Matemática a favor da vida (ou da morte)

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Em alguns momentos, tem-se a impressão de existir dois mundos, dois países, duas cidades… Em uma dessas dimensões, não há mais perigo, estando já a pandemia de coronavírus devidamente extinta; em outro, o apocalipse está prestes a ceifar vidas ainda em número incalculável. O grande problema é que não há duas dimensões.

Outro problema – quase do mesmo porte – é que os fatos reais estão há tanto tempo perdendo o valor, o significado, que boa parte da população encontra-se tão acostumada a consumir fake news por rede social que não consegue mais reconhecer – e aceitar – a realidade que “não” lhe convém.

Ao longo desta semana, já havia filas em cemitérios, Brasil afora, para o sepultamento apressado de vítimas da Covid-19, mas a politização da pandemia chegou a tal ponto que até o chocante perde o impacto em favor da disputa (besta) entre “negacionistas” e “quarentistas”.

É como se essa malfadada eleição de 2018, entre extremistas, já não tivesse acabado, mas agora tendo em jogo não os votos dos incautos, mas a vida das pessoas e a sobrevivência de milhões de empregos e empresas. Piorou, portanto.

A despeito disto, parece não adiantar repetir à exaustão que, sim, a sobrevivência da população também depende da economia, mas que, neste momento, o isolamento é necessário para se dar tempo ao devido preparo do sistema de saúde, de tal maneira que, quando a pandemia chegar ao ápice, menos pessoas morram por falta de atendimento.

Não, para muitos, não adianta: o negócio é abrir o comércio! Como se a população fosse sair desembestada a comprar tudo pela frente, ansiosa que está por gastar, e não por resguardar seus familiares – os mais longevos em especial.

De outro lado, óbvio que o país não pode ficar em quarentena por tempo indefinido. Se há filas de caixões, também há gente se empurrando em fila de banco para tentar receber o benefício do governo – aliás, de maneira quase humilhante, como se estivesse ganhando esmola…

Se as atividades econômicas não retornarem em tempo hábil – ou melhor, no devido tempo -, as filas de desesperados só tendem a aumentar, engrossadas por mais desempregados e empresários falidos.

No entanto, em meio a essa pandemia de insanidade – essa, sim, que abate o Brasil bem mais que outros países -, sobra oportunismo e falta sensibilidade, empatia.

Há situações até de franca desumanidade, com explícito desprezo à vida alheia (o que dispensa exemplos, pelo menos a quem tem se dado ao trabalho de acompanhar um mínimo do noticiário nacional, o verdadeiro, não o do “zap”).

É fundamental, portanto, a retomada das atividades, porém, com responsabilidade, cautela e, claro, acompanhamento constante, modulando-se as restrições conforme o avanço das infecções.

E tudo isto sem perder foco nas orientações dos profissionais respeitados da área médica (não dos adeptos das conspirações paranoicas) e de suas instituições afins, como a Organização Mundial da Saúde.

Neste momento, inclusive, Tatuí dá início a este processo. A prefeitura, por meio do Comitê Municipal de Prevenção e Enfrentamento à Covid-19, já realizou alterações no decreto que determina a suspensão de atividades e serviços considerados não essenciais na cidade (reportagem nesta edição).

Com a mudança, aumentou a lista de serviços autorizados a funcionar e comércios relacionados à construção civil e serviços de saúde, os quais já podem abrir as portas, respeitando-se recomendações para evitar a contaminação.

De acordo com o Executivo, foi considerada a situação epidemiológica no município para a flexibilização da quarenta.

O novo decreto ainda determina que os estabelecimentos que podem retomar as atividades devem manter filas com espaçamento mínimo de 1,5 metro entre as pessoas e tomar os devidos cuidados de higienização.

Cada comércio deve disponibilizar, na entrada do estabelecimento e em outros lugares estratégicos de fácil acesso, álcool em gel 70% para a utilização dos funcionários e clientes, além de higienizar, no início das atividades e após cada uso, todas as superfícies de toque.

Já no lado externo, também cabe ao próprio estabelecimento orientar as pessoas a manter o distanciamento mínimo de 1,5 metro umas das outras, demarcando o solo. O decreto aponta que o local deve garantir aos funcionários o uso de máscaras, de pano ou descartáveis.

Os comércios ainda devem minimizar os riscos de contágio da Covid-19, “informando, de forma ostensiva e adequada, sobre os riscos de contaminação aos clientes e propiciar boa ventilação dos ambientes”.

Por meio da medida, também fica autorizado a todos os estabelecimentos comerciais o recebimento de carnês. A ação deve ser realizada em área específica do estabelecimento, devendo os funcionários responsáveis adotarem todas as medidas de prevenção ao contágio, principalmente, evitando-se aglomerações de pessoas dentro e fora dos recintos.

Apesar da flexibilização, o decreto ainda recomenda a manutenção do distanciamento social, salvo quando efetivamente necessário, evitando-se aglomeração de pessoas.

Também esclarece que as medidas poderão ser alteradas de acordo com as recomendações do comitê municipal.

A flexibilização trata-se de medida inescapável- até pela disposição – ou indisposição – de boa parte da população e do empresariado, compreensivelmente preocupada com a manutenção de seus empregos e das próprias empresas.

Não obstante, apenas, a matemática não pode ser ignorada. Há estudos – sérios – apontando consequências muito díspares conforme o grau de adesão à quarentena. Isto implica em mais – ou menos – infectados e, portanto, menos – ou mais – vidas supostamente a serem perdidas “precocemente”.

De acordo com o coordenador do Centro de Contingência do coronavírus em São Paulo, o médico infectologista David Uip, a adesão ideal para controlar a disseminação da Covid-19 é de 70% da população.

“Se a taxa continuar baixa, o número de leitos disponíveis no sistema de saúde pode não ser suficiente para atender toda a população que venha a ser infectada pelo vírus”, explicou.

Na cidade, a taxa de adesão ao isolamento tem sido uma das maiores da região, na média de 55% – o que é muito bom.

Contudo, o mesmo centro paulista divulgou, nesta quarta-feira, 22, um estudo que conclui o seguinte: com 70% de adesão, o estado de São Paulo precisaria de 2.120 novos leitos em hospitais para dar conta dos enfermos; já com 50% de isolamento, seriam necessários “17.915”!

A diferença é brutal, como é brutal, neste momento dramático, a responsabilidade de todos nós – autoridades, políticos, empresários, trabalhadores, desempregados…

Todos seremos responsáveis pelo que vier a acontecer logo à frente nos dois campos: no da economia e no chamado “Santo”, também conhecido como cemitério.

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