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    Corre o ferro, paróquia é criada, diretor sofre pressão e moradores são expulsos

    Política de Warnhagen conflita com interesses de padre e força fiéis a mudar

    Friedrich von Warnhagen, conhecido como engenheiro da modernização e o homem por trás da reforma da Fábrica de Ipanema que comandou a siderúrgica, priorizando a infraestrutura industrial em detrimento das tradições religiosas, gerando tensões que moldaram o fluxo populacional da região de Tatuí no século XIX (Foto: Retrato original/Arcinsys Hessen)

    Tatuí 200: Outros fatos, outras histórias

    Cristiano Mota

    Em 1817, eventos significativos, que se relacionam com Tatuí, ocorrem no Ipanema. Naquele ano, o ferro fundido corre, pela primeira vez, sendo utilizado para moldar três “grandes cruzes”, uma delas instalada na entrada do estabelecimento, as outras duas, nas imediações dele.

    O fato aconteceu no dia 1º de novembro, Dia de Todos os Santos, fazendo brotar duas lágrimas nos olhos de Warnhagen, que ele tratou de ocultar, dando, em seguida, ordens para que todos os empregados passassem na igreja para render graças ao Altíssimo pela nova glória.

    A igreja citada era a capela da fábrica, que esteve inicialmente sob a direção do padre Francisco de Paula Mendonça, indicado pela Junta Diretora como capelão em julho de 1811. A provisão aconteceu na sequência ao aviso do príncipe regente, datado de 27 de março daquele ano, em que Dom João VI fixou o ordenado do capelão da fábrica em cem mil réis por ano.

    A capela situava-se na margem esquerda do rio Ipanema, tendo sido construída após a denominação da fábrica e com as obras a cargo do escrivão. Era feita de “páo a pique” (taipa de pilão), erguida sobre esteios de madeira lavrada e coberta com telhas. Media cem palmos de comprimento (22 metros) e 36,5 de largura (8 metros).

    O edifício possuía uma porta principal frontal para entrada, e outra, na lateral esquerda. A área que servia de capela-mor era dividida com grades de madeira, possuía forro, assoalho, presbítero, altar, banqueta, nicho e altar-mor (retábulo liso de madeira), que abrigava duas imagens: uma de Jesus Cristo e outra do padroeiro, São João. A estátua do santo protetor media 4,5 palmos de altura (1 metro) e permanecia fixa dentro do nicho. A sacristia dispunha de móveis e alfaias (objetos sagrados, como cálices, patenas e navetas), e o templo ostentava um sino de bronze, pesando duas arrobas (30 quilos).

    Outro acontecimento representativo para Tatuí, de 1817, foi a elevação da capela da Fábrica de Ferro São João do Ipanema em matriz. A transformação ocorreu a partir da Resolução nº 27, aprovada em 19 de agosto daquele ano pela Mesa de Consciência e Ordens. O órgão eclesiástico atendeu ao requerimento dos moradores das vizinhanças da fábrica, e do Bispado de São Paulo, que pediam a criação de uma nova freguesia para que pudessem cumprir com as obrigações religiosas. A população alegou que não tinha condições de se dirigir à matriz da vila de Sorocaba, para os sacramentos, em razão da “grande distância”.

    A mesa, então, solicitou a Dom João VI que atendesse a súplica, delegando ao bispo a delimitação da freguesia, a ser instalada na mesma capela. O documento foi ratificado em 19 de agosto de 1818.

    A nova paróquia exigiu a nomeação de outro religioso. O indicado foi o padre Gaspar Antonio Malheiros, bastante conhecido dos historiadores e personagem exaustivamente vinculado à criação de Tatuí e de Campo Largo (Araçoiaba da Serra), por desmembramento eclesiástico.

    A data de sua posse, no entanto, não é precisa. Rodrigues (1952) afirma que a escolha ocorreu logo após a instalação da nova unidade católica. Minhoto (1927) aponta que a comunidade continuou anexada à então vila de Sorocaba, sem titular, até 11 de fevereiro de 1821.

    Nesse mesmo ano, em 19 de setembro, o nome de Malheiros aparece na ata de expediente de sessão da Câmara Municipal de São Paulo como vigário colado da paróquia de São João de Ipanema.

    O pároco assinou o termo da reunião, realizada sob a presidência do juiz José da Costa Carvalho, na qual foram discutidos: um requerimento da freguesia da Cotia; a publicação de um edital para colocar em praça três pontes no aterrado de Santa Anna; uma ordem para abertura e alinhamento de um beco de uso público; e a solicitação de duas cordas para execução por enforcamento de dois condenados, além de grilhões para a cadeia de São Paulo.

    A tradição insere o padre Malheiros em dois movimentos distintos que se misturam nas narrativas e são conflitantes, especialmente, em relação às datas e motivações. O primeiro é a criação da freguesia de São João do Ipanema; o segundo, a transferência da sede paroquial para outro local.

    Quando se referem à instalação, como visto anteriormente, os autores citam datas diferentes, mas, para explicar a mudança de sede, a maioria diz que esse fato se deu devido a um desentendimento iminente entre o vigário colado e Warnhagen, que dirigiu a fábrica até 1822.

    Essa divergência resulta de um conflito de interesses administrativos e territoriais e da pressão que o diretor sofria por resultados. Conforme Minhoto (1927) e Rodrigues (1953), Warnhagen opôs-se à criação da paróquia, alegando que o povoado de Ipanema deveria ser exclusivamente voltado para os operários da fábrica, os quais já dispunham de uma capelania.

    O diretor representou ao governo os supostos prejuízos da instalação da freguesia. Dom João VI, no entanto, manteve a paróquia no local original, por alvará de 22 de fevereiro de 1820.

    Souza (1915) — ao tratar das tensões decorrentes da criação do novo território eclesiástico — complementa que, mesmo após a decisão real, os moradores enfrentaram restrições severas, como a proibição de cortar madeira ou edificar casas nos terrenos da fábrica.

    Tais limitações levaram-nos a solicitar ao bispo Dom Matheus de Abreu Pereira, também Morgado de Mateus, a transferência da sede paroquial, o que foi autorizado em 3 de maio de 1821.