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    Cururu e a “Cantiga do Sapo”

    Aqui, Ali, Acolá

    José Ortiz de Camargo Neto *

    Tive o prazer de assistir, no sábado, 23 de agosto, a um Festival de Cururu na Praça da Matriz de nossa cidade. Ali estava, entre vários cururueiros de renome, o meu velho amigo Rubinho Veio, repentista de talento, que dá viço e alegria às trovas temperadas no ponteio da viola.

    Lembro da primeira vez que presenciei, fascinado, um espetáculo como esse. Era eu criança, e estava com meus pais na mesma Praça da Matriz. Dois repentistas acompanhados desafiavam-se mutuamente, com chistes e frases humoradas. Só sei que fiquei encantado. Gostei e não queria ir embora.

    Já lá se vai mais de meio século. E, sempre que assisto a um espetáculo como esse, a mesma emoção da infância retorna em meu peito.

    Que bom, que a tradição, a cultura popular não acaba!

    Curioso, fui ver a etimologia do vocábulo “cururu”.

    É um nome de origem tupi, que significa “variedade de sapo, também chamado sapo-cururu”. Perguntei-me, o que tem a ver o sapo com a moda de viola e o desafio? Pois tem tudo a ver.

    Tanto assim, que Jackson do Pandeiro gravou sua famosa música “Cantiga do Sapo”.

    “É assim que o sapo canta na lagoa / Sua toada improvisada em dez pés

    Tião

    Oi!

    Foste?

    Fui!

    Compraste?

    Comprei!

    Pagaste?

    Paguei!

    Me diz quanto foi?

    Foi quinhentos réis

    É tão gostoso morar lá na roça / Numa palhoça perto da beira do rio / Quando a chuva cai o sapo fica contente/ Que até alegra a gente com o seu desafio”.

    Observe o leitor as palavras usadas: cantiga do sapo, diálogo entre eles, desafio que alegra…

    Por isso o dicionário Houaiss Eletrônico registra: “talvez p.ext., 3cururu ‘espécie de dança de batuque sertanejo”.

    Traz ainda o dicionário que o termo se aplicava, em 1872, em São Paulo, Mato Grosso, Goiás a uma dança de roda acompanhada de cantos de desafio, com temática predominantemente religiosa; em São Paulo designa a variedade de desafio, em que os cantadores improvisam, acompanhando-se de violas, enquanto no Mato Grosso existe ainda, com o mesmo nome, uma dança de homens em círculo, ao som de caracaxás, cocho, tamborins e marimba.

    Vê-se, por aí, a riqueza de nosso folclore, que felizmente atravessa os séculos.

    E viva os sapos cururus, que à noite, nas lagoas, cantam e desafiam-se, alegrando a vida da gente e inspirando o nome da música dos humanos.

    Até breve.