Ex-estudante da cidade vai para Harvard

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Rafael Segato

‘Ponto máximo da minha carreira até hoje’, definiu o geneticista Eduardo Del Bem, selecionado para pós-doutorado nos EUA

 

A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, é uma das instituições educacionais mais prestigiadas do mundo, tornando-se destino almejado por grande parte dos estudantes e pesquisadores do planeta.

É para lá que vai o geneticista e ex-estudante de Tatuí Luiz Eduardo Vieira Del Bem, 29, mais conhecido por “Dudu Del Bem”, selecionado para bolsa de pós-doutorado na universidade.

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Del Bem é formado em biologia, fez mestrado em genética e biologia molecular e concluiu doutorado recentemente, em janeiro deste ano, na mesma área, todos pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

O pesquisador nasceu na cidade de Botucatu (SP), mas considera Tatuí como sua verdadeira terra natal, onde passou toda a infância e adolescência. Filho do advogado Luiz Del Bel Junior e da professora Márcia Aparecida Del Bem, o geneticista viveu no município até os 17 anos.

Ele estudou no Centro Educacional Sesi, de 1ª a 8ª série, e na escola Objetivo nos três anos do ensino médio. Saiu de Tatuí para fazer faculdade em Campinas, onde mora atualmente.

Apaixonado por ciência desde muito cedo, Del Bem teve as primeiras “descobertas científicas” ainda criança, quando conseguiu encontrar fósseis (restos de seres vivos normalmente preservados em rochas) de plantas, na fazenda do avô, na cidade de Bofete (SP), no começo dos anos 90.

Inicialmente, as descobertas não foram recebidas com tanto entusiasmo pelos parentes. Contudo, mais tarde, os fósseis se tornariam um capítulo importante e curioso na história do estudante, que participou de estudo aprofundado na faculdade com o material encontrado na infância.

“Eu passei minha infância e adolescência procurando fósseis, eu sabia que um dia conseguiria fazer alguma coisa com eles. Mas, era uma brincadeira pra mim”, lembra Del Bem. O fóssil encontrado era de uma planta extinta, parente da samambaia, chamada tecnicamente de “licófita arborescente”.

Quando foi para a universidade, aos 17 anos, o então estudante de biologia conheceu uma professora de paleontologia (ciência que estuda a vida do passado da Terra), a quem mostrou os fósseis encontrados na infância. Descobriram que se tratava do fóssil de uma planta descrita por dois pesquisadores europeus em viagem pelo Brasil no final do século 19.

“Eles encontraram, no Brasil, alguns exemplares desses fósseis, mas que estavam mal preservados. Por isso, acabaram descrevendo essa espécie de forma mais ou menos equivocada. Esses fósseis estavam guardados na Alemanha, mas foram destruídos em um bombardeio. Não existia mais nenhum em museus no mundo”, conta.

Exceto aqueles encontrados por Del Bem quando criança e alguns outros encontrados em Piracicaba, pelo grupo da professora, que estavam mais bem preservados que encontrados pelos pesquisadores no século 19.

Os estudos produzidos com o material permitiram uma série de novas conclusões. “Entendemos muito melhor o que essa planta era e o ambiente em que ela vivia”, contou. Atualmente, o geneticista viaja para diversos lugares do mundo à procura dessas relíquias.

Evolucionista

A questão da evolução sempre foi outro assunto de interesse para o pesquisador. Perguntas como “quem somos?” e “de onde viemos?” aguçaram a curiosidade de Del Bem.

Atualmente, a genética (ciência que estuda a constituição dos genes, a hereditariedade e a variação dos organismos), a genômica (estudo dos genomas, que são o conteúdo completo da informação genética de uma espécie ou indivíduo) e a evolução (mudança das características hereditárias da população de uma geração para outra) tornaram-se as principais áreas de trabalho do geneticista. “Dentro da genética, temos vários campos. Eu sou um evolucionista, estudo a evolução”, resume.

Genética e genômica são áreas relativamente novas e que têm apresentado inovações através das pesquisas científicas nos últimos anos.

“A genética tem em torno de 110 anos e a genômica, menos de 20. Tudo que temos de lá para cá é inovador. Eu trabalho com a evolução dos genomas, para entender como eles evoluíram e são do jeito que são”, conta.

Ele também ministrou cursos de graduação e pós-graduação na Unicamp, USP (Universidade de São Paulo), de Ribeirão Preto, e no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).

Pós-doutorado

De acordo com o geneticista, no pós-doutorado, o profissional já ocupa posição de pesquisador, e não mais de aluno. “O último curso acadêmico que existe é o doutorado. No pós-doutorado, você é um pesquisador assistente dentro do laboratório de algum pesquisador chefe”, explica.

Conquistar a oportunidade em Harvard foi um processo longo, rigoroso e criterioso. Del Bem ficou sabendo que a vaga estava aberta no laboratório da universidade estadunidense através de um amigo pesquisador.

Del Bem, então, decidiu participar da concorrência. Para a seleção, é preciso cumprir uma série de exigências: apresentar currículo com o título de doutor, cartas de recomendação escritas por professores ou outros profissionais da área com os quais a pessoa tenha trabalhado, ter proficiência comprovada no inglês, participar de entrevista pela internet e apresentar carta de motivação.

“Essa carta é muito importante. É nela que você diz por que quer a vaga e quais são seus interesses científicos para o futuro”, conta.

O processo de seleção envolveu muitas conversas e demorou pelo menos três meses. Além da entrevista formal, existiram muitos “debates” para se chegar a um projeto ideal tanto para o grupo de pesquisa da universidade quanto para o geneticista. “Nós já temos que delimitar o projeto a ser pesquisado antes de ir, isso é essencial”, revelou.

O projeto que a instituição pretendia desenvolver estava em sintonia com os interesses de Del Bem. O futuro tema de estudo será a evolução de cromossomos sexuais. “A única coisa que não casava era o modelo de estudo. Todos os meus experimentos prévios foram feitos em plantas. Lá, eles estudam em uma mosca”.

A mosca em questão é a “Drosophila melanogaster”, considerada o modelo mais importante de genética até hoje. “Estudos realizados com essa mosca ganharam alguns prêmios Nobel e foram essenciais no desenvolvimento da genética no século 20”, explicou.

Havia apenas uma vaga disponível para a bolsa de pós-doutorado em Harvard. Del Bem não soube precisar quantas pessoas concorreram a ela.

O contrato mínimo do pós-doutorado é de dois anos, podendo variar. Durante esse período, o pesquisador receberá salário no valor de US$ 2.500 ao mês. “As bolsas de pós-doutorado são pagas por nível, e esse é o valor mínimo. Num segundo pós-doutorado, a remuneração cresce”, explicou ele, que tem planos de fazer dois pós-doutorados.

De acordo com Del Bem, não existe horário de trabalho definido. As atividades são baseadas em metas. “Na ciência, é preciso resolver problemas, apresentar resultados e responder perguntas. A condição mais normal é varar as madrugadas fazendo pesquisas”, contou. No período que ficará na universidade, além delas, Del Bem dará aulas em cursos de graduação.

Ele estava em Portugal participando de um trabalho em conjunto com a Universidade de Lisboa quando recebeu o e-mail com a resposta positiva da universidade.

“Com certeza, esse é o ponto máximo da minha carreira até hoje. Acho que qualquer pesquisador gostaria de ir para Harvard. Para um brasileiro que trabalha com ciência, isso seria mais ou menos comparável com um jogador da Islândia jogar no Barcelona. Então, é um feito bastante considerável”, analisou.

Além da vaga de pós-doutorado em Harvard, o geneticista conseguiu outra bolsa, na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Como não pode fazer os dois pós-doutorados ao mesmo tempo, optou por ir para a instituição dos EUA.

“Harvard é a melhor universidade do mundo, para qualquer área. Cambridge é a segunda, é a meca da ciência. Cientistas como (Isaac) Newton e (Charles) Darwin eram de lá. Mas, nos últimos cem anos, Harvard ganhou uma posição de destaque que é quase impossível competir”, dimensiona o geneticista.

Para Del Bem, é difícil mensurar a importância da instituição para o mundo. De acordo com ele, pesquisadores filiados a Harvard já receberam 151 prêmios Nobel.

Se a universidade fosse um país, seria o segundo maior vencedor do Nobel. A Inglaterra, o segundo país com mais vitórias, teve 120 cientistas premiados.

“Uma única universidade conseguiu fazer mais do que a maior parte dos países do mundo. Isso é absolutamente notável”, considera. Del Bem embarca para os Estados Unidos em janeiro de 2014.

A universidade

Com 377 anos de história (foi fundada em 1636), a universidade de Harvard fica no Estado de Massachusetts. A instituição tem a quarta maior coleção de livros do mundo, com mais de 150,5 milhões de títulos.

Sete presidentes dos EUA graduaram-se em Harvard: John Adams, John Quincy Adams, Rutherford B. Hayes, John F. Kennedy, Franklin Delano Roosevelt, Theodore Roosevelt e Barack Obama.

Além disso, personalidades renomadas como Bill Gates, ex-presidente da Microsoft, e Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, também foram alunos da universidade.


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