
Aqui, Ali, Acolá
José Ortiz de Camargo Neto *
Caros amigos.
Lembro-me como se fosse hoje.
Eu era criança em Tatuí. Andava de calças curtas e camiseta, vivendo aquela liberdade que só a infância conhece. Sempre que eu passava sob a janela da minha vizinha, a Dona Imaculada, ela disparava o mesmo bordão: — Oi, Neto! E então, vai cortar a goela?
Naquela época, a amidalectomia estava na crista da onda. Ou melhor, o “corte das goelas”, no dizer da minha saudosa vizinha. Surgira na Medicina o estranho modismo de que as amígdalas eram peças sobressalentes que deviam ser arrancadas. Uma ideia que contagiou cirurgiões pelo mundo afora.
Hoje, os especialistas reconhecem que aquelas “torres de defesa” posicionadas na garganta agem como uma barreira imunológica que combatem infecções, sendo cruciais na infância. Mas, décadas atrás, a filosofia dos “doutos” era mais simplista: “Pra que serve essa parte do corpo que só sabe inflamar? Tire-se fora!”.
Meu pobre pai, influenciado pela alucinação médica da ocasião, decidiu operar os dois filhos de uma vez: eu e a Cidinha, dois anos mais velha.
Lembro-me do dia em que fomos levados ao hospital em São Paulo. Vi, então, os “cortadores de goelas” em seus uniformes brancos impecáveis. Eles nos colocaram sentados em duas enormes cadeiras estofadas, parecidas com as de dentista.
Olhei para o lado e vi minha irmã; nossos braços estavam presos por correias ao couro da poltrona. Um cenário de filme de suspense para duas crianças. Um médico aproximou-se e selou nossos rostos com máscaras que cobriam nariz e boca. — Contem até cinco — ordenou ele.
No “três”, o mundo começou a girar. Senti-me despencando num vazio. O gás fez o seu serviço e apaguei as luzes.
Acordei algum tempo depois, já no leito do hospital. Ao meu lado, meu pai sorria, equilibrando uma taça de sorvete nas mãos. Os médicos diziam que o gelado era o santo remédio para cicatrizar os cortes feitos em nossas goelas. Era o consolo doce para uma agressão amarga.
Assim como surgiu e enriqueceu cirurgiões, esse modismo saiu de cena. Hoje as restrições são imensas, mas as minhas torres de defesa ficaram naquela sala de cirurgia em São Paulo.
Depois daquele dia, quando eu passava sob a janela de Dona Imaculada, o tom mudou: — Então, Neto… cortou a goela!
Eu não respondia. Apenas baixava a cabeça e seguia em frente, sentindo a falta de algo que a ciência da época jurava que eu não precisava ter.
Até breve.
* Jornalista e escritor tatuiano.




