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    Infância é direito, não privilégio

    Daniela Tafner *

    Falar sobre o Mês das Crianças nunca será uma narrativa igual para todos. Cada um de nós viveu momentos únicos que marcaram a infância. Mas, para as crianças negras do nosso país, a desigualdade de direitos e as violações se repetem e se perpetuam ao longo da vida.

    Os números mostram uma infância desigual: 70% das crianças negras estão mais expostas à pobreza, 30% têm maior risco de exclusão escolar e 75% das mortes violentas de crianças e adolescentes no Brasil atingem meninas e meninos negros, de acordo com o Unicef.

    Com frequência, as notícias mostram crianças mortas “por acidente” – e quase sempre são negras. São elas que percorrem longos caminhos para acessar saúde e educação.

    Do ponto de vista comercial, a data (Dia das Crianças) é celebrada como um convite à alegria, ao consumo e ao resgate da criança que existe em cada um de nós.

    Mas, na realidade, a maioria das crianças brasileiras não terá brinquedos, locais seguros para brincar ou alimentação adequada. Entre as crianças negras, 65% estão submetidas ao trabalho infantil e ao desrespeito, e 63% vivem em situação de violação dos direitos da criança e do adolescente.

    Quantas bonecas negras encontramos nas prateleiras? Quantos brinquedos trazem crianças negras nas embalagens? O brincar é essencial, pois é por meio dele que a criança transforma o imaginário em realidade. No entanto, essa realidade muitas vezes não inclui a pessoa negra. Ela não se vê, não se percebe presente.

    A infância nunca é neutra: é atravessada por políticas públicas e práticas que incluem ou excluem. As escolas, os serviços de saúde e a sociedade em geral devem ser espaços acolhedores para as crianças negras, que enfrentam desigualdades naturalizadas no cotidiano.

    Quando o Estado e a sociedade falham em garantir direitos básicos, também falham em proteger o futuro. E esse futuro tem cor: a cor da pele das crianças negras.

    Basta lembrar de Machado de Assis, que por décadas foi retratado como branco para que sua genialidade fosse aceita e valorizada. Uma forma simbólica de excluir a inteligência e a potência das pessoas negras.

    Nossas crianças negras precisam se ver nos livros, nas histórias, nas paredes da sala de aula. Precisam ser ouvidas e elogiadas por sua beleza e inteligência. A educação antirracista começa na infância, e começa em nós. Ela salva vidas.

    Neste Mês das Crianças, que possamos ir além dos brinquedos e doces. Que possamos presentear nossas crianças negras com dignidade, escuta, afeto e justiça.

    Porque infância é direito, não privilégio.