
Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias
Cristiano Mota
Tatuí possui área total de 524,2 km2. É 34 vezes maior que São Caetano do Sul, que ocupa 15,3 km2; tem quase duas vezes o tamanho de Santos, que dispõe de 280 km2; e é um pouco maior que Sorocaba, município de 449,872 km². Sua extensão territorial equivale a 73.417 campos de futebol.
Na região, a cidade só perde em tamanho para Itapetininga, de onde, primeiro, formou-se e, depois, desmembrou-se. Itapetininga é o terceiro maior município, dentre os 645 do estado de São Paulo, em volume de terras, dispondo de um território de 1.789,35 km².
A dimensão atual que, de certa forma pode impressionar – e até surpreender –, era ainda maior no início do século 19. Desde que se tornou vila, Tatuí “acostumou-se”, como ocorria aos novos territórios em formação, a conviver com as alternâncias de perímetro.
Em termos territoriais, Tatuí começa a separar-se de Itapetininga em 11 de agosto de 1826, data em que a Câmara daquela vila procede a medição e a demarcação que havia sido solicitada pelos moradores.
O rócio foi demarcado em forma de quadra (um quadrado). Por isso, as medições descritas por Minhoto (1927) apontam para um terreno de 750 por 750 braças de lados, totalizando uma área de 562.500 braças quadradas.
No documento, o historiador tatuiano adotou o ajuste tradicional de medidas, na qual 5.000 braças quadradas correspondiam a um alqueire paulista – unidade historicamente utilizada para mensuração de áreas no contexto regional.
Entretanto, na padronização moderna, um alqueire paulista equivale a 10 mil braças quadradas. Assim, a área total concedida pode ser expressa de duas formas: pela medida antiga, 112,5 alqueires paulistas; pela atual, 56,25. Embora os valores difiram, a área real não muda. Em unidades contemporâneas, o território original tatuiano abrangia aproximadamente 2,72 km².
O marco inicial, de pedra, foi fincado com a presença de duas testemunhas no local denominado Capão Bonito. Esse ponto ficava próximo ao ribeirão que servia de abastecimento de água (“aguada”) e abaixo da estrada para Porto Feliz.
O símbolo foi instalado a “uma braça e meia” (cerca de 3,3 metros) do curso d’água. Para a fixação, como mandava o rito, uma das testemunhas olhou para o norte e a outra, para o sul. Na sequência, seguindo o protocolo da época, o porteiro João José de Abreu fez o anúncio, em voz alta, da demarcação. Só então é que a Câmara determinou ao piloto (como era chamado o agrimensor) iniciar a medição.
O perito recebeu a ordem de formar a quadra, seguindo a direção do vento. Partiu, primeiro, para o lado sudoeste do marco até atingir 750 “Braças braceiras” (um termo usado para qualificar a área medida).
Ao final desse ponto, levantou outro marco de pedra, com uma das testemunhas, no campo e beira de um capão (uma densa mancha de mata nativa, isolada no meio do campo, que servia como ponto de referência). Ali, também houve anúncio da medição em voz alta.
Depois, o perito, as testemunhas e os ajudantes seguiram para o nordeste até alcançar 750 braças quadradas, onde se levantou um terceiro marco de pedra, também “ao pé de um capão”. Lá, repetiram o protocolo, anunciando a demarcação na presença das testemunhas.
Naquele ponto, o piloto recebeu instruções para que fizesse “sobrecarga” (corrigisse o alinhamento), seguindo ainda para o sudeste até um córrego próximo à “casa do Rolim”. Ali, à distância de cinco braças (11 metros), foi fixado o terceiro marco de pedra, ladeado por duas testemunhas. Por fim, o juiz presidente e os oficiais da Câmara determinaram o fechamento do rócio.
Na transcrição, Minhoto menciona “dois trechos em nordeste”, o que denota um equívoco, pois a geometria exige rumos alternados a cada 90°. Desta forma, o piloto teria partido do marco inicial em direção ao sudoeste (750 braças), depois, virado 90° para o nordeste (outras 750 braças), em seguida, 90º para o sudeste e, assim sucessivamente, até fechar o quadrado.
A discrepância no documento original provavelmente decorre de erro de registro do escrivão, ou de omissão do ajuste angular, comum quando se usavam cordas e bússolas imperfeitas.
Os trabalhos foram acompanhados por Mariano José de Oliveira, Francisco Alves de Medeiros, João Vieira de Medeiros, Bento Vieira de Britto, Joaquim Vieira de Morais, Bento João de Souza, Joaquim Gonçalvez Rodriguez, o arruador Archangelo da Rocha e Castro, Francisco Antonio da Costa, além do porteiro, e registrados pelo escrivão Miguel Antonio de Almeida.
Para a demarcação, foram utilizadas cordas manuseadas pelos ajudantes que, assim como o perito, eram chamados de louvados. O termo significa que esses profissionais eram aprovados (homologados) pela Câmara de Itapetininga, que os validava como aptos a exercer suas funções.
Um dia depois, em 12 de agosto, o escrivão lavrou o termo de abertura das quatro primeiras ruas. O processo ficou a cargo do arruador juramentado, acompanhado de diversos trabalhadores. Entre eles, os louvados: um piloto e os ajudantes de cordas.
De acordo com documentos apresentados por Minhoto, os trabalhos custaram 83$140 (mil réis), duraram oito dias e envolveram despesas com o juiz, vereadores (com o recurso indo ao edil mais velho), o procurador do conselho, o alcaide e o próprio escrivão.
As custas, que deveriam ter sido pagas pelos moradores, acabaram por ficar a cargo do antigo proprietário, o brigadeiro Jordão.






