sobe para 14 fazendas com 214 cativos – um salto de 700% nessa mão de obra.

As pequenas propriedades produtivas, que representavam o grosso populacional, aumentaram 149% no período. Passaram de 150 para 325, contabilizando 175 fogos adicionais, média de 19,4 famílias que se mudaram para a nova freguesia (ou que se desmembraram em função de novos casamentos) por ano. Já as grandes propriedades sextuplicaram, atraindo novos moradores como Manoel Garcia Leal, de Sorocaba, com seus 22 escravos.

A evolução demográfica e espacial de Tatuí torna-se particularmente perceptível a partir de 1826, quando se verifica uma inflexão significativa na curva de crescimento do número de fogos. Esse salto quantitativo coincide com a demarcação do rócio, autorizada em 1º de fevereiro desse mesmo ano, o que possibilitou a ocupação territorial, o estabelecimento do traçado de ruas, a definição dos lotes e a implantação de serviços públicos, civis e religiosos – elementos que contribuíram para consolidar a configuração urbana da povoação.

De 1820 em diante, a sequência da ocupação dos fogos é mantida, com algumas mudanças entre um período e outro, por ocasião da chegada de novos moradores e da recontagem que, invariavelmente, oscilava, como em 1826, quando uma das listas apontava 245 propriedades e outra, do mesmo ano, totalizava 250. Ocorre que o segundo documento, provavelmente, deve corresponder a uma revisão “passada a limpo”. Entretanto, essa versão contém um erro: apresenta duas vezes o número 131, indicando moradores diferentes para um mesmo fogo. Após a conferência manual, chega-se ao número total de 251 fogos para esse último ano.