Da cabeça ao mindinho

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Não que os comentários rasamente perspicazes observados em redes sociais devam ser levados a sério, mas, eventualmente, podem servir como alerta para a necessidade de esclarecimento quanto a variados temas.

Na edição desta quarta-feira, 14, por exemplo, O Progresso noticiou que o município está para começar a etapa final de conclusão da UPA, a unidade de pronto atendimento, a partir de licitação marcada para o próximo dia 22.

Por esse processo, será feita a contratação de empresa especializada em engenharia, a ser responsável pelo término da UPA, na rua Quim Quevedo com a avenida Domingos Bassi. O prazo para complemento da obra é de 12 meses.

No final de janeiro, o “Diário Oficial” do Estado publicou a rescisão contratual unilateral, após laudos técnicos, entre a Prefeitura de Tatuí e a empresa que estava construindo a UPA. Agora, a edificação da unidade deve ser retomada.

Segundo o secretário municipal da Saúde, Jerônimo Fernando Dias Simão, o Sismob (Sistema de Monitoramento de Obras) – instrumento informatizado desenvolvido pelo Ministério da Saúde que acompanha a execução dos dispositivos financiados pelo governo federal -, 62% das obras da UPA já estão finalizadas.

A unidade de pronto atendimento tem expectativa de desafogar o Pronto-Socorro “Erasmo Peixoto”. O secretário avalia que 85% dos atendimentos realizados atualmente no local não deveriam acontecer lá.

Ele sustenta que a UPA deve acabar atendendo essa demanda de 85% de pessoas que vão ao pronto-socorro sem representar casos efetivamente de urgência. A despeito disto, mesmo após a conclusão da UPA, o pronto-socorro continuará realizando os atendimentos normalmente.

“O PS vai continuar atendendo situações de urgência e emergência, que são os 15%. A unidade de pronto atendimento 24 horas vai atender os 85% que procuram o pronto-socorro pela falta de uma unidade de pronto atendimento 24 horas. Então, a UPA vem para somar nos serviços de saúde”, argumentou Simão.

Em Tatuí, a UPA está contemplada como “Porte II”, que tem o mínimo de 11 leitos de observação, capacidade de atendimento médio de 250 pacientes por dia e área de abrangência de cem mil a 200 mil habitantes.

As UPAs fazem parte da Política Nacional de Urgência e Emergência, lançada pelo Ministério da Saúde em 2008 e que busca estruturar e organizar a rede de urgência e emergência no país.

O atendimento dessas unidades acontece 24 horas por dia, sete dias por semana, com capacidade para resolver grande parte das urgências e emergências, como pressão e febre alta, fraturas, cortes, infarto e derrame.

Mesmo possuindo estrutura simplificada, a unidade é equipada com raio-X, eletrocardiograma, pediatra, laboratório de exames e leitos de observação.

A reportagem destacava justamente a retomada do processo, por meio da licitação. Naturalmente, as informações publicadas no impresso e repercutidas no portal de notícias, como de costume, não geraram qualquer incompreensão. Já em redes sociais…

(Aliás, no início deste ano, o maior jornal do país, a “Folha de S. Paulo”, retirou-se do Facebook, e não apenas por essa rede social relutar em assumir as desinformações que por ela são veiculadas. A opção do jornal foi estratégica, procurando reforçar ainda mais o caráter de credibilidade da imprensa profissional, algo muito distante do forrobodó virtual).

Uma característica típica do indivíduo que “somente” se informa (ou pensa estar se informando) por rede social é a superficialidade da leitura, a qual, basicamente, pode ser resumida no seguinte: “Li o título. Pronto!”

O indivíduo parece acreditar que, observando somente a “chamada” – que agrupa toda uma história em uma centena de caracteres -, já está plenamente apto a sair agraciando o planeta com seus comentários preciosamente sábios – quando não, julgando com espantosa crueldade e soberba tudo e todos diante da telinha de seus celulares.

Exemplo: o cidadão rejeita – de maneira pouco polida – a afirmação de que a UPA em Tatuí jamais poderia absorver os cerca de 85% de atendimentos do Pronto-Socorro, conforme antecipado pelo secretário municipal da Saúde.

Até aí, tudo bem. A descrença quanto à “coisa pública” é realidade no país, cabendo às autoridades a busca constante do resgate da credibilidade – tal como acontece com a imprensa, mesmo a “tradicional”, também sujeita a descaminhos.

O problema é quando o descuido, o descaso, a precipitação e o egocentrismo – qualidades inerentes às redes sociais – acabam gerando a desinformação e, por derradeiro, as tão em voga “fake news”.

No caso, afirmava o desatento leitor que “todas as UPAs de Tatuí” não dão conta de desafogar a Santa Casa, então, por que essa, a ser concluída, alcançaria esse objetivo (aqui, transcrito em outras palavras).

Ocorre que – e então um belo exemplo do que se vê em redes sociais – a observação pode induzir ao erro de julgamento, dado o fato de que, até o momento, Tatuí não tem “nenhuma” unidade de pronto atendimento. Possui, isto sim, diversas “UBSs”, que são unidades básicas de saúde. São dispositivos distintos.

Para melhor explicar (a quem lê notícias por inteiro, não apenas o título):

As UBSs são a “porta de entrada do SUS”. São nelas que os cidadãos têm as consultas regulares, recebem acompanhamento, medicamentos e vacinas. Os postos costumam estar dentro dos bairros e abrangem uma determinada região, próximos de onde as pessoas trabalham, estudam e vivem.

Conforme o governo federal, “têm o mais alto grau de descentralização e capilaridade no território nacional. As equipes das UBSs devem conhecer a realidade local e as pessoas que ali vivem”.
As unidades também assumem a responsabilidade sanitária e o cuidado com as pessoas de determinada região, priorizando as necessidades de saúde mais frequentes.

Por sua vez, a UPA 24 horas é a unidade fixa de urgência e emergência. É um serviço de alta complexidade e diretamente ligado ao Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência).

Na UPA, o paciente será apenas estabilizado, pois não é uma unidade de internação. Estima-se que 90% dos problemas de saúde que chegam até essas unidades são resolvidos sem necessidade de encaminhamento ao pronto-socorro.

“Na UPA, o paciente é estabilizado pelo clínico-geral, que tem à disposição todo o equipamento de urgência. O paciente pode até ficar em observação um pouco, mas não fica mais que 24 horas. Dependendo do estado de saúde, ele é encaminhado a uma unidade de internação – um hospital – ou volta para a UBS, onde continuará sendo assistido”, informa a CGUE (Coordenação-Geral de Urgências e Emergências), do Ministério da Saúde.
Finalmente, a real função do pronto-socorro, como o nome já diz, é atender pacientes em estado de urgência ou emergência. São os que correm risco eminente de morte.

“Essa informação é o caminho correto para o bom atendimento, uma vez que, a cada dez pessoas que procuram o serviço, em média, seis não são casos de urgência”, conclui o CGUE.

Ficam as informações em detalhes e uma dica: redes sociais podem ser ótimos instrumentos de comunicação, mas, até por serem administradas por pessoas, tal o próprio corpo humano, podem carregar vírus e infinitas enfermidades.

Por sorte, o remédio a esses males é simples: a busca por informações de credibilidade, as quais devem ser examinadas da cabeça aos pés – ou melhor, do título ao mindinho do último parágrafo.