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    Casal de artistas lembra restauração de 11 anos da Igreja Matriz de Tatuí

    João Campos Filho e Ivone Mírian Kabazi têm marcas indeléveis no templo

    Painel atrás do altar
    Da reportagem

    O casal de artistas João Campos Filho, hoje com 82 anos, e Ivone Mírian Kabazi, atualmente com 71 anos, foram os responsáveis pela mais recente restauração realizada na Basílica Nossa Senhora da Conceição de Tatuí, que durou de 1994 a 2005. Desde essa época, o casal passou a residir no município, vindo de Santos.

    Nascido em família humilde, Campos Filho desde cedo demonstrou vocação para o desenho e a pintura. Autodidata, iniciou a carreira em ateliês de São Paulo e, ao longo das décadas, dedicou-se à criação de inúmeras obras, do figurativo às paisagens.

    Ivone Mírian Kabazi e João Campos Filho

    Pintor desde os 14 anos, também trabalhou com letreiros e decorações comerciais, executando desenhos temáticos e publicidade, antes de se especializar em arte sacra no início da década de 1980.

    Em entrevista ao jornal O Progresso de Tatuí, o casal conta ter realizado restaurações em diversas igrejas, nas cidades de Torre de Pedra, Porangaba, Sarapuí, Avaré e Capela do Alto, entre outras.

    Também executaram trabalhos em Cerquilho, Angatuba, Itapetininga, São Paulo, Santos e São Vicente, além de restaurações de imagens sacras em madeira e gesso e serviços de arte decorativa.

    Entretanto, a maior obra aconteceu em Tatuí, com a reforma em diversas estruturas e a revitalização de praticamente todo o acervo artístico da Igreja Matriz, entre os anos de 1994 e 2005. Foram 11 anos ininterruptos de trabalho – inclusive, aos sábados -, com jornada média de oito horas diárias.

    A restauração teve início em 6 de setembro de 1994, com a retirada dos painéis para a reforma do teto do templo, que havia sido prejudicado pela ação do tempo e dos cupins, além de infiltrações. O forro original de madeira foi substituído por PVC. Após a conclusão da estrutura, começou a segunda etapa: a restauração das pinturas.

    Em 26 de agosto de 1996, os artistas deram as primeiras pinceladas para recolocar no teto as imagens que, por décadas, o povo tatuiano se acostumou a ver. A pintura concentrou-se especialmente nos seis arcos centrais do teto, existentes desde 1935, com aproximadamente 16 metros de comprimento por 5 metros de largura cada, projetados pelo italiano Mário Tomazzi.

    Cada arco representa duas cenas bíblicas relacionadas aos Dez Mandamentos. Todo o teto foi retirado e refeito, resultando praticamente em uma capela nova.

    A antiga pintura era feita em telas, que atualmente estão em Sorocaba. Essas artes eram fixadas na estrutura do teto e serviram como principal referência para as reproduções.

    As novas pinturas foram executadas diretamente no forro de PVC, já que o material não permite colagem. Segundo Ivone, as telas serviram como referência de cores e desenhos, além de fotografias. “Teve desenho que foi o dia inteiro para preparar a cor, porque não chegava ao tom exato”, relata ela.

    O processo era minucioso: lavagem com sabão de coco e enxágue com água limpa; lixamento da área; aplicação de dois fundos preparadores; marcação dos riscos dos desenhos; e, por fim, a pintura.

    Detalhe de parte do teto restaurado da Basílica N. Sra. da Conceição

    Após estudo detalhado das cores para alcançar o tom original, cada desenho recebia “quatro mãos”, ou seja, era pintado quatro vezes até se atingir a densidade adequada à transparência da tinta.

    Para alcançar a textura e tonalidade mais próximas das originais, foi necessário recorrer a marcas importadas. Tudo isso sob calor de até 40 graus, no alto de andaimes.

    No início do trabalho, os artistas também precisaram corrigir erros de medidas nos arcos, que não correspondiam exatamente às telas deixadas como registro. A conferência das proporções exigia constantes descidas dos andaimes para comparação com as imagens originais.

    Estima-se que os desenhos permaneçam por mais de 60 anos sem alteração nas cores. Uma particularidade da restauração é que, ao término de cada fase, os artistas registravam uma data no desenho, sempre próxima à conclusão, mantendo a ordem cronológica. O terceiro quadro da direita, da porta de entrada em direção ao altar, recebeu a data “03-01-98”, aniversário do celibato do monsenhor Teotônio dos Reis e Cunha – responsável pelo convite a Campos Filho para que viesse a Tatuí e assumisse a restauração.

    Segundo o casal, o trabalho envolveu toda a igreja: corpo, altar, corredores, sacristia e Capela do Santíssimo. “Onde a gente passava, deixava tudo brilhando e bonito”, sustenta Ivone.

    Na Capela do Santíssimo, inicialmente, seria apenas feita a pintura, mas, ao bater na parede, Campos Filho percebeu que estava oca. A comissão da reforma foi comunicada, e um pedreiro refez a estrutura antes da nova aplicação de pintura.

    Reprodução da Santa Ceia já revitalizada pelos artistas

    Sobre como reproduziu as pinturas após a remoção total das paredes, o artista explica que utilizou fotografias e registros das telas originais, reproduzindo fielmente o conjunto artístico.

    Campos Filho relata que os quadros maiores retratam passagens do Antigo Testamento e os menores, do Novo Testamento. E observa que, acima de cada quadro, havia uma numeração correspondente aos Dez Mandamentos.

    Ao concluir cada quadro, também costumava inserir números em homenagem aos filhos, ao casal ou ao monsenhor, utilizando aniversários ou datas simbólicas, como a do celibato.

    Durante a revitalização, o casal chegou até a fazer seguro de vida, pois passava longos períodos em quatro andaimes, sendo que, na época, não se utilizavam equipamentos de segurança obrigatórios.

    Uma das grandes dificuldades era a altura da igreja, que acabou sendo “impeditiva” à contratação de ajudantes com coragem suficiente para o trabalho. Ivone passou, então, a auxiliar diretamente no restauro.

    Arcos da cúpula principal da Matriz após a restauração

    “Para perder o medo, eu apertava o parafuso do andaime várias vezes depois que ele (o marido) já tinha apertado”, conta ela.

    Os detalhes e desenhos menores foram considerados os mais trabalhosos. Ivone gostava especialmente da estamparia e dos detalhes, enquanto Campos Filho fazia acabamentos.

    Muitas vezes, ao terminar um arco, ela precisava retornar ao início e não conseguia enxergar o que já havia feito, por trabalhar muito próxima da pintura, sobre o andaime.

    As medidas também exigiam atenção constante. “Falei para ele: você deixa os riscos e eu vou deixando as medidas para ficar tudo certo e alinhado, porque, em cima do andaime, não enxergava o outro lado, apenas branco”, relata.

    O primeiro desenho do teto foi projetado por Mário Tomasi, o que exigiu fidelidade ao estilo original.

    Atrás da capela, o artista escreveu o nome de Cunha, dos pintores e a data correspondente, registrando oficialmente a autoria da restauração.

    Autodidata

    Campos Filho conta que, quando morava em Santos, trabalhou em uma empresa de letreiros e decorações. Em final de ano, desenhava Papai Noel e figuras políticas da cidade, aprimorando a técnica.

    O ingresso nas pinturas sacras também ocorreu em Santos, após indicação de um engenheiro paroquiano que buscava realizar reforma em uma igreja. A partir desse trabalho, surgiram outros convites, até que Campos Filho conheceu o monsenhor Teotônio, por intermédio de uma irmã do religioso, residente em Santos.

    Atualmente, Campos Filho ainda aceita alguns trabalhos, mas apenas aqueles que não exigem escadas ou andaimes, como placas ou pinturas, “até a altura da porta”.

    Ele diz que se sente recompensado. “Eu não tinha preocupação se iam achar que ficou bom ou não. A satisfação eu tive desde o momento de começar, preparar a tinta ou riscar um desenho. Tive satisfação o tempo todo por fazer o que eu gosto”, conclui o artista.