
Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias
Cristiano Mota
A geografia tatuiana, como consta nos mapas atuais, difere pouco da época de sua fundação em termos de perímetro. Em que pesem as anexações e desanexações de várias freguesias, Tatuí manteve, em sua posse, áreas que são marcos de sua existência primária, como os famosos Campos do Bemfica e do Paiol.
Sua ocupação, porém, é resultado de um processo de séculos, influenciado pelas primeiras incursões “serra acima” com objetivo de descobrir e explorar ouro, prata e ferro; da política de ocupação do sertão paulista, que deixava o litoral em busca de novas áreas de cultivo; do declínio das monoculturas (cana e café); das disputas administrativas e eclesiásticas em torno da Fábrica de Ferro de Ipanema; e da introdução da cultura do algodão.
Historicamente, convencionou-se dizer que Tatuí foi fundada em terras dos frades carmelitas, doadas pelo brigadeiro Jordão. Nem uma afirmação, nem outra são verdades em si mesmas. Tampouco, equívocos.
A formação do território tatuiano tem, na figura de Jordão, um personagem importante, por vezes, emblemático e, na maior parte dos textos referenciais, romantizado; porém, pouco discutido.
É o brigadeiro quem, de fato, possibilita a abertura do rócio ao ceder parte de suas propriedades. No entanto, esse ato é resultado de um processo que envolve pressão popular organizada – começa nos fogos e se estende aos mais altos órgãos da província, com idas e vindas de despachos – que só se resolveu após complexas negociações.
A demarcação do rócio representa o primeiro episódio documentado de especulação imobiliária da história local — prática que, dois séculos depois, ainda se faz presente.
Antes mesmo de sua elevação à categoria de vila, o povoado já enfrentava entraves fundiários. Ao reivindicarem um quarto de légua em quadra para erguerem suas casas, os moradores da nova freguesia esbarraram em interesses particulares.
A decisão, que deveria ser meramente administrativa, revelou-se um jogo de conflitos velados, silêncios e omissões, com cessão do terreno ocorrendo apenas após consulta ao imperador e quando todas as possibilidades haviam se esgotado.
Os documentos oficiais do Conselho do Governo de São Paulo – especialmente os que registraram as sessões realizadas entre 1824 e 1826 – permitem identificar contradições que marcaram profundamente o processo de estabelecimento do povoado tatuiano.
São acontecimentos encadeados que desconstroem a narrativa até então contada de forma linear e harmônica, segundo a qual a freguesia teria sido constituída a partir de atos de benevolência e interesse coletivo.
O pedido da cessão de terreno é lido pela primeira vez na quinta sessão preparatória do Conselho da Presidência da Província de São Paulo em 17 de novembro de 1824.
É o terceiro assunto de quatro temas deliberados por seis membros do órgão: Lucas Antonio Monteiro de Barros, Luiz Antonio Neves de Carvalho, Candido Xavier de Almeida e Souza, Manoel Joaquim de Ornellas, Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade e o tenente-coronel Rafael Tobias de Aguiar. É este último quem interveio para que a solicitação não fosse descartada de imediato.
No documento, os moradores argumentaram que a nova freguesia fora estabelecida por ordem imperial em terras pertencentes ao Hospício do Carmo da vila de “Itú”. Alegaram que o presidente daquela instituição apenas dera o terreno indispensável para se levantar a igreja e que, por isso mesmo, ficaram sem ter lugar em que pudessem edificar suas casas. Ao que parece, as residências não seriam, em um primeiro momento, para viver, mas para que pudessem “se recolher nas occaziões em que viessem cumprir os preceitos da Igreja, e tratar de outros negócios”.
Eles solicitaram, então, que o conselho determinasse a demarcação de uma área equivalente a 18 quarteirões (correspondente a 181.500 m²). A Câmara de Itapetininga, consultada anteriormente, já havia, segundo destacaram os moradores, concordado com a reivindicação.
No entanto, em resposta aos vereadores, o presidente não teria aceitado a proposta. Naquele ano, o hospício era administrado por um frade, que atuava como caseiro, o Frei Alexandre do Monte Carmelo.
Do religioso, os fregueses obtiveram, como resposta, que deveriam “comprar as terras de que precisar, a quem possa e queira vender”. Frei Alexandre alegou, ainda, que deveriam se contentar com terreno que ele dera para a construção da igreja.









