Dois mais 2 ainda é 4, mesmo na pandemia

252

Ainda se encontram longe do consenso – em Tatuí e no Brasil – diversas questões envolvendo a pandemia de Covid-19. Entre as quais, a prevenção (se existem, ou não), o tratamento (se existe de maneira precoce, ou não), as vacinas (se confiáveis e eficientes, ou não), os medicamentos polêmicos (se eficazes, ou simplesmente perigosos).

Outra dúvida recorrente – que implicaria em colossal conspiração entre a imensa maioria da comunidade científica, os meios de comunicação mundiais e os políticos “comunistas” (se é que isto ainda existe fora da mente entorpecida pelo fanatismo), é a de que as avassaladoras mortes diárias atribuídas à doença são mesmo frutos dela.

Frases do tipo “agora toda morte é por Covid’, ditas de maneira irônica e grosseira são muito comuns – embora tenham diminuído em intensidade, na mesma medida, não por acaso, em que mais e mais famílias são afetadas pelo Sars-COV 2. Aí, quando o drama não é mais dos outros, as opiniões mudam.

Não obstante, as polêmicas seguem, sustentando a desagregação bem ao gosto dos movimentos extremistas – este, sim, mais vivos do que nunca, especialmente no espectro ostensivamente agressivo da extrema-direita.

A lógica é: quanto mais brigas e desinformação, melhor para os políticos “off label” (para brincar com palavra da moda, graças à cloroquina e ao “purgante”, como diriam nossos avós).

Ou seja, aqueles políticos que não se enquadram na bula convencional, a qual, se não é perfeita, certamente é muito menos ruim que a receita dos governos absolutistas, aqueles que não aceitam oposição e vêm solução para tudo somente por meio de bala na cara!

(“Cala a boca, jornalista” não seria só para nós, da imprensa, mas para todo brasileiro que não beijasse as botas de uma nova ditadura – quando não, bala na cara!).

Longe das discrepâncias (e aqui um consenso atemporal), está a matemática com seus números inquestionáveis (claro, considerando que ninguém chegaria ao ponto de inventar fantasmas para dramatizar ainda mais a pandemia, embora até esta teoria da conspiração seja ponderada por alguns).

Portanto, observemos os números de Tatuí para evidenciarmos, de maneira muito clara, o desastre humanitário causado pela pandemia. Na prática: entre janeiro e abril deste ano, morreram 529 tatuianos, indicando acréscimo de 90,97% em relação ao mesmo período de 2020.

É importante ressaltar que, no ano passado, quando nos quatro primeiros meses faleceram 277 pessoas, a Covid-19 já somava vítimas em Tatuí desde março. Em comparação ao primeiro quadrimestre de 2019, quando ocorreram 254 óbitos, o índice é quase igual, com mais 92,36%.

Esses números, muito distantes das teorias conspiratórias, demonstram algo bem avesso ao negacionismo, inclusive: deixam evidente a possibilidade de subnotificação de óbitos por Covid-19, dado nada justificar, fora isso, tamanha diferença.

Óbvio, como inúmeros especialistas em saúde têm alertado, em razão da alta demanda de cuidado aos acometidos pela Covid-19, demais enfermidades estão causando mortes por falta de tratamento – o que também não deixa de ser outra tragédia.

Ainda assim, Tatuí contabilizou, oficialmente, 146 falecimentos em decorrência do novo coronavírus nos quatro primeiros meses deste ano. A considerar-se o total de 529 frente aos 277 do ano anterior, chega-se a 252 óbitos a mais – ou seja, com 106 ocorrências além das atribuídas à pandemia.

Os dados são apontados por levantamento divulgado no Portal da Transparência do Registro Civil, órgão administrado pela Arpen-Brasil (Associação Nacional dos registrados de Pessoas Naturais).

O Portal da Transparência é atualizado diariamente por todos os cartórios do país. As estatísticas se baseiam nas declarações (documentos preenchidos pelos médicos com os falecimentos) que dão origem às certidões de óbito.

Os quatro primeiros meses tiveram aumento crescente no número de mortes. Em janeiro, os registros haviam apresentado salto de 30,98% nas mortes por causas naturais, saindo dos 71 óbitos em 2020 para 93 em 2021.

No segundo mês do ano, os números subiram 43,10%, passando de 58 óbitos em fevereiro de 2020 para 83 no mesmo mês de 2021.

Já nos dois últimos meses do primeiro quadrimestre deste ano, o Cartório de Registro Civil de Tatuí recebeu mais que o dobro de declarações de óbitos na comparação com o ano passado.

Em março, período que coincide com a fase mais crítica da pandemia de Covid-19 no país, as mortes saltaram 122,07%, com aumento de 77 em 2020 para 171 em 2021.

A tendência de aumento seguiu no mês de abril, com salto de 71 para 182 mortes – o que representa crescimento de 156,33%.

Desde março de 2020, a plataforma do Registro Civil passou a informar dados de óbitos por Covid-19 (suspeitos ou confirmados) e, ao longo dos meses, novos módulos abrangendo mortes por doenças respiratórias e cardíacas, com filtros por estado e município.

As mortes por causas naturais são resultado de doença ou mau funcionamento interno dos órgãos, e, nesta classificação, estão os óbitos por Covid-19, a SRAG (síndrome respiratória aguda grave), pneumonia, insuficiência respiratória e septicemia (choque séptico).

Até às 12h de terça-feira, 11, a tabela de registro de mortes declaradas nos quatro meses de 2021 apontava 28 por insuficiência respiratória, 41 por pneumonia, 29 por septicemia, um por causa indeterminada (ligada a doença respiratória, mas não conclusiva) e oito por SRAG.

Além disso, o levantamento mostrava as 146 mortes por Covid-19 em 2021. A assessoria de comunicação do portal explica que, quando na declaração de óbito há menção de Covid-19, coronavírus ou novo coronavírus, considera-se como causa a Covid-19 (suspeita ou confirmada).

Entre as causas cardiovasculares, o levantamento apontava 26 mortes por AVC, 37 por infarto e 113 por causas vasculares inespecíficas. Mais cem óbitos estavam relacionados a outros tipos de doenças.

No mesmo período de 2020, houve um registro de morte por Covid-19, um por síndrome respiratória aguda grave, 52 por pneumonia, 12 por insuficiência respiratória, 27 por septicemia e um por causa respiratória indeterminada.

Além disso, nos quatro primeiros meses do ano passado, 29 pessoas faleceram por AVC, 18 por infarto, 14 por outras causas cardiovasculares inespecíficas e outras 122 relacionadas a demais doenças.

Frente a tantos números, sustentar que dois mais dois são três só não fica mais difícil que deixar de admitir que o país vive uma tragédia, dramaticamente acentuada pela subtração de consenso e adição de oportunismo golpista com alienação.