Memorial da América Latina sob ‘ocupação local’

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Divulgação

Raquel Fayad reproduziu fragmentos de cartas que se integram a projetos de artistas participantes

 

Inaugurado em 18 de março de 1989, no bairro da Barra Funda, em São Paulo, o Memorial da América Latina está, desde o dia 4 deste mês, sob “ocupação local”. O trabalho “Cartas para Marta Traba”, da artista plástica Raquel Fayad, integra projeto que compõe homenagem à Marta Traba Taín.

Denominado “Residência/Ocupação Marta Traba 15/30 – Cartografias Artísticas Contemporâneas”, ele surgiu em comemoração aos 15 anos da Galeria Marta Traba, que leva o nome da pesquisadora, crítica de arte e escritora argentino-colombiana.

Ela é apontada como uma das principais defensoras dos artistas latino-americanos, uma vez que batalhou pela valorização deles.

Em função da data e como forma de divulgar o trabalho da pesquisadora, Ângela Barbour – gerente da galeria e doutora em artes – entrou em contato com Lilian Amaral, professora de pós-graduação de arteterapia do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e pós-doutoranda.

A ideia era que as duas pudessem fazer um trabalho em conjunto para homenagear Marta Traba. Pensaram no formato de residência ou ocupação que pudesse evidenciar a trajetória da patrona da galeria do memorial e, ao mesmo tempo, promover o aumento da “apropriação” (visitação) do público sobre o espaço.

“Marta Traba batalhou muito pela arte latino-americana, só que quase ninguém ouvir falar dela, ou quase ninguém sabe que há uma galeria com o nome dela. Aí, trouxemos essa discussão para um processo de arte contemporânea”, explicou Raquel.

De acordo com ela, Ângela e Lilian pensaram num trabalho que pudesse envolver pesquisa em grupo e, sobretudo, promover discussão sobre a produção atual do mercado de arte.

Tudo isso para valorizar o nome de Marta Traba e a galeria que visa à divulgação das produções dos artistas da América Latina.

Para desenvolver o projeto, as duas lançaram “chamamento” na internet. Utilizaram rede social para divulgar o edital e convocar artistas.

Os inscritos apresentaram as propostas no dia 3 deste mês, no evento chamado “Dispositivo Disparador”, quando houve discussão e planejamento das etapas do projeto.

Raquel participou do evento, apresentou proposta e teve trabalho integrado ao de outros artistas. “Cartas para Marta Traba” envolve tiras de borracha de câmaras de pneus de veículos e fragmentos de cartas de amor, coletadas pela artista junto a pessoas que visitaram o memorial durante a instalação.

A proposta da artista local – que é coordenadora do Museu Histórico “Paulo Setúbal” – envolve o entorno do Memorial da América Latina e o público que passa por ele.

Raquel explicou que a borracha representa os veículos que passam pelo entorno nas avenidas e ruas que “o dividem da Barra Funda”.

Já as cartas representam as histórias das personalidades que são a “essência do bairro”. “Ela (a essência) está sumindo com as construções dos grandes prédios que estão apagando o início da Barra Funda, com os imigrantes”, disse.

A ideia de incorporar as correspondências como homenagem a Marta Traba está ligada ao trabalho autoral de Raquel, intitulado “Cartas de Amor”.

“Aqui (no Memorial), eu não peço amor no sentido de relacionamento, peço amor no sentido do que move as pessoas e que mexe com as emoções”, esclareceu.

Os fragmentos obtidos pelas cartas são continuação das tiras de borrachas de pneu e estão espalhados em um “caminho” traçado por toda a extensão da galeria.

“Cada tira de borracha é uma pessoa. Quando ela (a tira) chega ao chão, é acompanhada por fragmentos de textos que são a síntese do que a pessoa me enviou. É o que ele viveu, que mais a marcou”, destacou a artista.

Raquel uniu forças com os trabalhos de outros artistas participantes. “De repente, virou um coletivo que se amarrou e grudou nas outras propostas”.

A integração gerou o que os artistas chamaram de “ilhas” de trabalhos. Em geral, eles uniram poesia e artes visuais montadas de duas diferentes formas.

Os participantes poderiam escolher entre residência (permanecer no Memorial para participar de debates e palestras) e ocupação (somente montagem).

“Como eu tenho trabalho aqui (em Tatuí), não poderia ficar todos os dias lá. Aí, me inscrevi só para ocupação”, contou Raquel. A artista local montou a instalação no dia 4, a partir da curadoria de Ângela e Lilian.

“Ficou muito interessante. De repente, a exposição inteira teve trabalhos conversando uns com os outros, mesmo porque trocamos e-mails e um acompanhando o trabalho do outro”, descreveu.

Os artistas também participaram de mesas-redondas, voltadas a debates sobre pesquisas e produção.

No último dia da interação entre os expositores, houve apresentação do catálogo “Co+Labor+Ação 1” e da performance “Ânsia e Deriva”, com Andréa Barbour, bailarina do “Teatro Mágico”.

Além da troca de experiências, Raquel destacou que a exposição permitiu a ela uma interação maior com o público que visitou o Memorial da América Latina.

A artista fez a montagem no dia 4, processo que pôde ser acompanhado por quem passou pelas galerias, das 10h até o fechamento da visitação.

“Desde o início da montagem, já era exposição. Várias pessoas que estavam lá não tinham mandado carta, mas me passaram histórias pessoais que lembravam a respeito de uma carta de amor. O que aconteceu foi fantástico”.

Os tatuianos que não tiveram a oportunidade de visitar o trabalho de Raquel em São Paulo – “Cartas para Marta Traba” fica em exposição até este domingo – poderão vê-lo em breve.

A artista informou que está viabilizando a montagem de uma mostra em “vários suportes” (papel, pintura, instalação e objeto), todas direcionados ao contexto do tema central: o amor.

“Toda instalação pode ser montada da mesma forma que pode ser desdobrada. Então, já tem uma proposta para Tatuí. A questão é que teria de ser em um espaço grande, com piso onde poderia receber toda a escrita”, avaliou.

“Cartas de Amor” envolverá, principalmente, pessoas de Tatuí. O passo seguinte para a exposição será a coleta das cartas.

“Em breve, as pessoas me verão em uma praça sentada numa mesinha recolhendo as cartas”, comentou. Raquel prevê que o trabalho (colaborativo) seja feito até o final do ano.